Edição 374 | 26 Setembro 2011

Uma obra para refletir sobre nossa época

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Márcia Junges

Legado vaziano reflete as “urgências de nossa cultura”, pontua Álvaro Mendonça Pimentel, ex-aluno de Lima Vaz. Apesar de ser considerado uma “lenda” pelos alunos, o grande mestre mantinha sua simplicidade e modéstia

“Vencendo a tendência contemporânea a dilacerar o sentido presente na linguagem, Vaz convida seu leitor a rememorar os modos de expressão do ser humano e o conduz, nessa rememoração, a percorrer os grandes problemas teóricos e culturais de nosso tempo”. A análise é de Álvaro Mendonça Pimentel, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, “o que marca a obra de Vaz é a sua reflexão sobre o nosso tempo, as nossas questões, as urgências de nossa cultura”. A respeito do humanismo teocêntrico de Lima Vaz, Pimentel observa: “Nesse sentido, contra o desalento de um ser humano que se compreenderia como mero acidente de um universo determinista, ou como ser puramente biológico e condicionado geneticamente, o humanismo teocêntrico vem defender a dignidade única do humano, sua liberdade e capacidade criativa”. Orientando na graduação em Filosofia por Lima Vaz, Pimentel recorda que os estudantes o consideravam uma lenda, embora ele não se comportasse como tal: “para minha surpresa e alegria, Vaz se mostrou disponível, simples e até modesto”.

Álvaro Mendonça Pimentel é professor na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE. É graduado em Filosofia nessa instituição e em Teologia pelo Centre Sèvres, nas Faculdades Jesuítas de Paris. Cursou mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e doutorado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG com a tese A lógica da ação de Maurice Blondel: explicitação crítica na ação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são suas maiores recordações de Lima Vaz como pessoa?

Álvaro Mendonça Pimentel – Minha convivência com Lima Vaz ocorreu principalmente nos três anos em que fui aluno do curso de filosofia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, em Belo Horizonte, no período de 1993 a 1995. Assim, o conheci primeiramente como professor de história da Filosofia Antiga e de Ética. Já era então filósofo consagrado no cenário acadêmico nacional. Suas publicações faziam dele um dos principais pesquisadores da área de filosofia, nos domínios da ética, da antropologia filosófica e da metafísica. Sua fama e o respeito unânime por sua produção intelectual também promoviam uma tradição oral em torno de vários momentos de sua vida, criando, como é comum nesses casos, verdadeiras lendas. Não mentiras, mas fatos narrados fielmente, em que sempre se acrescenta algo saboroso, para tentar traduzir o sentimento vivido. Assim, por exemplo, o Vaz dos anos da UFMG, cujas aulas eram gravadas e filmadas por alunos eem que, dizem os que lá estiveram, reinava um silêncio e uma atenção reverente ao mestre em sua cátedra. Ou antes, o Vaz da época da ditadura militar que, interrogado em Juiz de Fora, respondia a todas as questões que lhe eram feitas, embora nem sempre quem o interrogasse conseguisse compreender o que ele dizia... E há dezenas de pequenas histórias divertidas e mesmo comoventes em que a realidade se transfigura em lenda, para traduzir seu sentido profundo.
Digo tudo isso para que o leitor compreenda que, quando conheci o Lima Vaz, ele já era um grande intelectual, um filósofo e pesquisador respeitado e, no círculo de amigos mais próximos, uma verdadeira lenda. Era normal, portanto, que um jovem iniciante em filosofia temesse aproximar-se de um mestre daquela estatura. Mas, para minha surpresa e alegria, Vaz se mostrou disponível, simples e até modesto. Estava sempre pronto para responder a minhas dúvidas e com que paciência! Acolhia-me para conversas filosóficas em privado, aconselhava leituras, sempre oferecendo livros em que houvesse um pequeno (por vezes, grande!) desafio ao leitor. Lembro-me, por exemplo, de me fazer ler o primeiro volume da Histoire de la pensée, de Jacques Chevalier , no primeiro semestre do curso. Quanto à lista de obras de grandes filósofos da tradição, essa incluía textos escolhidos de Platão, Aristóteles, Agostinho, Santo Tomás, Descartes, etc. Textos cheios de enigmas indecifráveis para um iniciante, mas também já repletos de luzes e conduzindo a horizontes amplos e desafiadores.

Sabedoria encarnada

Após o curso, parti para continuar minha formação e mantive contato epistolar e por telefone. Nascia assim uma amizade discreta e fiel, marcas da personalidade desse mestre ouro-pretano. Quando retornei à FAJE, em 2002, encontrei Lima Vaz mais debilitado fisicamente, lutando contra momentos passageiros de depressão senil, mas com aquele mesmo brilho, aquela mesma memória impressionantes. Tínhamos planos de trabalhar juntos, pois eu desejava fazer meu doutorado em Belo Horizonte. Mas Vaz submeteu-se a uma cirurgia que, mal sucedida, o conduziria a um calvário hospitalar de um mês – e à morte. Pude então testemunhar sua nobreza diante do sofrimento, consolando e animando os parentes que vinham visitá-lo. Conheci a força que lhe vinha da oração dos salmos e da eucaristia. Vaz não era apenas um erudito, mas um filósofo cuja sabedoria se encarnou na vida: ele não temeu a morte. E um cristão cuja fé não esmoreceu no último momento.

IHU On-Line – A máxima de Santo Agostinho “crê para entenderes e entende para creres" norteava Lima Vaz desde o início de sua trajetória intelectual e religiosa. A partir dessa concepção, como podemos entender sua relação com a filosofia e a fé?

Álvaro Mendonça Pimentel – Creio que não seria correto falar em “relação com a filosofia e a fé”, no caso de Vaz, caso se entendesse assim que filosofia e fé são objetos com os quais alguém se relaciona. Vaz era filósofo porque acreditava em Deus. Trata-se de uma atitude vivida. O encontro com Deus veio primeiro. A fé pessoal em Deus era vivida por Lima Vaz numa referência constante e agradecida ao testemunho recebido na família e, sobretudo, de sua mãe. Com isso não estou dizendo que Vaz tinha uma fé infantil, mas recordando um dado antropológico fundamental, e que marcará, aliás, a reflexão ética do filósofo Vaz: somos introduzidos no dom gracioso da fé graças ao testemunho que alguém, também digno de fé, dá da existência de Deus e de seu bem-querer para com a humanidade. A confiança é experiência inaugural de toda abertura humana ao mistério de Deus. Mas também de toda adesão livre aos costumes, valores e modo de vida de uma comunidade ética. Penso que essa confiança originária explica a coragem intelectual do Lima Vaz e a sua capacidade de enfrentar grandes desafios.

A fé cristã é dom gratuito. No entanto, mais cedo ou mais tarde, ela deverá ser acolhida livremente na vida. Eis o momento preciso, o momento da liberdade, em que a fé solicita a inteligência, pois, como não cessou de recordar-nos o Pe Vaz, não há ato livre que não carregue em seu seio um juízo sobre a verdade do bem em jogo nesse ato. O ato de fé, portanto, solicita a inteligência. E, no caso de Vaz, a solicitava, a provocava, a pensar a ação humana e o ser humano como capazes de Deus.

O teólogo desdobra, interpreta, acolhe o conteúdo da fé em seu discurso teológico. O filósofo, como é o caso de Vaz, examina o que é a realidade e o que é homem, para que também algo como a fé tenha se produzido. Nesse sentido, e embora não seja essa a intenção de sua Antropologia filosófica (vol. I e II) ou de sua Ética filosófica (Escritos de Filosofia IV e V), o estudo desses dois grandes textos pode preparar o caminho humano de quem um dia, não tendo recebido a fé no seio materno, sinta-se chamado a crer em Deus.

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