Edição 348 | 25 Outubro 2010

Interpretações históricas e atuais da experiência jesuítica

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Patricia Fachin | Tradução Moisés Sbardelotto

Atuais pesquisas historiográficas tentam superar visões simplistas das missões jesuíticas e as reconhecem como espaços religiosos, culturais e políticos; um espaço de interação e negociação coletivas, assinala Guillermo Wilde

O modelo missionário estabelecido pelos jesuítas, que, além de responder ao objetivo de “converter a população nativa ao cristianismo”, controlava fronteiras territoriais e políticas nas áreas dos confins ibéricos, só foi possível devido à aliança política estabelecida entre indígenas e jesuítas. “Progressivamente, essa elite indígena letrada, capaz de escrever, ler e tocar instrumentos musicais, foi se transformando no motor da organização missionária, sem a qual o regime não teria podido se manter durante tanto tempo”, menciona Guillermo Wilde. Segundo o pesquisador, as “missões não foram uma organização igualitária. Formavam parte do regime colonial mais amplo e respondiam a seus requisitos jurídicos, econômicos e políticos básicos”. Em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, Wilde menciona que pesquisas recentes sobre os espaços missionários estão “produzindo uma mudança substancial de perspectiva e de avaliação do passado missionário. (...) Parece superada a visão clássica segundo a qual os indígenas foram simples marionetes dos religiosos ou então sujeitos passivos e submissos à ação missionária”.

Guillermo Wilde é doutor em Antropologia Sociocultural pela Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires, e atualmente é professor na Universidad Nacional de San Martín – UNSAM, na Argentina. Ele participará do XII Simpósio Internacional IHU – A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade, ministrando a conferência intitulada Religião e poder nas missões, no dia 28-10-2010. Recentemente, seu livro Religión y Poder en las Misiones de Guaraníes ganhou o prêmio Iberoamericano de la Latin American Studies Association (LASA 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que contexto histórico surgiram as missões?

Guillermo Wilde – A criação das missões jesuíticas se produziu em contexto histórico complexo que, para ser compreendido, exige que se considerem numerosos elementos e variáveis, assim como modulações processuais ocorridas ao longo de mais de um século de ação missionária. De um ponto de vista geral, em princípios do século XVII nos encontramos em uma fase de expansão dos Impérios Ibéricos no mundo inteiro, no qual as ordens religiosas, especialmente a Companhia de Jesus, adquirem relevância crescente não só na legitimação dessa expansão ibérica, mas também na definição de políticas de governos ultramar, particularmente no que se refere às populações nativas, mas também com respeito ao controle de outros setores da sociedade colonial.
O modelo missionário estabelecido pelos jesuítas não só respondia ao objetivo de converter a população nativa ao cristianismo, expandindo as fronteiras simbólicas de uma monarquia católica concebida como universal (não esqueçamos que Portugal e Espanha se unificaram entre 1580 e 1640 sob os Austrias), mas também de controlar fronteiras territoriais e políticas muito concretas em áreas relativamente marginais dos confins ibéricos. A região fronteiriça estava povoada por grupos de índios hostis que resistiam à conquista e à evangelização. Por essa razão, os jesuítas tiveram que ensaiar muitas estratégias que oscilaram entre a coerção e o convencimento das populações locais para que aceitassem a incorporação a povos de redução. Não haviam sido suficientes os esforços dos franciscanos, que haviam estabelecido uma política de povos de índios ligada à ação dos “encomenderos”. Com a sua chegada ao Paraguai, os jesuítas propuseram um novo desenho para a política de reduções, que permitisse subtrair os indígenas do controle destes “encomenderos”, para fazer com que tributassem diretamente à coroa.

Outro elemento importante desse contexto é o avanço das tropas dos bandeirantes paulistas ao interior, com o objetivo de capturar escravos indígenas para transladá-los à costa do Brasil. As missões foram destruídas por essas tropas em sua primeira fase, e o problema só foi resolvido com o translado da população reduzida para o sul e a criação de um regime militar que permitisse aos índios defenderem-se com armas de fogo contra os ataques. A política missionária só se consolidou no século XVIII, quando se formou um regime político, econômico e militar sujeito à administração colonial, mas gerido, em nível local, pelos líderes indígenas e os jesuítas.

Em conclusão, devem-se considerar as sucessivas etapas de um longo processo de “etnogênese missionária”, que levou mais de um século, nas quais intervieram diversos fatores locais e globais, muitas vezes contraditórios.

IHU On-Line – Como ocorreu o processo evangelizador nas missões jesuíticas?

Guillermo Wilde – Para a criação das missões, os jesuítas se ampararam na legislação indígena e em uma série de regulamentações criadas para proteger a população indígena. Particularmente importantes nesse sentido foram as conhecidas Ordenanças de Alfaro, ouvidor da Audiência de Charcas . Com o apoio do governador do Paraguai, Hernando Arias de Saavedra, e do bispo de Tucumán, os jesuítas provenientes do Peru e do Brasil iniciaram uma ativa política missionária em diversas áreas. As missões, junto aos colégios e residências nas cidades, formavam uma rede de instituições caracterizadas por um alto grau de comunicabilidade e coordenação entre si. Durante quase um século, os jesuítas atuaram nas regiões do Guayrá, Itatín, Tape, Acaray-Iguazú e Paraná-Uruguay, e criaram mais de 50 povos de redução, muitos dos quais foram destruídos pelos bandeirantes, pelas epidemias e pelas fugas. Mais tarde, os jesuítas expandiram o modelo missionário a outras regiões da América do Sul, obtendo resultados díspares, o que dependia, em boa medida, das características de cada população reduzida e do contexto ecológico.

É importante destacar a enorme diversidade cultural e linguística da população incorporada aos povos de redução, a qual devia sua adaptação a um padrão cultural e político homogêneo: devia se transferir de suas pequenas aldeias na selva para povos de grandes dimensões, desenhados com base em um padrão urbanístico uniforme, uma organização política hierarquizada, o uso de uma única língua (o guarani missionário, padronizado em catecismos e gramáticas) e uma rotina diária que alternava as missas, o catecismo e o rosário com os trabalhos nas chácaras. Esse processo levou a uma transformação radical das tradições políticas e culturais indígenas. Tratou-se de uma verdadeira “etnogênese missionária”, na qual criaram-se novas identidades ligadas diretamente à vida na redução. Isso vale tanto para a área das conhecidas missões guarani, como para a região de Chiquitos e Moxos, atual Bolívia, onde a diversidade linguística e cultural foi realmente enorme.

IHU On-Line - Como se formavam essas novas realidades étnicas?

Guillermo Wilde – Em princípio, requeriam o consentimento dos caciques indígenas, que negociavam diretamente com os religiosos a formação de novos povos que não estariam sujeitos (essa era a condição que os indígenas colocavam) ao trabalho nas “encomendas” dos conquistadores. As estratégias e os métodos dos missionários para convencer os líderes variavam consideravelmente. A mais eficaz consistia na aproximação pacífica aos índios, obsequiando-lhes presentes e falando-lhes das virtudes da vida cristã na redução.

Em um primeiro período, os jesuítas combateram contra seus acérrimos inimigos, os xamãs indígenas, que se opunham à conversão. Uma vez submetidos estes, incorporaram os caciques às reduções, fazendo-os participar da burocracia missionária associada ao cabido, à Igreja e aos ofícios artesanais e militares. Progressivamente, essa elite indígena letrada, capaz de escrever, ler e tocar instrumentos musicais, foi se transformando no motor da organização missionária, sem a qual o regime não teria podido se manter durante tanto tempo. Essa organização política era ideal para impulsionar uma maior produtividade econômica. A sustentabilidade do regime missionário estava ligada, como é lógico, à prosperidade econômica, a qual se traduziu em um aumento demográfico notável, especialmente durante o século XVIII, quando a população total das missões de guarani superou as 140 mil pessoas.

Sucessivas gerações de índios nasceram e cresceram dentro da redução, reproduzindo um sentido de pertencimento ligado ao teko, o modo de ser cristão, que era apresentado pelos jesuítas como o verdadeiro modo de ser. Durante um longo período, as reduções sedimentam elementos ligados à ação dessas gerações de índios, mas também à presença de certos jesuítas, provenientes de diferentes partes da Europa e da América, que estabelecem, poderíamos dizer, estilos missionários sui generis.

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