Edição 366 | 20 Junho 2011

"Não podemos associar a mudança de religião a uma questão de classe social"

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart



IHU On-Line – Acredita que a ascensão social de milhares de brasileiros enfraquecerá as religiões neopentecostais e abrirá oportunidades para os católicos ampliarem suas bases?

Silvia Fernandes – Ainda é muito cedo para fazermos essa afirmação. Não podemos associar de forma radical a mudança de religião ou trânsito religioso somente a uma questão de classe social ou nível de instrução. Quando estudamos a mobilidade religiosa no Brasil vimos que pessoas de todos os níveis de escolaridade e de todas as camadas sociais já fizeram essa experiência. A mudança de religião ou a adesão ao neopentecostalismo não está, portanto, diretamente associada à falta de senso crítico de uma classe com pouca escolarização. As últimas pesquisas  mostraram que pessoas que aderem a Igrejas pentecostais e neopentecostais reclamam do “vazio” em suas vidas antes de conhecerem determinada Igreja. Este depoimento de um médico, da Assembleia de Deus, na cidade de Salvador, ilustra essa situação: “Tinha um grande vazio na minha vida. Eu vivia em busca de resposta e na verdade eu recebi essa resposta através da Palavra, na pregação. Eu tinha dúvidas acerca do pós-morte e eu, como médico, tive a oportunidade de participar de exames cadavéricos na tentativa de saber a causa mortis, mas a medicina não me explicava nada sobre o pós-morte” (C. 55 anos, casado). O desafio da Igreja Católica no mundo urbano já estava colocado antes mesmo da emancipação da nova classe média e está relacionado diretamente com a atitude de abertura, acolhimento e oferta de sentido para a vida de seus membros.

IHU On-Line – É possível conciliar os valores morais da Igreja com a valorização ao consumo?

Silvia Fernandes – Considerando a cultura católica e a maneira como a Igreja se coloca diante da economia e do consumo, podemos sugerir que haverá mais ênfase na condenação do chamado “consumo desenfreado” – sempre criticado pela CNBB – e um reforço da ideia de estímulo ao consumo solidário com apoio a iniciativas provenientes da economia solidária e formas alternativas de geração de trabalho e renda, como constam nas diretrizes para a ação evangelizadora no Brasil.

IHU On-Line – Segundo a pesquisa “Economia das Religiões”, da Fundação Getúlio Vargas, o alto nível de pobreza e miséria nas periferias das grandes cidades deixaria a população local suscetível a propostas religiosas que tragam solução imediata. A senhora concorda com isso? Como a Igreja Católica deveria se posicionar em relação a esse dado?

Silvia Fernandes – O que todas as pesquisas estão demonstrando é que nas periferias das grandes cidades crescem pentecostais e os sem religião. O crescimento desse último grupo por si só nos permite relativizar a sua afirmação de que os pobres ficam suscetíveis a novas ofertas religiosas. As condições precárias de existência tanto podem levar à busca de soluções imediatas pela via religiosa quanto a um processo de desinstitucionalização, isto é, abandono das Igrejas e vínculos religiosos. Neste sentido, as igrejas que pretendem recuperar os seus fiéis devem estar atentas às demandas desses indivíduos e atuar numa lógica de apoio, solidariedade e presença e menos numa lógica normativa e tradicionalista. As comunidades que oferecem espaços de partilha e sociabilidade à população das periferias têm logrado êxito diante dessa tendência de desinstitucionalização que sinalizamos.

IHU On-Line – Como a Igreja poderá atualizar seu discurso a partir da nova realidade social e econômica que se instala no país?

Silvia Fernandes – A atualização do discurso da Igreja Católica na atualidade tem enfatizado a juventude e suas formas de atuação por meio das redes sociais. Esta parece ser uma importante estratégia da instituição. Tendo em vista que aumenta o acesso à internet no país, o foco nas possibilidades abertas por esse veículo de comunicação e informação parece nortear cada vez mais a Igreja Católica em suas ações e objetivos. O que estamos percebendo através do monitoramento das notícias sobre a relação entre a Igreja Católica e as novas tecnologias de comunicação é que há uma ênfase na difusão do “bom uso” da rede, ressaltando o caráter ético e responsável das informações nela veiculadas e implementando mensagens de cunho religioso.

IHU On-Line – Como analisa a questão de que o sucesso econômico seria um sinal de Deus? Como o discurso católico se instala nesse contexto?

Silvia Fernandes – Como sabemos, essa é a tese trabalhada por Max Weber  em seu clássico estudo sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. A reverberação ou apropriação dessa tese no neopentecostalismo deu origem ao que hoje conhecemos como a Teologia da Prosperidade. Esse discurso não compõe as narrativas da Igreja Católica, mais preocupada com valores como justiça, solidariedade e paz no que tange aos valores universais e – no que diz respeito às prescrições morais – na ênfase na preservação da família e nos temas que daí decorrem, como os novos tipos de união, etc. Considerando a classe economicamente emergente, acredito que a Igreja sinalizará mais para a advertência quanto aos excessos no consumo – tema que norteia todos os seus estudos sobre a modernidade – e na necessidade de se reconstruir uma identidade religiosa nos tempos atuais que fortaleça os vínculos familiares e que ajude a nortear as escolhas pessoais no campo econômico. A ligação entre prosperidade econômica e virtuosidade, ou eleição do fiel por Deus, não faz parte da lógica do catolicismo.

IHU On-Line – Em que sentido o movimento Toca de Assis pode ser um meio para que a Igreja consiga se aproximar mais da nova classe média?

Silvia Fernandes – A Toca de Assis  como instituto religioso vinha atraindo uma juventude de classe média em várias partes do país. Contudo, após a crise vivida em relação ao afastamento do fundador, o Pe. Roberto Lettieri , há uma reformulação em curso no sentido de adequação do instituto às normas vigentes para a vida religiosa na Igreja. Com essas mudanças, muitos jovens voltaram para suas famílias e algumas casas da Toca mudaram de função ou fecharam. Acredito que a instituição Toca de Assis, por seu caráter beneficente, consegue atrair o que denominam de “benfeitores”, isto é, pessoas geralmente de camada média que contribuem materialmente para o trabalho dos religiosos juntamente com a população de rua. Não temos maiores dados sobre o perfil desses benfeitores, o que não nos permite garantir a extensão possível desse grupo como sintoma de atração da classe média para a Igreja Católica por meio da Toca de Assis.

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição