Edição 277 | 14 Outubro 2008

A contribuição de Lévinas à humanização da sociedade

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Márcia Junges

Ao invés de tolerância, precisamos falar em solidariedade, sugere o filósofo Ricardo Timm; isso humanizaria mais a sociedade. Além disso, a Ética como pressuposto da Democracia investe de substância real esse sistema político

“A Ética é um pressuposto da Democracia. Sem Ética, a Democracia degenera em burocracia formal, ou é esvaziada de sentido humano-político. Só a Ética, como exercício político, pode investir a Democracia de substância real. Por isso, a Ética é a filosofia primeira - como dizia Lévinas - também no que diz respeito às configurações políticas democráticas.” A ponderação é do filósofo Ricardo Timm na entrevista exclusiva que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Ele propõe que o termo tolerância, cunhado pela modernidade esclarecida, seja substituído por solidariedade, o que seria mais adequado ao pensamento levinasiano. Ele próprio explica: “Quem tolera faz uma concessão ao Outro; quem solidariza, compreende que não pode ser sem o Outro”. Assim, Lévinas tem muito a ensinar no que tange à humanização da sociedade contemporânea.

Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt - Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História - Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença - Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética - Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).

IHU On-Line - Podemos dizer que Lévinas funda uma filosofia do diálogo? Por quê? Que características teria essa filosofia?

Ricardo Timm - Em certo sentido, Lévinas pode ser compreendido como um pensador afiliado às chamadas “Filosofias do Diálogo”. Estas escolas, das quais Martin Buber é um dos autores mais conhecidos, se caracteriza por estabelecer, como condição básica do próprio filosofar, a centralidade da interlocução, ou seja, a filosofia não pode ser concebida a partir de uma relação lógica “sujeito pensante-objeto do pensamento”, pois há sempre a presença de um Outro que permite apenas um encontro filosófico, e nunca uma objetificação do pensado.

IHU On-Line - Em que aspectos esse diálogo pode contribuir para o desenvolvimento da tolerância em nossa sociedade contemporânea?

Ricardo Timm – “Tolerância” é um termo da modernidade esclarecida, que deveria, hoje, no mundo contemporâneo, ser substituído pelo termo “solidariedade”. Quem tolera faz uma concessão ao Outro; quem solidariza, compreende que não pode ser sem o Outro. Por isso, proponho a substituição do termo “tolerância” por ”solidariedade”, sempre que se estiver fazendo referência a uma humanização da sociedade contemporânea. E, neste sentido preciso, Lévinas tem muito a ensinar.

IHU On-Line - Quais são as relações mais importantes que esse filósofo traçou entre alteridade e ética?

Ricardo Timm - Para Lévinas, a Ética - e, por extensão, a Filosofia como tal - não pode ser pensada sem a Alteridade, pois é de nossa relação com a Alteridade que todas as condições para o pensamento filosófico se efetivam. Para pensarmos, filosoficamente ou não, é necessário existirmos; e só existimos se houvermos sido eticamente tratados ao longo de nossa vida, ou seja, por óbvio, que não tenhamos sido assassinados. E “eticamente tratados” envolve necessariamente a multiplicidade e a Alteridade.

IHU On-Line - Em que consiste a busca metafenomenológica do infinito ético em Lévinas?

Ricardo Timm - Em levar a fenomenologia ao extremo de suas possibilidades, abrindo assim um novo campo de encontro com a realidade, no qual esta  não é mais correlata da intencionalidade intelectual ou existencial, como na fenomenologia, mas interlocutora de e sobre o sentido do encontro com ela estabelecido - um encontro entre o Mesmo e o Outro.

IHU On-Line - Lévinas dizia que Rosenzweig era um filósofo muito presente em sua obra para ser citado. Quais são as idéias principais desse autor que aparecem no corpus levinasiano?

Ricardo Timm - Especialmente a idéia de que a realidade, em sua origem, é múltipla, e que, portanto, toda redução do múltiplo ao uno, do Outro ao Mesmo, é uma forma de exercício de violência.

IHU On-Line - E no campo político, especificamente na democracia, como essa filosofia poderia auxiliar a desenvolver o respeito pelas singularidades?

Ricardo Timm - A Ética é um pressuposto da Democracia. Sem Ética, a Democracia degenera em burocracia formal, ou é esvaziada de sentido humano-político. Só a Ética, como exercício político, pode investir a Democracia de substância real. Por isso, a Ética é a filosofia primeira - como dizia Lévinas - também no que diz respeito às configurações políticas democráticas.

Leia mais...

Ricardo Timm de Souza já concedeu outras entrevistas à revista IHU On-Line. O material pode ser acessado através do sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu)
“Os desafios de uma nova ética”. Edição nº 264, de 30-06-2008;

A Filosofia mudou depois de Auschwitz. Edição nº 265, de 21-07-2008.

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