Edição 343 | 13 Setembro 2010

O devir-Brasil do mundo e o biopoder

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Márcia Junges e Patricia Fachin

 

IHU On-Line - Como esse devir-Brasil do mundo se relaciona com o conceito de biopoder de Foucault?

Giuseppe Cocco - O devir-Brasil do mundo confirma a abertura do conceito foucaultiano de biopoder em duas linhas antagônicas, assim como vários autores (Michael Hardt , Judith Revel , Maurizio Lazzarato , Simone Sampaio, Peter Pál Pelbart) têm proposto e assim como fizemos Negri  e eu, em nosso livro sobre o Brasil e a América Latina (Global: Biopoder e lutas em uma América Latina globalizada): por um lado, no processo de brasilianização, encontramos as dinâmicas do biopoder como poder sobre a vida (para usar os termos de Peter Pál Pelbart), como regulação dos pobres (que, aliás, mistura as políticas de segurança – de fazer viver e deixar morrer - com aquelas mais arcaicas do poder soberano – de fazer morrer e deixar viver); pelo outro, temos a potência dos pobres, ou seja, a biopolítica como potência da vida. Tudo isso se concretiza na questão das favelas: nelas temos, ao mesmo tempo, o biopoder como nova tecnologia de dominação e a biopolítica como plano de consistência da luta e da resistência dos pobres.
Sabemos que a favelização foi e é um processo contraditório. Com efeito, a chegada dos pobres nas cidades teve (pelo menos) dois grandes determinantes: o primeiro determinante é a persistência do latifúndio (inclusive graças à ditadura que reprimiu os movimentos camponeses e continua encontrando amplo apoio naquela mídia que lhe deve concessões estatais e proteção econômica), que expulsou a população rural do campo (do mesmo jeito que a abolição tardia da escravidão acabou empurrando os escravos libertos para a formação das primeiras favelas): a regulação das populações pobres urbanizadas passou pelas favelas, pelos dispositivos de biopoder exercido sobre essa pressão demográfica. Não por acaso, um dos primeiros momentos foi a introdução do higienismo, com a vacina contra a febre amarela; o segundo determinante da favelização, porém, é o movimento de resistência que atravessou o país com o êxodo rural rumo a melhores condições de vida e de trabalho, dentro do processo de urbanização e para além de sua capacidade de absorção industrial (do mesmo jeito que os quilombos, as favelas foram também zonas de autoconstrução de espaços urbanos de resistência, persistência dos pobres a viver, desejar, dançar, criar). Temos aqui, nas favelas e pelos pobres, uma luta biopolítica, a potência dos pobres. Aqueles que fizeram a revolta contra o higienismo (e não contra a vacina!) e agora lutam contra as remoções – por exemplo, no Rio de Janeiro –, que a especulação imobiliária ligada aos megaeventos está querendo impor em nome do controle do “risco”.

IHU On-Line - Em que sentido é preciso desinventar o Brasil?

Giuseppe Cocco - Essa é uma expressão que retomo do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro , para afirmar, com ele, que a passagem da brasilianização para o devir-Brasil implica  justamente na ruptura com o projeto identitário (nacionalista) do Brasil “potência” soberana e independente. Isso aparece claramente na política externa: o que o Brasil está fazendo com o governo Lula não é uma política soberana de desconexão da globalização. Pelo contrário, ele está trabalhando de maneira autônoma (ou seja, em rede) e numa perspectiva pós-soberana, em direção ao governo da interdependência. No plano da política interna isso aparece claramente na questão indígena, assim como vimos no embate para demarcação contínua da Reserva Raposa Serra do Sol (Roraima). Fica evidente que os índios (que deveriam ser o que há de mais “raiz”) enxergam o Brasil como um problema ao passo que os defensores do “projeto nacional” ficam incomodados com os estes que querem continuar a serem índios e não se deixam homologar no processo de desenvolvimento nacional. Não é por acaso que, entre os grandes opositores à demarcação contínua das reservas indígenas, não temos apenas os representantes das elites neoescravagistas (os ruralistas, as grandes mídias monopolistas), mas também os representantes do neodesenvolvimentismo. A comunidade de pontos de vista entre o passado (escravocrata) e o futuro (industrial) não é mera coincidência, mas nos mostra que o futuro é uma armadilha: uma armadilha que se torna bem evidente e grosseira nesse caso, quando os pobres aparecem como diferença radical, como não-Brasil, como devir-Brasil: mas devir antropofágico.
O devir-Brasil do mundo é também um devir-índio do Brasil. Desinventar o Brasil significa apontar para essas trocas de perspectivas.

IHU On-Line - Quais são os limites e possibilidades de se “fazer multidão” numa sociedade na qual o biopoder atua cada vez mais?

Giuseppe Cocco - A noção de biopoder diz respeito a uma tecnologia de poder que investe diretamente a vida na sua articulação entre segurança (sécurité), território e população. O regime de acumulação que está em sua base (e que não por acaso, em seus cursos de 1977-78 e 1978-79, Foucault atribuiu ao neoliberalismo) implica, pois, a integração das redes produtivas diretamente nos territórios, misturando tempo de vida e tempo de trabalho, produção e reprodução: é o que encontramos nas redes locais e globais de terceirização (outsourcing) e nas bacias metropolitanas de serviços (terciarização). A produção se torna biopolítica, o trabalho se separa do emprego e coincide diretamente com a vida como um todo: o resultado disso é a sua crescente fragmentação em um sem-número de estilhaços. O capitalismo contemporâneo explora os pobres enquanto pobres, sem previamente incluí-los e homogeneizá-los na relação salarial. Para fazer isso, passa-se a explorar diretamente as redes de cooperação (por meio das privatizações dos serviços – desde a telefonia até a água e do controle do direito autoral, do copyright e, enfim, da responsabilidade social). A exploração se torna cada vez mais parasitária, quer dizer rentista: o lucro funciona como um imposto e por isso tem características de dominação política (como no caso das milícias que substituem o narcotráfico em alguns territórios do Rio de Janeiro e passam a controlar as redes de serviços). Ao mesmo tempo, se o trabalho não precisa mais passar pela relação salarial para ser produtivo, ele pode passar a lutar e se organizar enquanto tal, enquanto uma multidão de singularidades que cooperam entre si e que se mantêm tais, sem fusionar. Essa passagem, do sem-número de fragmentos modulados politicamente pelo mercado (na sociedade de controle) para a multiplicidade produtiva (e livre) das singularidades encontra, por um lado, os limites da crise das antigas formas de representação (sindicatos, partidos, cooperativas, Estado) e, pelo outro, as possibilidades de um novo tipo de práticas: de produção e de luta. O desafio da luta política e de classe no capitalismo contemporâneo é duplo: em primeiro lugar, trata-se de levar em conta o fato que a passagem da fragmentação para a multidão (dos fragmentos para as singularidades) não é automaticamente determinada pelas novas tecnologias das redes; em segundo lugar – e por consequência -, se trata de pensar e praticar uma política da multiplicidade, quer dizer imanente à produção de diferença (onde as diferenças nada têm a ver com a diversidade e com o multiculturalismo).

Leia mais...

>> Giuseppe Cocco já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. O material está disponível na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br).
• ''MundoBraz'': a brasilianização do mundo. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada nas Notícias do Dia, em 21-1-2010;
• O Império e a Multidão no contexto da crise atual. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada nas Notícias do Dia de 18-5-2009;
• Uma renda universal. Trabalho e vida tendem a coincidir. Entrevista especial com Giuseppe Cocco, publicada em 10-1-2007, nas Notícias do Dia.

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