Edição 366 | 20 Junho 2011

Carlos Roberto Velho Cirne-Lima

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Uma vida na qual se entrelaçam Filosofia, competência no mundo dos negócios e a coragem de sustentar as ideias nas quais acredita. Assim é a trajetória de Carlos Roberto Velho Cirne-Lima, professor emérito da Unisinos, que acaba de comemorar 80 anos. Na entrevista que concedeu à IHU On-Line em sua residência, em Porto Alegre, dois dias depois de uma festa que reuniu colegas, ex-alunos, familiares e amigos, o filósofo hoje reconhecido mundialmente pela originalidade de suas pesquisas em Hegel, recordou os anos em que foi sacerdote jesuíta, colega do atual Papa Bento XVI (então apenas o jovem Joseph Ratzinger), e aluno do teólogo Karl Rahner, um dos grandes expoentes do início dos trabalhos do Concílio Vaticano II. Em função de divergências com Rahner e Ratzinger a respeito do conceito de Deus, Cirne-Lima decidiu sair da Companhia de Jesus e continuar carreira acadêmica na Filosofia. Após uma arguição de livre-docência sob a mira de metralhadoras, o filósofo foi cassado e se viu na iminência de assumir sua segunda profissão: administrador de empresas. Entre idas e vindas em grandes corporações, apoiado pela companhia constante da esposa Maria Tomaselli, Cirne-Lima venceu os dez anos de silenciamento ao retornar, em 1978, para a UFRGS. O resto dessa história vibrante você confere na entrevista a seguir.
Cirne-Lima: 80 anos celebrados em 1º de junho

Origens

Nasci em 1º de junho de 1931. Para contar minhas origens, é preciso retornar ao nome Cirne. Essa é uma família muito antiga, documentada nos séculos XII e XIII, vinda do Norte de Portugal, e que se radica em Pernambuco e na Bahia. Meu pai se chamava Ruy, era advogado e professor de direito. Meu avô era Elias Cirne-Lima, dentista e professor de odontologia. Era filho de Francisco de Souza Cirne-Lima, juiz de direito nascido em Pernambuco, mas trabalhou por todo Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul, onde se casou em terceiras núpcias, pois era viúvo. Com essa esposa, teve filhos aqui nascidos. Meu bisavô é Antônio de Souza Cirne, militar, alferes e depois general, casado com Isabel de Lima, de onde vem para as seguintes gerações o nome Cirne-Lima. Esse Antônio de Cirne provinha de uma família na qual os nomes Antônio e Francisco remontam a Portugal.
A palavra Cirne, originariamente, é o nome antigo da Ilha de Córsega no século VI antes de Cristo. A ilha se chamava, na época, Kyrne, e passou a ser chamada de Cyrne. Então, meus antepassados são mercadores gregos que fugiram da ilha grega de Córsega, no Mediterrâneo, rumo à Ibéria, e foram chamados como “aqueles que eram de Cyrne”. O nome sobrevive, mas pouca gente sabe sua origem.

Anticlericalismo e fervor religioso
Minha história mais recente começa com algo importante. Meu avô, Elias, meu bisavô Francisco e meu trisavô Antônio eram brasileiros, laicos, moderadamente anticlericais e maçons. Meu avô, maçom e anticlerical, tem dois filhos extremamente religiosos: meu pai e o tio Heitor, católicos fervorosos. Assim, há gerações de Cirne maçons e anticlericais, para a seguir nascer uma geração extremamente religiosa. Isso porque, quando os jesuítas, lá pelos idos de 1880, voltaram para São Leopoldo e criaram o colégio da Companhia de Jesus, trouxeram para o Rio Grande do Sul algo que não havia por aqui e que, lamentavelmente, as pessoas não falam e não sabem.
O catolicismo aqui admitia que o padre fosse casado, tivesse filhos, herança, dinheiro e ter terras. Isso era normal. Com a entrada dos jesuítas em São Leopoldo, é fundado um colégio onde é cumprida a lei do Concílio de Trento . As resoluções do Concílio de Trento, que nunca eram levadas a sério no Brasil católico, passaram a ser a partir de então. O Brasil católico daquela época, antes dos jesuítas, ainda não era tridentino. Assim, se um padre estivesse casado, era ilegal. Os jesuítas firmaram posição de que a religião era algo a ser levado a sério. Essa foi a Contrarreforma levada a cabo pelos jesuítas na Europa, em resposta à Reforma realizada por Martinho Lutero . Essa Contrarreforma entrou em São Leopoldo através dos jesuítas.
Essa reforma do cristianismo em São Leopoldo se dá quase ao mesmo tempo em que ocorreu no Colégio Anchieta, em Porto Alegre. Essa instituição foi fundada por jesuítas com a mentalidade da Contrarreforma, e eles vêm para cá numa época em que nem o arcebispo levava as coisas a sério. Depois, os arcebispos passam a ser alunos dos jesuítas, e começam a encarar as coisas de outra forma. O cristianismo Contrarreforma realizado no Colégio Anchieta irá refletir em Ruy Cirne Lima e Heitor Cirne Lima, que ocuparam cargos importantes. Eram alunos do Anchieta e, depois, se tornaram professores de direito e de medicina.

Uma continuação do pai
Os jesuítas começaram a treinar seus alunos, como nos cursinhos de pré-vestibular de hoje, para passarem nos concursos da faculdade de direito, e anos mais tarde, em medicina. Depois, foram fundadas as faculdades de filosofia por um aluno dos jesuítas: Armando Câmara. Ele é considerado o pai da filosofia brasileira. Foi professor de direito e fundador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e da faculdade de filosofia da UFRGS. Era um solteirão, neto do General Câmara. Morava no prédio que está tombado, ao lado da Assembleia Legislativa, que hoje é um museu. Conheci-o vivendo naquele local, pois era colega do meu pai.
Meu Tio Heitor fundou a faculdade católica de Medicina, depois federalizada. Nesse começo, sou a rigor uma continuação do meu pai. Sou supercatólico, e meu avô, que conheci e com quem convivi, era contra isso. Não entendia como eu poderia estudar para ser jesuíta em Salvador do Sul , depois passar três anos em Pareci Novo , três no Berchmannskolleg Pullach Bei München e outros quatro em Innsbruck. Meu avô não compreendia como eu poderia querer ser padre jesuíta. Ficou furioso comigo. Ele era anticlerical, mas como gostava muito de mim,  acabou entendendo. Meu pai compreendeu minha escolha, e nunca nos desentendemos por isso. Ele era completamente a favor do que eu queria fazer. Então, “entrei na onda” do meu pai e, com 14 ou 15 anos, passo um ano em Salvador do Sul, para aprender latim após o colégio. Os outros três anos vivi em Pareci Novo, um dos quais estudando humanidades.

Irmão ministro
O que há de mais importante da minha juventude é o fato de que sou uma continuação ideológica do meu pai. Como ele era um católico pós-tridentino que recebeu dos jesuítas a ortodoxia religiosa muito forte e fundamentalista, continuei isso na minha juventude. Quando meus irmãos viram que saí da ideologia que seguia do nosso pai, deixando a ordem jesuíta, perceberam que também poderiam se “libertar”. Atualmente, um deles frequenta a missa com certa regularidade. Os outros são parecidos com meu avô, que ia à missa umas três vezes ao longo da vida. Ninguém é contra a igreja, todos são batizados, se casaram e, provavelmente, irão receber a extrema unção, mas nada muito além disso. Meu irmão Luís Fernando, que foi ministro da Agricultura, é bem laico. Aliás, ele assumiu esse cargo em 1969 por causa do nosso pai. Em 1964, quando houve a revolução, eu estava em Viena, e meu pai apoiou a situação. Ele se tornou secretário da fazenda do governo estadual de Ildo Meneghetti . Nesse período, Paulo Brossard  era secretário da Justiça. Outros professores de direito assumiram cargos importantes no começo do regime militar. Eles tinham um compromisso por escrito e promulgado de que a revolução duraria um ano. Inclusive, pelo direito romano, uma ditadura poderia durar somente um ano. Esses advogados queriam que a revolução terminasse em abril de 1965. Meu pai deixou a secretaria antes de um ano, continuando como professor, e foi lançado para a sucessão do governo estadual do Rio Grande do Sul. A ideia era restabelecer a democracia no estado na segunda metade de 1965. Perachi Barcelos , coronel da Brigada, era o outro candidato. Como sou cassado pelo regime militar em 1969, eles convidam meu irmão para ministro, a fim de pacificar a família. Hoje, Luís Fernando é consultor, especialista em agricultura, atuando em grandes fazendas no Mato Grosso. Minha família é de profissionais liberais. Tenho dois irmãos falecidos, que eram advogados, e uma irmã também falecida.

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição