Edição 347 | 18 Outubro 2010

Desafios da ecologia às religiões

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José Maria Vigil

“As religiões, a curiosidade, a intuição, a arte, a poesia... se encarregaram de suprir com imaginação e criatividade nossa ignorância coletiva, nossos medos e nossos desejos de saber”. A afirmação é do teólogo José Maria Vigil, em artigo que segue. Para ele, “a ciência que mais está mudando a consciência da humanidade na atualidade é a ‘nova cosmologia’, isto é, as ciências do cosmos e da natureza, todas elas conjuntamente”. A tradução é de Benno Dischinger.

“As religiões, a curiosidade, a intuição, a arte, a poesia... se encarregaram de suprir com imaginação e criatividade nossa ignorância coletiva, nossos medos e nossos desejos de saber”. A afirmação é do teólogo José Maria Vigil, em artigo que segue. Para ele, “a ciência que mais está mudando a consciência da humanidade na atualidade é a ‘nova cosmologia’, isto é, as ciências do cosmos e da natureza, todas elas conjuntamente”. A tradução é de Benno Dischinger.

Vigil é licenciado em Teologia pela Universidad Pontificia de Salamanca. Na Universidade de Santo Tomás de Roma, obteve a licenciatura em Teologia Sistemática. Foi ordenado sacerdote em 1971. Durante treze anos, trabalhou na Nicarágua e, atualmente, mora e trabalha no Panamá. É autor do livro Teologia do Pluralismo Religioso. Para uma releitura pluralista do cristianismo (São Paulo: Paulus, 2006) e também de La opción por los pobres (Santander: Sal Terrae, 1991), dentre outros. Faz parte da Comissão Teológica da Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo - ASETT e é o idealizador e realizador dos “Servicios Koinonía”, um sítio que serve de ponto de encontro com a teologia e a espiritualidade da libertação latino-americanas (www.servicioskoinonia.org).

Confira o artigo.

A ciência que mais está mudando a consciência da humanidade na atualidade é a “nova cosmologia”, isto é, as ciências do cosmos e da natureza, todas elas conjuntamente. Pela primeira vez, e simultaneamente para toda a humanidade, teremos uma visão científica do Universo: sua origem, suas dimensões, sua evolução, as galáxias, as estrelas, os planetas, a vida... E acaba sendo esta uma visão maravilhosa, realmente fascinante, muito diferente da que tínhamos, da que temos tido durante milênios, até apenas algumas décadas.

Durante toda a história de nossa espécie não temos tido meios para conhecer o cosmo. Há apenas quatro séculos que Galileu inventou o primeiro e rudimentar telescópio. As religiões, a curiosidade, a intuição, a arte, a poesia... se encarregaram de suprir com imaginação e criatividade nossa ignorância coletiva, nossos medos e nossos desejos de saber. Os “mitos” – tão geniais –, que nossos ancestrais elaboraram coletivamente e que tradicionalmente atribuíram a revelações divinas, cumpriram um papel social essencial para nossa organização civilizacional, porque estabeleceram e veicularam as crenças fundamentais para a autocompreensão de nós mesmos, como também para nossa programação social.

A nova cosmologia, o desdobramento tão fabuloso que a ciência tem registrado nos últimos tempos, fez saltar em pedaços aquele “clássico imaginário religioso”, que esteve em vigor ante a consciência da humanidade durante milênios. Os mitos, que durante tanto tempo a humanidade acreditou serem descrição dar realidade (revelada pelos deuses), chocam flagrantemente com o panorama que a ciência desdobra ante nossos olhos. As religiões, a poesia e a arte imaginaram um mundo pequeno, plano, quieto, fixo, criado diretamente, assim como o vemos, e regido por um Deus ali de cima, ali fora, que seria um tipo de razão última de tudo... Neste mundo da nova ciência nós já não podemos ser pessoas de hoje e seguir participando daquele imaginário. E esta é a principal razão da tensa relação da nova cosmologia e da ciência em geral com as religiões.
O “novo relato” da realidade que nos apresenta a ciência – e que hoje, como dizemos, é, pela primeira vez, um relato científico, sendo o mesmo, simultaneamente, válido para toda a humanidade, para todos os povos do planeta - nos oferece uma visão realmente nova do mundo. Mudou a imagem do mundo e do cosmo, que agora nos oferece os seguintes traços chamativos novos:

• um universo em movimento total e contínuo: nada está quieto, ao contrário do que sempre havíamos pensado;
• em expansão: tudo começou com uma grande explosão, e tudo continua expandindo-se, irrefreavelmente e inclusive aceleradamente; estamos numa constante explosão;
• em evolução e em desdobramento: não é um “cosmo” já feito, regido por leis eternas fixas e imutáveis, nem uma explosão cega... senão uma autêntica cosmogênese, que se desdobra a partir de dentro:
• com aparição de propriedades emergentes, novas, e de auto-organização, desde a desordem do caos: um todo que é maior do que as partes que o compõem e um todo que está em cada parte...
• orientado para a vida, a complexidade, e para a consciência que floresce finalmente no ser humano, no qual se faz consciência coletiva, assumindo ademais reflexivamente o cosmo e responsabilizando-se por ele;
• ligado holisticamente numa inextricável “rede de redes”... nas quais cada partícula está relacionada com todas...

Esta nova visão do cosmo nos situa num mundo muito distinto daquele que nos ensinaram as religiões. Pois bem, se abandonamos a imagem que nos deram do mundo e adotamos uma nova imagem, na realidade passamos a viver conscientemente em outro mundo: mudamos de mundo e, com isso, de algum modo passamos a ser outros, a ser cidadãos de outro mundo, partes de outra realidade. A nova visão do mundo que as ciências nos deram desafia todos os componentes de nossa visão. Vejamos:
Muda a imagem da natureza que, a partir de agora:

• já não podemos imaginá-la como mero “cenário da história humana”, história esta que seria o único evento importante que sucede no planeta e no cosmo. Já não podemos pensar que somos a razão de ser do cosmo, nem que o drama histórico humano é o que supostamente motivou Deus a criar o mundo como o cenário no qual realizá-lo, nem que o humano seja “a medida de todas as coisas”, humanas e divinas. Nosso natural e espontâneo e quase inevitável “antropocentrismo” há de ser superado;
• na cosmovisão atual, já não é possível aceitar a existência de um “segundo piso” superior, ou sobrenatural, no qual morariam os deuses e as forças que governam o mundo, nem um piso “inferior” no qual estariam confinados os espíritos do mal. O que nossos ancestrais quiseram expressar com aqueles símbolos não pode estar localizado senão “neste mesmo e único piso” da realidade. Não há “metafísica” (ou pelo menos não é necessário nem obrigatório crer nela, embora tenha podido ou possa continuar sendo útil imaginá-la...);
• já não resulta aceitável uma qualificação religiosa negativa (“pecaminosa”, a evitar) da matéria e de tudo o que com ela se relaciona (carne, instinto, sexo, prazer, mundo, mundanidade...);
• já não podemos aceitar aquele pressuposto mitológico de um “pecado original” primigênio que teria contaminado ancestralmente toda a humanidade e também toda a realidade... Na origem do todo não pode haver um pecado original, senão uma graça original, uma “bênção original”, inclusive...;
• esta vida não pode ser somente uma ilusão passageira, uma “prova” em função de outra vida, a verdadeira e definitiva, a que está além da morte, à qual um Criador nos havia destinado com a condição de passar primeiro por uma prova. O esquema deste “grande relato explicativo salvífico” resulta ser-nos admirável por sua genialidade, porém, ao mesmo tempo, inacreditável e insustentável em si mesmo. As religiões de “salvação eterna” necessitam com urgência dar novamente razão de si mesmas no contexto da visão atual.

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