Edição 344 | 21 Setembro 2010

O juízo absoluto e a paralisia da linguagem

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Márcia Junges

Violência impessoal é a fonte da paralisia da linguagem, avalia o filósofo Ricardo Timm, a partir das obras de Franz Kafka. Ele estabelece, também, nexos com a pura violência e a vida nua

Kafka pode ser considerado um “hermeneuta de um ‘tempo patológico’”, conceito esse que pode ser compreendido como o “paradoxo de uma temporalidade sem vitalidade, um tempo semiparalisado, interdito, inercial, quantificável em infinitas partes intercambiáveis como mero jogo pretensamente inconsequente”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo filósofo Ricardo Timm à IHU On-Line. Ele explica que a paralisia da linguagem é “a situação na qual a vitalidade da linguagem que diz o novo é substituída pela lógica de seus enunciados”. E continua: “é quando o núcleo da violência não é um ser vivo, perverso ou poderoso, que poderia falar mas não fala, mas, sim, é – como em várias obras de Kafka – uma máquina, o aparelho, o impessoal, o status quo, a multiplicação de imagens e fantasmas e promessas fátuas de felicidade, a quantidade que fala absolutamente, ou fala de forma absolutamente violenta, porque se cala absolutamente”. Esse tema foi objeto do minicurso O juízo absoluto e a paralisia da linguagem: a pura violência e a vida nua, ministrado em 16-09-2010, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana.

Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, e em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt - Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História – Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença – Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética – Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a relação entre o juízo absoluto e a paralisia da linguagem?

Ricardo Timm -
Utilizemos para encaminhar uma possível resposta a esta questão o exemplo privilegiado proposto à contemporaneidade pela obra de Franz Kafka. Temos defendido, ao longo de alguns de nossos estudos sobre Kafka, que este autor pode ser lido, sob vários aspectos, como um refinado hermeneuta de um “tempo patológico”, e que sua obra pode ser compreendida também desde o viés condicionado por esta posição frente à realidade. Por “tempo patológico” entendemos o paradoxo de uma temporalidade sem vitalidade, um tempo semiparalisado, interdito, inercial, quantificável em infinitas partes intercambiáveis como mero jogo pretensamente inconsequente. Assim, a partir de tal hipótese, podemos avançar um pouco mais: não se trata somente da temporalidade que, detida em seu processamento, em sua vitalidade própria, é substituída por estruturas parasitárias do mundo que configuram sua doença. Trata-se agora da própria linguagem que, detida em seu processar, em sua verbalização, paralisada em seu decorrer constituinte de realidade, em seu Dito, fixada em termos de mera cadeia de enunciados, acaba por se recriar em seus reflexos formais, em seus Ditos, ocasião em que tais reflexos se substituem à linguagem propriamente considerada, dando lugar à pura violência – outro nome para o que temos chamado em outros lugares de “paralisia da linguagem”.

Em outros termos, entendemos por paralisia da linguagem a situação na qual a vitalidade da linguagem que diz o novo é substituída pela lógica de seus enunciados e – para falar com Lévinas  – quando o sentido do Dizer em processo sempre inacabado acaba sendo substituído pelo sentido haurido da interpretação particular ou particularizada do já dito, cristalizado em si mesmo – ou seja, quando o núcleo da violência não é um ser vivo, perverso ou poderoso, que poderia falar mas não fala, mas, sim, é – como em várias obras de Kafka – uma máquina, o aparelho, o impessoal, o status quo, a multiplicação de imagens e fantasmas e promessas fátuas de felicidade, a quantidade que fala absolutamente, ou fala de forma absolutamente violenta, porque se cala absolutamente. Entende-se aqui por “violência” a detenção do tempo da linguagem, ou seja, da linguagem enquanto “tempo que se diz”, e que nunca se disse completamente.


IHU On-Line - Como essa problemática é impactada pela pura violência e vida nua?

Ricardo Timm -
A catástrofe difusa em termos benjaminianos e como bem desenvolve M. Seligmann-Silva , ou seja, a forma difusa de expressão da catástrofe, é o mundo dos indivíduos dispersos, das qualidades transformadas em mera quantidade infinitamente multiplicada, das trocas irrestritas de todos por todos e de tudo por tudo sem que nada mude – pois cada um é apenas o que seu sentido define numa sociedade de amortecimento tão completo quanto possível. Mundo que não pode senão acabar assumindo a feição de um mundo (em qualquer acepção que se tome essa palavra, pois todas as acepções remetem finalmente a uma designação socioecológica) inumano. Essa seria, para nós, uma boa definição contemporânea de “violência” à qual a vida nua está exposta, que constitui seu inóspito habitat. A esse mundo inumano, no qual a violência maciça reina em todas as direções e sentidos imagináveis, esse paraíso da injustiça no qual o in-suportável é suportado (se quisermos utilizar esse jargão, na maior de todas as contradições lógicas, a contradição impossível, porém real), chamamos exatamente, na trilha de Benjamin e de seu intérprete Agamben, de estado de exceção tornado regra, o “estado de exceção em que (todos, sem exceção) vivemos”. O “estado de exceção tornado regra” é a condição de acontecimentos quotidianos que chamamos “violentos” e que diuturnamente ocupam as consciências e penetram as sensibilidades.


IHU On-Line - Qual é a contribuição de Foucault e Agamben para compreendermos o (des)governo biopolítico ao qual estamos submetidos?

Ricardo Timm –
Permanece, na trilha dos autores citados e ressalvadas suas especificidades e distinções, a constatação incômoda e reiterada da “grande recusa” de Blanchot  e Marcuse , a saber, a de que vivemos uma era opaca, na qual impera “(...) uma razão que nós não aceitamos mais, (...) uma aparência de sabedoria que nos causa horror, (...) uma oferta de acordo e de conciliação que nós não entendemos(...)”, em que “uma ruptura se produziu (e) (...) fomos lançados a esta franqueza que não mais tolera a cumplicidade”. Esta constatação expressa por si só a necessidade da tarefa filosófica por excelência a realizar, a saber, uma crítica da razão opaca. Pois permanece completamente válido o que outrora escrevemos, que “(o essencial) da questão, aquilo que quer ser repetido ad nauseam (é): nem tudo é como parece. No grande e colorido universo da indiferença, nem tudo é indiferente; em meio às promulgações da inelutável neutralidade, nada é realmente neutro. A sociedade supermoderna e suas caricaturas (...) conservam em si, como seu segredo mais reservado, exatamente a mesma essência dos períodos mais obscuros da história. A mediocridade, a infinita disseminação, a multiplicação aparente do vazio, não é mais do que a ardilosa e supremamente inteligente expressão que a hegemonia – a totalidade – encontrou para preservar seu verdadeiro núcleo de olhares indiscretos.” Essa é, igualmente, uma descrição crível da racionalidade instrumental que em todo lugar se encontra, e que se confunde, de algum modo, com a própria ideia de racionalidade, pela confusão que estabelece com seus produtos e produções nos quais vivemos todos, de algum modo, semi-imersos. Aliás, é a semi-imersão – ou a semi-emersão – que permite a percepção do entre-lugar, dos entre-espaços de profunda crise que intentamos transformar em crítica, o que consiste, no modelo de argumentação aqui proposto, no primeiro passo da crítica da razão opaca propriamente dita. A estranha distância, ou o intervalo que separa a diferença (lógica) da indiferença (moral), é o verdadeiro entremeio no qual se dará o ensaio para a percepção futura da justiça como distância entre seu conceito e sua realidade ou, o que de modo mais sutil conflui finalmente ao mesmo ponto, justiça como frágil consciência da distância infranqueável entre o conceito mesmo de morte e a morte irrepresentável como tal. Cremos, aliás, poder afirmar que esta hermenêutica particular que realizamos das obras de Foucault e Agamben é compartilhável com uma vasta gama de autores, tais como Adorno , Lévinas e Derrida .


IHU On-Line - A partir de suas filosofias, poderíamos aventar a hipótese de que a vida humana foi reduzida à mera “vida nua”? Por quê?

Ricardo Timm -
Seu mérito principal consiste exatamente em mostrar como há uma causalidade necessária – fática, e não apenas teoricamente – entre a quantificação e a transformação do vivo em mera quantidade, ou seja, em “vida nua”, pelas razões que aduzimos anteriormente. Trata-se de um insight que a imensa maioria dos filósofos significativos da contemporaneidade cultiva com muito cuidado, pois é o real fulcro de compreensão do momento no qual vivemos em termos, por assim, dizer eco-sociopolíticos.


IHU On-Line - Qual é o espaço da subjetividade e da liberdade numa sociedade altamente controlada em seus mais variados aspectos, como a nossa?

Ricardo Timm -
A tarefa ético-política da geração que vem inicia, como já sugerimos a partir da referida análise da obra de Kafka e pelo aparato categorial que Lévinas nos fornece, pela (re)apropriação da linguagem em sua verbalização, em seu tempo próprio, ou seja, pela renúncia ao abandono de todas as esperanças no nível de meras análises de sentenças mortas que só dizem algo a um mundo morto; em outros termos, e novamente na inspiração de Lévinas, os ditos, os ritos do culto totalizante, signos do grande Dito em que se constituem as realidades pretensamente improfanáveis que permitem que o insuportável seja suportado no corpo de seu culto, devem dar lugar, pelo tempo levado a sério, ao Dizer que diz infinitamente mais do que qualquer (já) dito, pois tem todo tempo para fazê-lo. Assim, para falar com Benjamin e Agamben, profanar o opaco ou, o que dá no mesmo – na esteira de Derrida –, a procura obsessiva pela justiça, é o início de toda crítica filosófica e a qualificação de toda atividade racional. É por ela que se dá a metamorfose do indivíduo – quantidade – em sujeito ético – qualidade, ou seja, a condição de toda esperança, buscada, no tempo, pela realização tão plena quanto possível da liberdade ética levinasiana. Em suma: a distância incomensurável que separa o mero conceito de morte do corpo morto é tudo o que se tem da realidade e, portanto, é o espaço onde se pode dar a obsessiva busca pela justiça, ou seja, a vida. É neste intervalo que o exercício da dignidade – dignidade humana, expressão de dignidade do mundo, dignidade do mundo, transbordamento generoso da dignidade humana – é unicamente possível; é neste intervalo que o humano pode se reencontrar consigo, apesar de tudo. A busca obsessiva pela justiça inicia pela fissura do opaco, pela compreensão do dito de Adorno de que “só existe uma expressão para a verdade – o pensamento que nega a injustiça”, pois a filosofia é, essencialmente, uma questão moral; segue pelas sendas infinitas do tempo instituído em recriação de sentido; e culmina logo além do im-possível, no ponto de fuga que a perspectiva da redenção significa. Este arco vital – o único possível, no que se refere a questões de vida e morte – é a expressão da justiça em seus termos filosóficos mais próprios.


Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Ricardo Timm à IHU On-Line


* A Filosofia mudou muito depois de Auschwitz. Edição 265, revista IHU On-Line, de 21-07-2008

* A contribuição de Lévinas à humanização da sociedade. Edição 277, revista IHU On-Line, 14-10-2008

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