Edição 346 | 04 Outubro 2010

A terra, os pobres, os animais: uma visão ecológica da vida

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Moisés Sbardelotto

 

IHU On-Line – Que contribuição as religiões ou a espiritualidade em geral podem trazer para o debate e para novas práticas em torno do cuidado com a Criação?

Haroldo Reimer – A religião é parte integrante da vida cultural. Na chamada modernidade, a religião tende a ocupar um espaço periférico. Entre nós, vivemos antes um renascimento da religião e da religiosidade. Isso não necessariamente é positivo. Contudo, é fato que lideranças de várias expressões religiosas têm envidado esforços no sentido de fomentar a reflexão sobre a dimensão do cuidado com a Criação. Isso envolve o cuidado com o ambiente, mas também o cuidado com as pessoas. Pessoas, animais e terra devem ser pensados como elementos integrantes de uma mesma grande casa. Ecologia comporta dimensões que se estendem do micro ao macro. Com repercussão internacional, devem ser lembrados os esforços por meio de ações do Conselho Mundial de Igrejas. Mas existem muitas iniciativas locais, nas quais se estabelece ligação entre elementos da fé e da espiritualidade e o cuidado com o ambiente. De uma forma geral, nas religiões tem-se redescoberto a dimensão da corporeidade, superando dualismos seculares e evitando a projeção da noção de salvação para algum momento exclusivamente no futuro vindouro. Com isso, o olhar se volta para as realidades concretas da vida das pessoas e do ambiente.
Há também uma série de iniciativas por parte de ONGs no sentido de fazer experiências, por exemplo, do tipo de economia solidária. Aí, a dimensão da espiritualidade se reflete no meio econômico, que serve como um denominador comum na vida moderna. Em países da Europa, a busca por investimentos sustentáveis muitas vezes vem em decorrência de iniciativas ligadas ao ideário da fé.

IHU On-Line – Diversos analistas afirmam que a crise climática é, no fundo, uma crise ética, com graves implicações sociais. Como o senhor analisa as mudanças climáticas? Perdemos a nossa capacidade de “conviver”?

Haroldo Reimer – No chamado paradigma moderno, a natureza é fundamentalmente um reservatório infinito de recursos para a satisfação das necessidades e dos desejos dos homens, os quais se entendem numa caminhada incessante rumo ao futuro. Isso é revelador também de um paradigma ético, na medida em que indica o modo dominante da relação das pessoas com o ambiente. A percepção das crises ambientais e a conscientização acerca da finitude dos recursos conduzem gradativamente a um novo jeito de pensar, o qual também se concretiza em ações. Com isso, o modo de relacionamento, o ethos, passa por transformações. A necessidade de adaptação e um patamar mais elevado da relação com o ambiente vão formatando uma nova ética.

É difícil ter uma opinião unilateral sobre o tema das mudanças climáticas. Sem dúvida, predomina nos discursos a afirmação das causas antrópicas das mudanças climáticas. E essa tese, em grande medida, é acertada. A partir da Revolução Industrial, houve interferências dos humanos no ambiente em proporções nunca antes havidas, exatamente pela ausência das estruturas tecnológicas de intervenção. Exemplo disso é a curva estatística do número de espécies extintas na mesma proporção do crescimento da comunidade humana sobre o planeta. As emissões de materiais poluentes no ambiente se deram em proporções, em geral, acima das capacidades de absorção natural. O efeito estufa, a chuva ácida etc. são exemplos de resultados desse tipo de intervenção. O desmatamento maciço em certas regiões também provoca ou acelera mudanças no clima.
Contudo, nem todos os fenômenos climáticos podem ser atribuídos diretamente à ação humana sobre o ambiente. Há pesquisadores sérios que vêm mostrando que certas catástrofes naturais evidenciam uma dimensão cíclica. Exemplo disso são terremotos. Nesse sentido, a história humana precisa ser pensada dentro dos parâmetros da história natural. E aí, apesar da intervenção massiva nos últimos 200 anos, o ser humano é um fenômeno relativamente recente, cuja permanência pode também cessar em algum momento futuro.

As mudanças climáticas, com seus efeitos nefastos, geram muito sofrimento em muitos lugares do planeta. Há um forte impacto das mudanças climáticas sobre o meio ambiente, a saúde, a biodiversidade, ameaçando a segurança dos seres humanos. Apesar disso, creio que essas mudanças acabarão por aumentar a sensibilidade das pessoas para com as crises e as “dores” do planeta. Estas demandarão maior capacidade de adaptação, e a condição para isso é a sensibilidade para o ciclo maior da natureza. As dimensões das crises climáticas acabarão também por mostrar novamente a pequenez dos inventos humanos em face das potencialidades do mundo natural, retirando, talvez, em parte a arrogância humana por conta da confiança na tecnologia.
A necessidade de adaptação às novas condições climáticas pode ser um excelente treino, embora doloroso, para reaprender a dimensão do conviver.

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição