Edição 343 | 13 Setembro 2010

Biopoder e o instante eterno

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Contexto e conteúdo foram eliminados do tempo, que parece sempre faltar e estar mais acelerado, analisa José Antonio Zamora. Progresso é conceito fundamental para a legitimação ideológica da biopolítica

Os processos de disciplinamento realizados “pelas instituições que caracterizam o governo anatomopolítico e biopolítico moderno (fábricas, hospitais, escolas, quartéis e prisões) devem, em grande medida, sua eficácia ao estabelecimento de regimes temporais específicos e estritos”, considera o filósofo espanhol José Antonio Zamora. De acordo com ele, “que possamos dominar o tempo de outros seres humanos e equiparar o tempo com o dinheiro só é possível porque se eliminou do tempo o seu contexto e conteúdo, estabelecendo-o como fenômeno universal, abstrato, vazio e neutro”. E continua: “a sensação da ‘falta’ de tempo ou de que o tempo ‘vai mais rápido’ parece responder a este regime de encurtamento e densificação da exploração do tempo e à eliminação do tempo não economizado ou economizável”. Zamora afirma que a ideia de progresso é um elemento chave de legitimação ideológica da biopolítica, e à modernidade “clássica” se contrapõe uma modernidade “líquida e reflexiva”. O processo de aceleração, explica, “vem acompanhado de uma fome quase insaciável de experiência do mundo, de captar o mundo em todas as suas produções, desentranhá-lo até seus fundamentos, prová-lo todo”. Essas ideias fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Zamora é conferencista na manhã de 14-09-2010, com o tema Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico, dentro da programação do XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Zamora é professor no Instituto de Filosofia do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC da Espanha; é autor de, entre outros, Theodor W. Adorno: pensar contra la barbarie (Madri: Trotta, 2004) e Ciudadania, multiculturalidad e inmigración (Navarra: Verbo Divino, 2003). Estudou Filosofia, Psicologia e Teologia na Universidade Pontifícia de Comillas, em Madri. Doutorou-se na Universidade de Münster, na Alemanha, com uma tese sobre Theodor Adorno, orientada por Johann Baptitst Metz.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que aspectos a lógica temporal do capitalismo reduz a vida humana a um mero corpo, a uma mera vida?

José Antonio Zamora - A expressão “mera vida” ou “mero corpo” está associada com a interpretação do conceito de biopolítica que faz Giorgio Agamben , a qual, em muitos aspectos, não é a mais convincente, pois nela se dilui em grande medida a especificidade do contexto capitalista em favor de uma constituição biopolítica de toda a história ocidental. Porém, segundo esta interpretação, o objetivo de incrementar o valor da vida (regra), que define a política moderna, se encontra inseparavelmente unido ao objetivo de aniquilar “a vida carente de valor” (estado de exceção). O estado de exceção coincide com a redução dos seres humanos a uma “vida nua” ou mero corpo, isto é, a um mero material sobre o qual exercer o poder absoluto, a completa disposição sobre ele, tal como se materializa no campo de extermínio. Esta redução extrema a puro corpo atua, segundo Agamben, de forma latente nas formas de anatomopolítica e biopolítica modernas, formas evidentemente mais suaves de administração e exploração da vida, que não pretendem tanto aniquilar e torcer, quanto disciplinar, regular, controlar, estimular, etc., em relação a funcionalizações calculadas.

Seja como for, estes processos de disciplinamento, levadas a cabo pelas instituições que caracterizam o governo anatomopolítico e biopolítico moderno (fábricas, hospitais, escolas, quartéis e prisões) devem, em grande medida, sua eficácia ao estabelecimento de regimes temporais específicos e estritos. Assim, pois, toda forma de poder leva associada uma cronopolítica. Nada novo se descobre fazendo referência aos longos e coativos processos de reeducação, no sentido de internalização de novos modelos temporais, que foram necessários para transformar a força de trabalho excedente do setor primário em mão de obra industrial nos começos da industrialização moderna. Tão pouco sublinhando a relevância da temporalização acelerada da “revolução digital” produzida pelas novas tecnologias da informação e a comunicação, que supôs um impulso extraordinário dos ritmos e da velocidade da produção e do consumo, do tempo de trabalho e do tempo livre. Tudo isso converteu em obsoletos os ritmos das instituições educativas, políticas e jurídicas dos Estados modernos e está na base do desenvolvimento das novas formas de governabilidade pós-fordista.

Cronopolítica e sistema capitalista

Esta cronopolítica, associada à biopolítica moderna, é exigida pelo novo regime temporal imposto pelo sistema capitalista e que vai inseparavelmente unido a um aumento incomparável da produção e da produtividade numa espécie de carreira impulsionada pela necessária busca de vantagens comparativas baseadas em sua eficácia, medida em tempo. Deste modo, o tempo passa a ser um bem escasso e mercantilizado (em todas as suas formas: tempo de trabalho, tempo “livre”, tempo do consumo, etc.), produzindo-se aquela equivalência, que Benjamin Franklin tornaria famosa, entre tempo e dinheiro. O objetivo da multiplicação do dinheiro é um objetivo infinito, o que contrasta com a finitude dos meios que definem o horizonte da escassez que determina a atividade econômica.

Por essa razão, a contradição entre o objetivo infinito da multiplicação do dinheiro e a finitude dos meios (naturais e humanos) para alcançar este objetivo se desprega de maneira temporal, como processo de uma permanente revolução dos meios. Isto supõe uma submissão crescente da ação humana em cada vez mais âmbitos a esse objetivo infinito. Esta submissão é levada a efeito de maneira fundamental pela imposição de regime temporal específico. Somente um tempo abstrato, estandardizado e decomposto em frações iguais pode ser empregado como meio nos processos de intercâmbio, como parâmetro neutral no cálculo da eficiência e dos benefícios.

Que possamos dominar o tempo de outros seres humanos e equiparar o tempo com o dinheiro só é possível porque se eliminou do tempo o seu contexto e conteúdo, estabelecendo-o como fenômeno universal, abstrato, vazio e neutro. A infinitude da lógica de acumulação do capital, da multiplicação do dinheiro, apoiada nessa forma de tempo, não se detém frente a nenhum limite natural ou humano. Só reconhece como meta o incremento de um quantum abstrato. E, para esta abstração, todas as singularidades não são mais que obstáculos a superar, material dominável. Cada vez cai mais na vista que não se muda a racionalidade econômica do crescimento pelo crescimento, pois esse final só se pode alcançar por meio de uma catástrofe humana ou ecológica. Quando os sujeitos são reduzidos a meios de reprodução do capital, não só fica arruinada sua autonomia: sua vida inteira depende de dita reprodução que é, ao mesmo tempo, a das relações de dominação que a constituem.

IHU On-Line - Como essa lógica resulta em formas de governabilidade e excepcionalidade política que expressa o capitalismo e a exploração?

José Antonio Zamora - O sistema econômico capitalista necessita de um aumento constante da velocidade de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Esta aceleração necessita, por sua vez, de inovações tecnológicas, mas também do aumento da velocidade dos processos de organização, administração e controle. Isso afeta o funcionamento de administrações e burocracias, bem como a esfera financeira, logística e de marketing que acompanha a produção e o consumo. Seria preciso tomar em consideração as múltiplas formas de racionalização do processo de trabalho, tanto se se trata da organização taylorista de dito processo por meio do scientific management ou da organização reticular e externalizada da produção just in time do pós-fordismo. Sempre se trata de maximizar o rendimento por unidade de tempo. Eliminar o que se considera tempo morto, tempo não produtivo ou de consumo. A sensação da “falta” de tempo ou de que o tempo “vai mais rápido” parece responder a este regime de encurtamento e densificação da exploração do tempo e à eliminação do tempo não economizado ou economizável. As formas de governabilidade possuem uma dimensão temporal evidente, pois elas são as encarregadas de estabelecer, consolidar e reproduzir regimes temporais por meio de instituições que organizam o tempo de modo estrito e, assim, contribuem ao disciplinamento dos corpos e sua predisposição para serem submetidos às novas formas de produção e consumo sob uma aceleração crescente. Isso não fica desmentido pela desregulação espacial do trabalho, pelas novas formas de flexibilização de seu regime temporal e da produção pós-fordista.
A flexibilização pode dar a impressão superficialmente em algumas de suas expressões de um retorno a formas de produção e de vida pré-industriais. Ditas formas parecem ser regidas pelas tarefas e pelos objetos e não tanto pelo tempo vazio, linear e abstrato da época industrial. Porém, na realidade o mundo laboral moderno, industrial e capitalista devia ser protegido de toda ingerência existente para poder estabelecer seu regime temporal e, assim, possibilitar a aceleração dentro de seus limites. Hoje, nossas concepções de vida boa têm sido de tal modo adaptadas a essas exigências e interiorizamos dito regime temporal e sua lógica de tal maneira que é possível realizar a colonização contrária: inclusive os potenciais de desaceleração e seus Oasis na cotidianidade são crescentemente erodidos por aquela lógica. Para os trabalhadores as novas possibilidades de racionalização e vigilância, oferecidas pela tecnologia da informação e comunicação, se traduzem fatalmente, por um lado, em flexibilização, liberalização e desregulação. Isto é, em subproletarização, de uma parte da mão de obra com uma relação intermitente com o mercado de trabalho, precarização do emprego e sinistralidade laboral. E, por outro lado, em formas de autoexploração ou superexaploração com ritmos extremos impostos pelas empresas sob ameaça de perda de emprego, com os quais vai associado um conjunto de patologias reconhecidas (desde o consumo de drogas, o estresse cronificado, as mais variadas somatizações do trabalho excessivo etc.).

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