Edição 343 | 13 Setembro 2010

Biopoder e o instante eterno

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

 

Novas formas de governamentalidade

Evidentemente, a lógica da economização e mercantilização do tempo se defronta com limites físicos, biológicos e antropológicos. A capacidade de captação e elaboração cerebral de percepções e estímulos, bem como a capacidade de recuperação e reação podem crescer e têm crescido em interação com a aceleração dos ritmos produtivos e de consumo que se apóiam nas novas tecnologias, porém não parecem possuir um horizonte ilimitado de crescimento. O mesmo podemos dizer do ritmo de recuperação dos recursos naturais ou da capacidade do ecossistema para digerir e processar os resíduos e os materiais tóxicos. ambém, a intervenção em processos naturais de maturação e nos ritmos biológicos por meio de técnicas agroquímicas e genéticas que aceleram os processos de crescimento ou tornam independentes a produção de condições naturais externas parecem enfrentar-se com limites naturais insuperáveis. Sem dúvida, também frente a isto reagem as novas formas de governamentalidade, as quais tratam ditas limitações como barreiras provisionais superáveis com a ajuda das mais recentes tecnologias. As possibilidades que brindam a engenharia genética e a combinação das tecnologias genéticas com as nanotecnologias na hibridação antropotecnológica e a revolução dos transplantes estariam, ainda, por explorar e, portanto, a criação de ciborgues capazes de satisfazer as exigências sistêmicas de aceleração poderá dar a resposta aos limites aparentemente insuperáveis da biologia.
 
IHU On-Line - Por que se pode falar de uma morte da experiência autêntica pelo império da velocidade, do instante e do descartável? Quais são as relações entre esse instante eterno no qual a modernidade está submersa, com a destruição da memória e da experiência?

José Antonio Zamora - A aceleração da qual estamos falando se manifesta como crescimento exponencial das vivências e das ações, não menos do que como exigência de maior rapidez em sua realização, de eliminar pausas e vazios ou de empregar tecnologias e formas de organizar a vida cotidiana que conhecemos sob a denominação de “multitarefa”. Do ponto de vista dos indivíduos, o incremento vinculado ao crescimento e à aceleração supõe encontrar-se ante uma abundância tentadora de possibilidades. Mas, na realidade, se produz uma superoferta que reproduz a escassez de tempo. Viver com o temor de não poder aproveitar a maioria dessas possibilidades ou, em todo caso, as melhores, e com a sensação de encontrar-nos numa corrida contra o tempo. O paradoxo é que o intento de responder ao aumento de possibilidades que produz a aceleração, apropriando-se das técnicas e dos truques que oferece dita aceleração para aumentar o ritmo de vida, termina aumentando o abismo entre o tempo de vida e as possibilidades de mundo. Os mesmos meios que servem ao indivíduo para ampliar o seu ego, aumentam a quantidade de possibilidades de mundo de modo exponencial.

O processo de aceleração vem acompanhado de uma fome, quase insaciável, de experiência do mundo, de captar o mundo em todas as suas produções, desentranhá-lo até seus fundamentos, prová-lo todo. Sem dúvida, esse mesmo processo só permite uma relação mediada com o mundo. Ganhar tempo supõe renunciar à intensidade da experiência. Para poupar tempo e ampliar a estreiteza temporal o mundo, deve estar predisposto, de modo geral, para ser possuído rapidamente. Mas, para despachar-se com rapidez é necessário um mundo disposto e cunhado para o consumo. Os indivíduos não só estão chamados a racionalizar e economizar o tempo na esfera produtiva, mas também o consumo funciona sob as mesmas regras. O mundo no qual pensava o indivíduo, aceleradamente faminto de experiência, desaparece sem brilho para deixar lugar a um mundo preparado e adaptado aos seus desejos de velocidade. Na realidade, não é possível experimentar um mundo preparado para o consumo; só se pode comprar e consumir. Sob o ditado da aceleração, acaba impondo-se uma unificação de procedimentos, uma nivelação das diferenças, apesar da variedade de objetos, eventos, acontecimentos e opiniões sobre as quais se aplicam. Sob o imperativo da aceleração, fica destruída uma verdadeira experiência do diverso e diferente que desaparece após a experiência de uma imensa diversidade submetida a esquemas de consumo acelerado.
Entre os teóricos da cultura midiática, parece existir certo consenso em torno do fato de que a digitalização supôs um corte histórico que introduz uma nova época, uma profunda transformação da cultura. As tecnologias digitais atuam como nova interface global e uniformizada que aumenta a brecha entre os mediadores e os cidadãos degradados a “usuários” ou “clientes” de um serviço comercializado do passado registrado. As tecnologias digitais da memória parecem oferecer uma capacidade extraordinária para dispor do acontecer social, grupal ou individual, graças à sub-rogação digital do patrimônio comum através da mediação do mercado. A indústria do registro parece disposta a parcelar o passado e, convertido em mercadoria, transformá-lo num bem de consumo a mais. A maior ameaça à memória cultural vem nestes momentos da mão de sua comercialização digitalizada.

IHU On-Line - De que modo a aura alucinatória das mercadorias se traduz num comportamento acrítico do sujeito? Quais são as implicações políticas e existenciais desse agir?

José Antonio Zamora - Frente à forma de dominação denunciada por Marx  sob o trabalho assalariado, que converte a força de trabalho em mercadoria e a relação contratual no veículo do domínio do capital – realidade essencialmente social porém oculta pelo fetichismo da mercadoria que apresenta o valor de troca como propriedade da própria mercadoria -, o caráter fantasmagórico da mercadoria, associado à sua estética, revela outra forma de dominação, cuja finalidade última é a apropriação mercantil completa do indivíduo: a domesticação de seus anelos não cumpridos, a reorientação de sua atenção, a redefinição de seu corpo, a percepção de si mesmo e da realidade, a remodelação de sua linguagem, a reestruturação de sua sensibilidade e sua valoração. O papel da inovação estética na regeneração da demanda converteu-a numa instância quase com poder e efeitos antropológicos, capaz de transformar permanentemente o espécime ser humano em sua organização sensitiva e psíquica, isto é, não só em seu equipamento físico e sua forma de vida material, senão também em sua estrutura perceptiva, afetiva, volitiva, imaginativa, desiderativa, etc. Isto supõe tendencialmente uma quebra da imediatez sensível e a submissão das técnicas estéticas e da economia libidinosa às funções de reprodução do capital.

O caráter fantasmagórico de toda a cultura, constatado por Walter Benjamin , faz desta uma transfiguração enganosa da realidade, imagem desiderativa e ideal. O esplendor, a superfície dessa realidade adquire poder estupefaciente: os edifícios, as passagens comerciais, as galerias, as vitrines e as próprias mercadorias. Na modernidade não só a arte se tornou mercadoria, senão que as mercadorias, por sua vez, se transformaram em arte, adquiriram caráter fantástico e onírico. A crítica tradicional da forma da mercadoria podia mobilizar o conceito de fetiche para denunciar os mecanismos ocultos das relações sociais de produção e as formas de dominação que lhe são constitutivas no sistema capitalista. A nova cultura do consumo, ao instaurar o império do simulacro, parece tornar inviável todo intento de desvelamento, de desocultação de uma suposta realidade existente mais além do simulacro, seja do lado dos objetos ou dos sujeitos que os produzem e os intercambiam. A referência à práxis social concreta na qual surgiram desaparece por trás de um jogo de espelhos. As dificuldades para romper o feitiço da identidade como mercadoria produzida pelo próprio sujeito ou da marca que substitui o objeto real parecem tornar-se não salváveis. Tudo fica submetido à lógica da simulação própria do mercado: espaços e tempos, gêneros, classes e corpos, objetos e indivíduos.

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