Edição 347 | 18 Outubro 2010

Teologia da Libertação. Um discurso que dá razão à esperança

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Graziela Wolfart

Olle Kristenson reflete sobre a contribuição de Gustavo Gutiérrez e da Teologia da Libertação para a Igreja 50 anos depois do Concílio Vaticano II

“Enquanto houver pobres, uma teologia que parte da opção preferencial pelos pobres é válida e necessária em um continente como a América Latina”. A análise é do teólogo sueco e luterano Olle Kristenson, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Sua tese de doutorado em Teologia teve como tema a Teologia da Libertação de Gustavo Gutierrez. Em 2012, celebrar-se-ão os 40 anos do lançamento da importante obra teológica. Kristenson explica que o fundamento da percepção da esperança de Gutiérrez “vem de sua convicção de que a vida é sagrada”. E continua: “Baseada na fé da ressurreição, surge sua convicção de que é a vida e não a morte que tem a última palavra na história. Isto foi o que lhe motivou como ‘pastor na sombra da violência’ dar razão à esperança em uma situação de violência e muita incerteza”.

Olle Kristenson é doutor em Teologia pelo Departamento de Teologia da Uppsala University (Suíça). É teólogo e pastor da Igreja Luterana na Suécia. Sua tese de doutorado, intitulada Pastor in the Shadow of Violence. Gustavo Gutiérrez as a Public Pastoral in Peru in 1980 and 1990, foi publicada em 2009 pela Editora da Uppsala University.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Depois de 40 anos do livro de Gustavo Gutiérrez (Teologia da Libertação. Perspectivas), o que mudou na Igreja e na Teologia da Libertação? Quais foram os principais avanços e limites?

Olle Kristenson - Penso que seu principal avanço seja seu enfoque na opção preferencial pelos pobres. Com a aprovação em Puebla, em 1979, isso passou a ser parte da doutrina da Igreja universal e não somente da Igreja Católica. O limite é que a primeira geração de teólogos da libertação não é mais jovem e parece que é difícil encontrar espaço para novas gerações. Felizmente, há força em teólogos como Gutiérrez e Jon Sobrino.

IHU On-Line - Quais são as principais ideias que o senhor defende no livro Pastor in the Shadow of Violence. Gustavo Gutiérrez as a Public Pastoral in Peru in 1980 and 1990?

Olle Kristenson - Eu descrevo Gutiérrez como um pastor que se dirigiu ao público peruano através do jornal La República em momentos críticos do Peru contemporâneo e por isso o chamo “pastor da nação”. O jornal se converteu em um púlpito figurativo para ele. Desde então, fez seu discurso pastoral para dar razão à esperança em uma situação muito difícil. Vejo este discurso teológico pastoral como uma síntese de três discursos que identifico em seus textos, os discursos políticos radical e liberal e o discurso teológico católico. Os dois discursos políticos lhe ajudam a desenhar o contexto onde o discurso radical analisa a situação injusta da sociedade peruana que aprofunda a pobreza. O discurso liberal fala de democracia, paz e direitos humanos, mas o discurso radical sempre condiciona o discurso liberal: sem justiça não haverá paz. O discurso teológico católico funciona como referência para a ação pastoral. Desta forma, os discursos correspondem aos diferentes níveis no modelo ver (os discursos políticos radical e liberal) – julgar (o discurso teológico católico) – agir.

IHU On-Line - Quais são as principais características da pregação de Gutiérrez?

Olle Kristenson - Seu discurso é, sobretudo, um discurso para dar razão à esperança. Este discurso se encontra tanto em seus artigos e ensaios teológicos em relação à conjuntura, como em suas reflexões teológicas e homilias em relação ao ano litúrgico. Utilizo quatro níveis em minha análise para mostrar que Gutiérrez guia, conforta, exorta e anima seus leitores e seus ouvintes.

IHU On-Line - Que relação pode ser estabelecida entre a teologia da libertação e os direitos humanos?

Olle Kristenson – Esta é uma pergunta interessante e importante. Respondo-a partindo de minha leitura de Gutiérrez. Esta foi a entrada para minha pesquisa sobre sua teologia. Ia entrar em sua teologia justamente através deste tema e a partir de sua leitura de Bartolomeu de Las Casas. Em minha interpretação, a grande obra de Gutiérrez sobre Las Casas, En Busca de los Pobres de Jesucristo (1992), é uma análise que tem um enfoque na teologia de Las Casas como uma teologia que parte do direito à vida e do direito à liberdade dos índios. O direito à vida dos índios é visto desde sua morte precoce e injusta; “os índios morrem antes do tempo”, para parafrasear Las Casas. E o direito à liberdade é visto em relação a se converter livremente à fé cristã ou negá-la. “Se produz, então, em Las Casas, uma aproximação que dará lugar a um enfoque que poderíamos denominar metodológico.” (GUTIÉRREZ, G. em En Busca de los Pobres de Jesucristo, p. 101-102). Para Gutiérrez, a perspectiva de Las Casas é válida em nossos tempos. Por isso, os direitos humanos podem ser somados justamente nestes dois direitos, o direito à vida e o direito à liberdade, com um enfoque na situação dos pobres. Lendo os textos de Gutiérrez, é evidente que não se podem negar estes dois direitos.

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