Edição 337 | 09 Agosto 2010

A missão de ser luz e sinal para os outros

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Graziela Wolfart

Roberto Jaramillo percebe que viver ao serviço da fé e da justiça que nasce dela toma rostos concretos e particulares na região Amazônica

“Confiado na misericórdia e no chamado divino, o jesuíta sai ao encontro de realidades e de ‘nações’ (povos, comunidades, realidades humanas) muitas vezes desconhecidas, situadas nas fronteiras do mundo e das sociedades onde outros não querem ou não podem ir: nas mais variadas ciências (desde a filosofia e a teologia, até a economia ou a astronomia), na luta social, nos afazeres da ação política, na diversidade de culturas, nas diferentes religiões, enfim, nas encruzilhadas onde parece que a palavra de Fé estivesse ontologicamente ausente ou onde ela é positivamente rechaçada”. A definição é do padre Roberto Jaramillo, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Ele também fala sobre o trabalho do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social – SARES, com sede em Manaus, e lembra que “o SARES, mesmo sendo pequeno, tem uma palavra nova a dizer e um aporte fundamental nesta dinâmica de ‘pensar localmente e agir globalmente’ e, ao mesmo tempo, ‘agir localmente com uma capacidade de pensar as coisas globalmente’”.

Roberto Jaramillo Bernal, colombiano, é superior regional dos jesuítas da Amazônia – BAM. É filósofo, teólogo e doutor em Antropologia pela EHESS - Paris.

Confira a entrevista.
 
IHU On-Line - Quais são as principais demandas da região amazônica no que se refere à promoção da justiça e ao serviço da fé? Quais os desafios que a região apresenta aos missionários jesuítas?

Roberto Jaramillo - Viver ao serviço da fé e da justiça que nasce dela toma rostos concretos e particulares na região Amazônica. Rostos que tem a ver em primeiro lugar com pessoas e também com o meio ambiente. Não é possível sermos servidores da missão do Cristo sem estar atentos e servir as pessoas e as criaturas “hoje crucificadas”; o que implica também muitas vezes em desagradar e entrar em conflito com os “crucificadores” de hoje. Onde está o Cristo uma vez mais crucificado na Amazônia? Há situações gritantes:

* A situação dos índios desrespeitados e agredidos em suas próprias terras, suas crenças, suas culturas, seus direitos; os “originais donos destas terras” passando fome, sem serviços dignos de saúde, de educação, de transporte, de comunicação, sem as mínimas possibilidades de exercer seus direitos políticos.

* A situação de milhares de brasileiros e brasileiras jovens que vêem frustradas suas esperanças de integração social a través de trabalho digno e qualificado como fruto de um sistema educativo que é insuficiente e altamente deficiente; principais vítimas de uma violência estrutural que condena à marginalidade, degrada as pessoas em sua condição de cidadãs, destrói famílias e comunidades, nutre as redes do narcotráfico e do consumo de drogas, da delinquência e da insegurança pública.

* A impressionante miséria presente nas inúmeras favelas das grandes cidades amazônicas: moradia precária, ausência de serviços básicos de esgoto e limpeza, insuficiência na rede de serviço de água, transporte altamente deficiente, inexistência de políticas públicas de ocupação, descaso ecológico, ausência de parques e zonas comuns, desemprego generalizado, economia de subsistência sem regulação e sem incentivo público, superlotação nos serviços de saúde, entre outras situações degradantes da condição humana e da condição de cidadãos, especialmente se tratando de mulheres, idosos e crianças.

* Finalmente não menos gritante e triste é o desrespeito e a agressão que a “mãe terra” sofre dia-a-dia neste imenso território amazônico: desde a poluição dos rios e dos igarapés nas grandes e pequenas urbes, passando pelo desmatamento sistêmico feito tantas vezes com a cumplicidade das autoridades (executivas e fiscais), até chegar ao desrespeito total do equilíbrio planetário com obras megalômanas, como as usinas hidroelétricas e os grandes projetos de IIRSA . Aqui se sente com mais crueza a lógica dominadora do capital sobre as pessoas, das comunidades, do bem comum, e da inteligência humana.

O tráfico sexual de menores, a situação degradante dos serviços de saúde, a exploração laboral das crianças, a vulnerabilidade dos idosos, a violência contra as mulheres, a rampante corrupção dos diferentes poderes públicos: o enriquecimento ilícito, o oportunismo político, o contubérnio entre poderes, etc., são só algumas das situações que clamam justiça e reclamam da fé dos cristãos resposta firme e clara.

IHU On-Line - O que o povo da Amazônia pode ensinar sobre o conceito de trabalho social para os jesuítas?

Roberto Jaramillo - A pergunta é ampla e pode dar origem a muitas reflexões; mas eu quero mencionar só duas dentre muitas coisas que temos aprendido os jesuítas da BAM junto com os que co-laboram nesta missão. Em primeiro lugar: o valor de fazer as coisas em conjunto, a importância de somar; não tanto como uma estratégia para reagir frente à imensidão do território e dos desafios e à pequenez dos recursos humanos e materiais, mas como um verdadeiro valor que enriquece o trabalho, que é, ele mesmo, uma forma de anúncio de tempos novos, de formas novas, de forças novas. Na vida religiosa (assim como na vida institucional secular) o protagonismo das ordens religiosas e de suas instituições se vê questionado e enriquecido pela complementaridade de carismas, de saberes, de “poderes”, de perspectivas. Hoje se fala muito de redes, de alianças, de parcerias, de sinergias, mas essa é uma perspectiva difícil para os ocidentais acostumados a “figurar” (pessoal e institucionalmente). Um segundo elemento que se aprende na Amazônia tem a ver com os processos a longo prazo. Fruto de uma lógica baseada na eficácia (nos resultados visíveis e imediatos) nossa cabeça tem que fazer um giro copernicano quando se defronta com ações sociais que precisam de muito tempo, muita discussão, muita preparação, muita participação, muita conscientização para serem assumidas coletivamente e chegar a ser verdadeiramente transformadoras. Acho que isto é verdade em toda e qualquer parte do planeta, com qualquer grupo humano; e muito mais aqui na Amazônia pelo efeito das distâncias, da imensidão dos desafios, da dispersão das populações, das dificuldades de comunicação, etc. Este é um elemento que todos os agentes sociais (seja de evangelização, seja de educação, seja de saúde, seja do que for...) devem aprender. Aqui, mais do que em nenhum outro lugar, é necessário ter uma perspectiva histórica esperançosa, muita paciência, renunciar a fazer as coisas sozinhos e acreditar na força e na organização do povo.   

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