Edição 374 | 26 Setembro 2011

A dimensão comunitária de Lima Vaz, Taylor e MacIntyre

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Márcia Junges



IHU On-Line – Como se dá a relação entre o reconhecimento ético e as virtudes na filosofia desse pensador?

Elton Vitoriano Ribeiro – Uma definição da perspectiva de Lima Vaz é aquela com a qual ele mesmo interpretou seu trabalho: “reencontrar a tradição na contemporaneidade”. Esta autocompreensão ele a expressou dizendo que, para ele, tradição e contemporaneidade entrelaçam-se indissoluvelmente no ato de pensar filosoficamente, meditando, investigando, ensinando e aprendendo. Ora, no discurso ético de Lima Vaz, essa relação entre tradição e contemporaneidade pode ser lida a partir de dois filósofos, Aristóteles e Hegel. Com Hegel, Lima Vaz pensa a dinâmica da luta pelo reconhecimento como princípio do discurso sobre a intersubjetividade ética. Com Aristóteles ele interpreta a vida ética como uma vida na virtude. Com este pano de fundo, eu penso que em Lima Vaz existe uma circularidade dialética entre reconhecimento ético e virtudes. Minha interpretação é a de que é possível compreender a ação ética do indivíduo com relação ao outro como ação virtuosa, na medida em que, buscando o reconhecimento recíproco, cada indivíduo possui como horizonte uma vida virtuosa em uma sociedade organizada racionalmente.

IHU On-Line – Qual é o nexo que aproxima essas ideias às de Charles Taylor e Alasdair MacIntyre?

Elton Vitoriano Ribeiro – Em minhas pesquisas eu investiguei o universo simbólico da sociedade contemporânea e a dinâmica da intersubjetividade ética. Meu estudo foi confrontar as posições dos três filósofos citados. A escolha destes filósofos eu fiz especialmente por certas concordâncias na herança filosófica destes autores: Aristóteles e Hegel. Aristóteles no caso de Lima Vaz e MacIntyre. Hegel no caso de Lima Vaz e Taylor. A herança aristotélica de MacIntyre eu encontro em sua reinterpretação da ética das virtudes. Para MacIntyre, os fundamentos da lei e das virtudes devem ser buscados nas tradições e nas relações intersubjetivas que constituem uma determinada comunidade. O vínculo central é uma visão dos bens comuns partilhados pelos membros de determinada tradição e comunidade. Esta é a forma de restituir a inteligibilidade e a racionalidade no empenho moral e social das sociedades contemporâneas. A herança hegeliana de Taylor encontro na reinterpretação da questão do reconhecimento. Ainda, para Taylor o homem é um animal social que age privilegiando certos fins e valores que são normalmente compartilhados socialmente. Estes fins e valores fazem parte do horizonte de sentido compartilhado a partir do qual cada indivíduo vive sua identidade. A partir de Hegel, Taylor interpreta a eticidade e a racionalidade como sendo fundadas socialmente. Por sua vez, Lima Vaz herda de Aristóteles a interpretação do ethos como mundo das coisas humanas. Mundo onde o ser humano vive racional e livremente suas práticas éticas, as quais se traduzem em exercícios das virtudes como uma ordenação permanente e progressiva do agir ético ao horizonte universal do bem.
Assim, a virtude, como qualidade do sujeito e como movimento para um crescimento humano, é a categoria segundo a qual deve ser interpretada a universalidade da razão prática operando na vida do indivíduo e na vida da comunidade. De Hegel, Lima Vaz herda a questão do reconhecimento como o primeiro momento para a efetivação concreta da autoafirmação do sujeito como eu, que acontece sempre no encontro com o outro. Nesse encontro, o coexistir é constitutivamente um coexistir em um espaço ético, espaço de relações, de fins comuns e de horizontes partilhados.

Uma sociedade enigmática

Também, no caso destes três autores, é importante perceber semelhante avaliação de perplexidade com relação à situação atual da sociedade. MacIntyre fala de um desacordo moral da modernidade, em que a linguagem da moralidade contemporânea está num estado tão grave de desordem que não possuímos mais que fragmentos de um esquema conceitual que juntos não formam um todo coerente. Para Taylor, a sociedade contemporânea sofre um agudo mal-estar que tem suas raízes no individualismo, no primado da razão instrumental e num despotismo suave no qual as instituições e as estruturas da sociedade técnico-industrial restringem nossas escolhas. Este mal-estar triplica-se numa perda de sentido, a qual obscurece os horizontes morais (nível ético), eclipsa o horizonte dos fins (nível teleológico) e diminui o horizonte da liberdade (nível político). Por sua vez, para Lima Vaz, a sociedade contemporânea se apresenta como enigmática, a saber, como uma sociedade avançada em sua razão técnica e indigente em sua razão ética.
Apesar das diferenças de abordagem à questão ética por parte destes autores, eles apresentam uma mesma preocupação com a dimensão comunitária, vale dizer intersubjetiva, da questão ética na sociedade contemporânea. Não é de surpreender-se que MacIntyre e Taylor são, muitas vezes, colocados entre os filósofos comunitaristas. Ora, a mesma preocupação não é ausente na reflexão ética de Lima Vaz. Porém, diferentemente de MacIntyre, que faz uma reinterpretação da tradição aristotélica das virtudes, e diferentemente de Taylor, que faz uma reinterpretação da tradição hegeliana do reconhecimento, Lima Vaz interpreta aquilo que ele chama de categoria de intersubjetividade ética, numa dialética construída entre a ideia hegeliana de reconhecimento com a noção aristotélica das virtudes. Desta forma, a reflexão de Lima Vaz, ao se situar com e entre MacIntyre e Taylor, acrescenta um elemento de novidade ao construir uma leitura da intersubjetividade ética a partir de uma interpretação que, à sua maneira, relacione dialeticamente Aristóteles e Hegel. Aristóteles, a partir de uma leitura acerca do conteúdo das virtudes. Hegel, a partir de uma leitura da forma dialética do reconhecimento. Para mim, este intento faz parte do esforço filosófico de Lima Vaz de interpretar a “tradição na contemporaneidade”.

IHU On-Line – Qual é a atualidade do pensamento vaziano em termos éticos? Em que sentido suas ideias inspiram um novo agir para nosso tempo?

Elton Vitoriano Ribeiro – A atualidade está em que, ao mergulharmos no pensamento de Lima Vaz, somos inexoravelmente levados, em constante diálogo com a tradição, a compreendermos a nós mesmos e nossa sociedade, seus caminhos e descaminhos, suas vitórias e suas derrotas, seus oásis e seus desertos, na ânsia humana de superar as vicissitudes da vida. Ora, o trabalho de reflexão de Lima Vaz quer ser um pensamento que responda aos desafios éticos presentes em nosso tempo a partir de uma rememoração de toda a tradição filosófica. Desta forma, o pensamento ético de Lima Vaz quer ser um instrumento conceitual que nos permita pensar nossa existência ética com os outros no mundo.

Por outro lado, a arquitetônica construída por Lima Vaz, assim eu entendo, amplia grandemente nosso campo de visão filosófica sobre a modernidade, seus desafios éticos e suas possíveis soluções. Mas não é só isso. Ele articula diferentes categorias importantes para o pensar contemporâneo como ethos, cultura, razão prática, reconhecimento, consenso, comunidade ética, consciência moral social, justiça, identidade ética, dignidade humana, buscando compreender as partes no todo, compreender as intrincadas conexões e relações das categorias éticas no todo da reflexão ética, escapando do risco de ficarmos condenados a uma eterna e variada multiplicidade de situações desconexas. Como é fácil perceber, a reflexão filosófica de Lima Vaz, ao buscar revelar o que existe de mais profundo no nosso existir, nos apresenta necessariamente desafios para a compreensão e para a ação. Estes desafios têm como raízes o nosso próprio existir em comum.

Para ilustrar penso em dois exemplos. O primeiro desafio será o da política, ou melhor, da cisão moderna entre ética e política. Como bem sabemos, a arte da política tem a delicada tarefa de conciliar o possível e o melhor. Esta arte é uma invenção grega que nasce no momento em que as cidades gregas se constituem democraticamente. Surge, então, a necessidade de apelar aos conceitos e procedimentos da razão para estabelecer os critérios e as regras do consenso cívico. A política vai surgir como a busca de um consenso racional em torno do mais justo, que será por definição o melhor para a cidade. A pergunta então será a de como fazer da ação política uma ação razoável, ou seja, obediente a normas de convivência racional consensualmente aceitas.
 
Arquitetônica da economia

O econômico também nos trará desafios, isto porque, a primazia dada ao funcional e ao operacional na sociedade em que vivemos faz da eficácia, da produtividade, da utilidade, do remunerável, do lucrativo, critérios que ultrapassam todos os limites para se estender ao âmbito do existir em comum. Como consequência, reconhecimento e consenso éticos estão em alto grau de precariedade. Isto porque, reconhecimento e consenso são frutos, muitas vezes, não de um imperativo ético, mas de toda uma arquitetônica da economia em que as capacidades de aquisição e de consumo são os principais fatores para uma possível avaliação do valor do outro. O mercado financeiro como eixo organizador das sociedades capitalistas simplesmente neutraliza a tradição cultural, as estruturas simbólicas do mundo vivido, o fundamento normativo dos conceitos de ação, bem como desconsidera o mundo do existir em comum subjacente a ele. Neste contexto, temos como desafios para a compreensão pensar o lugar do econômico a partir da ética, ou seja, a partir de uma comunidade de reconhecimento e consenso que se realiza na justiça. Comunidade que enfrenta questões como, por exemplo: a vida humana está orientada somente para a necessidade e acumulação de bens materiais? A produção ilimitada e o consumo sem fim constituem os objetivos centrais da vida humana? A questão econômica não deveria caminhar em direção da efetivação da justiça social e ecológica a nível mundial? Quais os mecanismos que nos possibilitarão contrapor à lógica excludente global uma lógica de reconhecimento e consenso ao nível econômico?

Apresentei apenas dois exemplos. Mas o mais importante é que a reflexão de Lima Vaz converge para essa simples e profunda evidência de que a ética, antes de ser um assunto de eruditos e ilustrados, é um programa pedagógico que visa educar o indivíduo e a comunidade para a vida plenamente humana. Sem educação ética, podemos afirmar, não há autêntica participação política, não há direitos humanos, não há constituições justas, não há predomínio do humano sobre o econômico. A tarefa primordial da ética será a de ser uma verdadeira educação para a liberdade. O mundo ético será não uma dádiva graciosa da natureza, mas uma lenta, dura e exigente conquista da civilização. Uma conquista permanente, sempre recomeçada e sempre ameaçada pela queda.
 
IHU On-Line – Dentro de sua obra, qual é a posição de Raízes da Modernidade, e quais são os aspectos mais importantes que traz ao debate filosófico?

Elton Vitoriano Ribeiro – Para mim, nessa última obra de Lima Vaz, em que apresenta suas inquietações filosóficas e seu pensamento mais maduro, é importante a discussão sobre aquilo que chamo de universo simbólico da sociedade contemporânea. Nesta obra, Lima Vaz busca pensar uma “dialética entre continuidade e descontinuidade” que lhe permita definir, na sociedade contemporânea, o novo em relação ao progressivo desaparecimento do antigo. Entre as várias interpretações, ele escolhe algumas para ilustrar sua tentativa de compreender a situação da sociedade contemporânea em relação a seu passado. Para isso, Lima Vaz discute várias interpretações.

Algumas interpretações identificam na sociedade contemporânea a presença de arquétipos teológicos tradicionais que, distantes da transcendência, são compreendido na imanência do acontecer histórico. Exemplos desta leitura são as análises de Carl Schmitt  (leitura política), Karl Löwith  (leitura historicista) e Eric Voegelin  (leitura teológico-metafísica). Por outro lado, analisa Lima Vaz, outros intelectuais partem da compreensão da sociedade contemporânea como um acontecimento único na história da humanidade. Exemplos desta leitura são as obras de Marcel Gauchet  e Hans Blumenberg , em que, neste novo mundo da vida, o ponto central é a autoafirmação do indivíduo que se manifesta na atitude da curiosidade teórica diante de um mundo a ser compreendido e transformado, e que se torna fundamento último de si mesmo e do mundo.
A partir destas análises e buscando entendê-las à luz da dialética de continuidade/descontinuidade, Lima Vaz postula que as ideias que fundam a sociedade contemporânea não são simples transposições das categorias teológicas cristãs para o universo da imanência política, mas gozam de certa legitimidade como aponta Blumenberg. Por outro lado, para ele não são totalmente novas em relação ao passado, mas possuem suas raízes nas disputas teológico-filosóficas medievais. A articulação desta hipótese ocupa grande parte do seu trabalho Raízes da Modernidade, em que ele, analisando as controvérsias medievais do século XIII, busca compreender o surgimento de uma nova idade na história intelectual do Ocidente a partir da nova configuração do universo simbólico que começa a surgir. Será este novo universo simbólico, marcado pelo abandono da metafísica do ser com a filosofia de Duns Scot, a filosofia nominalista de Ochkam e a metafísica de Suarez, que preparará para Lima Vaz o advento da razão moderna.

IHU On-Line – Por que Lima Vaz é chamado de peregrino do Absoluto?

Elton Vitoriano Ribeiro – Eu penso que esta afirmação pode ser ilustrada acompanhando a importância da problemática da transcendência no pensamento de Lima Vaz. Para ele, o ser humano se abre ao outro e à história. Isto será expresso pela categoria de intersubjetividade. Mas, também, o ser humano pode abrir-se ao Absoluto, num mais elevado nível relacional, que se exprime na categoria de transcendência. Todavia, da mesma forma com que o ser humano é um sujeito de uma relação propriamente humana, porque nele o espírito suprassume o corpo próprio e o psiquismo, assim o seu mundo só se constitui como tal porque a relação de transcendência suprassume as relações de objetividade e intersubjetividade. Desta forma, o ser humano só se abre à realidade objetiva na forma de um mundo humano porque movido intencionalmente pela sua ordenação profunda ao Absoluto, seja ao Absoluto formal, como universalidade do Ser, seja como Absoluto real, Deus. Penso que podemos afirmar que, para Lima Vaz, a figura do Absoluto habita o universo intencional do ser humano e acompanha como uma sombra todas as suas formas de autoexpressão e a sua autoposição como sujeito, pela qual ele se faz presente entre os seres. Desta forma, no seu manifestar-se a si mesmo ou na sua reflexão sobre si mesmo, o ser humano desvela a sua ordenação essencial ao Absoluto, ordenação que constitui o dinamismo ontológico fundamental do espírito humano e que exprime a ordenação do ser humano, como ser inteligente, para a Verdade, e como ser livre, para o Bem.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Elton Vitoriano Ribeiro – Para encerar eu gostaria de afirmar que, ao estudar o pensamento de Lima Vaz, fico com a certeza de que me foi permitido mergulhar, apesar de minhas limitações, no pensamento de um grande autor de nosso tempo, pensamento que busca a compreensão da realidade nos mais diferentes aspectos e em sua significação dentro do todo. Pensamento que exige empenho para ser compreendido, mas que oferece a todo aquele que ousa sua travessia uma nova compreensão de nossa época, de nosso mundo da vida, de nós mesmos. E, oferece como recompensa, o desfrutar da serena e doce alegria da inteligência. Por isso, eu comparo a obra de Lima Vaz a uma catedral. Catedral que, numa exposição de grande rigor e beleza formal, à maneira de uma catedral gótica feita de conceitos, armada em articulações simétricas e elegantes, expõe a existência naquilo que ela possui de mais essencial. E se, como vivemos os cristãos, entramos numa catedral para louvar a Deus e saímos para servir aos irmãos, mutatis mutandis, entramos no pensamento de Lima Vaz para contemplar o Absoluto e a existência e saímos para assumir responsavelmente nossa existência com os outros, no mundo.

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