Edição 337 | 09 Agosto 2010

Ibrades e a formação social e política

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Graziela Wolfart e Márcia Junges

Fundado em 1968 e consolidado em 1971 por um convênio com a CNBB, o Ibrades traduzia “vontade de trabalhar ao nível da Igreja do e no Brasil”, assinala o demógrafo Thierry Linard de Guertechin.

Cursos de formação social e política, assessorias e pesquisas. Essas são as três frentes nas quais atua o Ibrades. Existente desde 1968, a instituição surgiu quando havia quatro Províncias Jesuítas no Brasil. De acordo com o demógrafo belga Thierry Linard de Guertechin, “os cursos conhecidos como ‘cursos do IBRADES’ se diferenciavam em ‘curso longo’ (três a quatro meses), ‘cursos de média duração’ (uma ou duas semanas) e cursos de pequena duração, de três dias, os chamados ‘mini-Ibrades’”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Thierry é jesuíta, nascido na Bélgica, residente permanente no Brasil desde 1975. Sua formação básica é nas áreas de Filosofia e Teologia, com mestrado em Demografia, pela Universidade Católica de Lovaina e em Geografia na Universidade de Liège, Bélgica. Professor na PUC/RJ desde 1976 a 1996, no Departamento de Sociologia e Ciências Políticas. Foi Diretor Regional da Fundação Fé e Alegria (1990-1997) e assistente espiritual da Ação Social Padre Anchieta (ASPA), na favela da Rocinha (Rio de Janeiro-RJ). Atualmente exerce atividades de Assessoria ao Setor Pastoral Social da CNBB. Como pesquisador e professor no Centro de Investigação e Ação Social e IBRADES desde 1980, assumiu como diretor do CIAS/IBRADES (Centro de Investigação e Ação Social / Instituto Brasileiro de Desenvolvimento) em outubro de 2000.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a importância do trabalho do Ibrades enquanto um Centro de Investigação e Ação Social Jesuíta?

Thierry Linard de Guertechin - Na verdade, dede a sua fundação, as duas instituições, em boa parte, se confundiram. Para O CIAS, pré-existente de poucos anos, a fundação do IBRADES significou uma vontade de trabalhar ao nível da Igreja do e no Brasil, com a amplitude da própria CNBB. É bom lembrar a especificidade do Brasil, país de dimensão continental com boa cobertura eclesial por meio da CNBB e suas Regionais. Em outros países de América latina, existe uma Província Jesuíta com seu respectivo CIAS por país, o que faz que cada CIAS atue em âmbito nacional. No Brasil, havia, na época, quatro Províncias Jesuítas. O serviço do CIAS à Igreja, como IBRADES, está garantindo sua dimensão nacional. Não é por acaso que o IBRADES foi confiado pela 2ª Assembleia Geral do IBRADES à Companhia de Jesus no Brasil. Por isso, jesuítas de outras provinciais se juntaram para formar uma equipe nacional e de fato interprovincial. O CIAS sendo IBRADES, por uma parte, privilegiou como atividades principais os cursos de formação social para agentes de Pastoral Social, sob módulos diferenciados, e, por outra parte, contribuiu ao fortalecimento das Pastorais Sociais no seio da CNBB e nos serviços à sociedade. Esses cursos e assessorias diversas ajudaram, no campo da reflexão, a conhecer melhor a realidade social e eclesial para a produção de livros e artigos mais pertinentes em termos de conhecimentos práticos, e não só teóricos.

IHU On-Line - Quais foram as principais ações do Ibrades ao longo de sua história, e quais são suas metas para os próximos anos?

Thierry Linard de Guertechin – Podemos classificar as ações do IBRADES em três ramos: cursos de formação social e política, assessorias e pesquisas. Os cursos conhecidos como “cursos do IBRADES” se diferenciavam em “curso longo” (três a quatro meses), “cursos de média duração” (uma ou duas semanas) e cursos de pequena duração, de três dias, os chamados “mini-Ibrades”. Estes últimos, realizados nos próprios lugares de vida dos cursistas, consistiam em fazer conhecer a realidade econômica, sócio-política e eclesial. Era um intercambio feliz entre assessores e cursistas em termos da articulação entre realidade local, regional e nacional. O “curso longo” era bem mais amplo em termos de conhecimento da realidade. No início, o pessoal falava de pós-graduação em realidade econômica, social e política. Curso meio acadêmico, meio popular, ajudava os cursistas em se encontrar como gente, pensar o Brasil e se sentir mais gente. O curso não consiste somente em aprendizagem de matérias, mas é lugar de formação do agente de pastoral e de membro de movimentos social. Os cursos de meia duração eram mais cursos temáticos e/ou “reciclagens” com antigos cursistas. As assessorias nas assembleias de dioceses, de regionais de organismos de Igreja, e de outros grupos mais ou menos institucionalizados são outras ações próprias do IBRADES. Nesta linha, o IBRADRES tomou também a iniciativa de organizar seminários de reflexão e partilha com instituições afins tocando temas e problemáticas comuns como, por exemplo, a formação de lideranças populares, a metodologia, as necessidades detectadas e problemáticas levantadas, etc.

Pesquisas

As pesquisas consistiam em estudos temáticos sobre a realidade brasileira em função do momento, de novas questões conjunturais e estruturais, ampliando o cenário sócio-político ao sócio-cultural. Por exemplo, em colaboração com instâncias diversas da CNBB, houve uma pesquisa sobre “Sociedade contemporânea, família e valores”. Mas, na verdade, outras pesquisas e seminários de estudos foram organizados fora do quadro institucional do IBRADES, mas como CIAS, muitas vezes em parceria com outras instituições. Esses seminários tiveram a felicidade de promover debates livres e abertos. Boa parte das pesquisas e seminários foi publicada nas Edições Loyola nas coleções “Temas Brasileiros Ibrades” e “Estudos Brasileiros – Centro João XXIII”.
Além de seminários, um esforço foi feito para organizar mesas redondas para debater questões atuais, sempre com enfoque interdisciplinar. Durante uma dezena de anos essas mesas redondas foram objetos de publicação nos Cadernos de ATUALIDE em DEBATE.

Formação política

Para os próximos anos, estamos (re)montando um curso de formação política, meio presencial e a distância, que seja mais acadêmico, mas sem perder o cunho popular e a pedagogia interativa. Trata-se de renovar e organizar o “curso longo” sob forma de curso de especialização (pós-graduação lato sensu). Hoje em dia, a necessidade de colher diplomas e certificados exigem uma refundação do curso que seja mais profissional. Contamos com a parceria de instituições afins para levar a cabo este projeto. Continuamos e vamos ampliar o “curso de formação de educadores populares”. Trata-se de uma formação nos fins de semana para lideranças que moram e atuam nas cidades de Brasília e no seu entorno, a “senzala” da “casa grande” de Brasília que é o Plano Piloto. Continuamos em participar nas atividades de planejamento e reflexão das Pastorais da CNBB, em fóruns diversos e no grupo de análise de conjuntura. Fica o desafio de retomar alguma publicação do estilo de Cadernos de Atualidade em Debate. Mas seria uma atividade mais articulada com outras áreas apostólicas da província jesuíta.

IHU On-Line - Que adaptações o Ibrades teve que fazer para se adequar às transformações da sociedade desde 1966, quando foi fundado?

Thierry Linard de Guertechin - Na verdade, em 1966, o IBRADES não existia. Foi fundado, em 1966, na Província o Centro de Investigação e Ação Social – CIAS que mais tarde vai se chama Centro JOÃO XXIII de Investigação e Ação Social. O IBRADES foi fundado em 1968 e se consolidou com o convênio com a CNBB em 1971. A pergunta é complexa e a resposta bem difícil em poucas palavras. Vou só pincelar alguns traços, espero, os mais significativos. Não é o lugar aqui analisar as transformações da sociedade. Mas, para responder à questão, a gente poderia citar a volta do Estado de Direito no Brasil e o fim do chamado socialismo real. Acrescentaria, como pano de fundo sócio-cultural, a crise da modernidade que se manifesta por formas diversas de pós-modernidade. A queda do marxismo leninista na URSS e a Constituição cidadã no Brasil mexeram nos instrumentais analíticos e nas práticas sociais, que eram marcados por um “social duro”, sem tomar em conta as subjetividades dos atores sociais. De fato, já no passado, a gente sentia uma demanda de formação mais completa, no sentido de integrar formação da pessoa com o social. A queda do muro de Berlim e a Constituinte foram catalisadores de um novo modo de abordar a realidade social incluindo mais o “vécu”  tanto dos agentes e atores sociais, como do público-alvo das ações sociais. Na linha da Constituição cidadã, os diretos humanos e a consolidação da cidadania ganharam espaço nos cursos e nas práticas dos agentes de formação social e política. Para responder à crise da modernidade, elementos de antropologia e espiritualidade foram incluídos na formação para articular melhor, na vida pessoal e social, a busca de novos sujeitos sociais e nova terra. Antes das mudanças climáticas, a questão ecológica conquistou destaque na formação, a tal ponto que não dá para separar a questão social da questão ecológica. Hoje, com a internacionalização do capitalismo financeiro, suas realizações com impactos negativos sobre o ser humano e a natureza, enfim as suas crises, entraram, na pauta de nossas discussões para um mundo possível, os desafios sócio-ambientais. Daí se deu importância à ética do cuidado que mude as relações sócio-ambientais.

IHU On-Line - O que a demografia do Brasil pode falar sobre as principais necessidades que o país tem em relação à justiça social, à promoção da fé e ao diálogo cultural e inter-religioso?

Thierry Linard de Guertechin - A demografia é uma ciência mal conhecida. No imaginário de muitos, se reduz à contagem de contingentes populacionais, sem perceber que os números de nascidos, óbitos e migrantes revelam, em parte, a realidade humana e social dos países, no caso que nos ocupa aqui, do Brasil. Além de cálculos, às vezes um pouco complicados, que permitem analisar a dinâmica, o movimento da população de um país, os estudos de população se interessam aos modos de vida das populações, tentam explicar, por exemplo, a queda da fecundidade das mulheres se refletindo na queda da natalidade da população, as razões de os Brasileiros emigrarem para os Estados Unidos, a Europa e o Japão. Também não dá para entender a formação econômica e social do Brasil sem se referir à importação e escravidão de milhões de africanos. A urbanização do Brasil resultou, em parte, pelos milhões de migrantes do campo para as cidades. A demografia, ciência humana e social, não somente traduz em números as injustiças sociais sofridas pelas populações empobrecidas, mas oferece explicações dessas injustiças sociais, evidencia evoluções e até pode projetar situações adversas ou boas. Falando de injustiça, a análise demográfica evidencia, por exemplo, a desigualdade da população brasileira diante da morte. Os nordestinos e pobres têm uma expectativa de vida menor que os sulistas e ricos. São desigualdades regionais e sociais. O sentido destes indicadores evolui também com o nível de vida das populações. A realidade demográfica é dinâmica, mesmo se evolui devagar por causa da inércia inerente a efetivos numerosos. Por seu aspecto analítico, a demografia afirma evoluções de diversos fenômenos, infirma afirmações por falta de base numérica, enfim contribui ao conhecimento da realidade social, econômica e política de um país, de uma região.

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