Edição 213 | 26 Março 2007

Sobre a censura do Vaticano ao teólogo Jon Sobrino

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IHU Online

Continua repercutindo intensamente a censura à obra de Jon Sobrino. As Notícias do Dia da página www.unisinos.br/ihu tem noticiado o fato amplamente. Confiram em especial as entrevistas com o Prof. Dr. Luiz Carlos Susin, II Fórum Mundial de Teologia e Libertação, publicada em 09-02-2007, bem como o depoimento de Érico Hammes e Susin em 15-03-2007, e o artigo do Prof. Dr. Faustino Teixeira, Uma cristologia que incomoda: a notificação das obras de Jon Sobrino, de 15-03-2007.


A seguir, confira o artigo da teóloga Ana Formoso, graduada e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com a dissertação A teologia da ressurreição em Jon Sobrino. O texto foi escrito com exclusividade para a IHU On-Line. Formoso é consagrada da Comunidade Missionária de Cristo Ressuscitado, e trabalha no Instituto Humanitas Unisinos (IHU), no Programa de Teologia Pública. É professora nos cursos de Teologia Popular na Escola Superior de Teologia Franciscana (ESTEF). Na edição 172 da IHU On-Line, de 20-03-2006, concedeu a entrevista O Jesus humano de Scorcese, adiantando aspectos sobre o filme A última tentação de Cristo, que comentou dentro das atividades da Páscoa 2006, Jesus no Cinema.

A Hermenêutica da Ressurreição em Jon Sobrino

1) Contextualização de sua teologia
A teologia da ressurreição é certamente um tema complexo e tem sido objeto de muitas controvérsias, relativas não à ressurreição em si mesma, mas à forma de compreendê-la ou torná-la mais acessível e à maneira pela qual a história humana é por ela afetada e modificada . Isso é agudizado pelo problema do que se entende, de fato, por história.

Até o Concílio Vaticano II pouco ou nada tratava a Teologia católica da ressurreição de Jesus. Ela não era objeto de especial consideração nem em Cristologia nem em Soteriologia, mas a relegava para a apologética. Perante o novo contexto, teólogos católicos e luteranos vêm se esforçando por tornar a fé na ressurreição mais acessível, de modo a responder aos desafios culturais contemporâneos.

É dentro deste contexto que situamos Jon Sobrino, teólogo da Libertação, que se deixou marcar profundamente pelos questionamentos da época, buscando sempre novas mediações na filosofia, na teologia católica e luterana e na sociologia, como importantes instrumentos de leitura da realidade.

Jon Sobrino é, provavelmente, o cristólogo mais marcante da América Latina. Sua cristologia tem-se desenvolvido ao longo de mais de vinte e cinco anos de publicações, caracterizando-se pelo contexto histórico particular. O compromisso com os pobres e injustiçados reflete sua inquietação permanente pela explicitação de uma teologia de libertação.

Ao descrever sua trajetória teológica, Jon Sobrino afirma que, durante sua juventude e nos primeiros anos de vida como sacerdote jesuíta, a vivência da fé e da vocação, pelas dificuldades que apresentavam, desafiavam muito mais a vontade que a inteligência, isto é, não o levaram a refletir. Entretanto, neste período, chamado por ele de etapa prévia de sua vida, foram lançadas as raízes e as sementes, e estavam implícitas muitas perguntas e o modo de pensar que desabrochariam mais tarde. A essa etapa prévia, sucederam-se dois momentos significativos que ele compara a um duplo despertar: do sono dogmático e do sono da cruel inumanidade. O despertar do sono dogmático foi uma sacudida forte e dolorosa, provocada pela primeira Ilustração, que derrubou muitos conceitos referentes à fé e exigiu a reformulação de outros. Acontece que, durante o curso de Filosofia e Teologia, estudou os filósofos modernos e, especialmente, os grandes mestres da suspeita - Kant , Marx , Sartre , Unamuno  - bem como a exegese crítica e a demitologização de Bultmann, a modernidade e a desabsolutização da Igreja.

Em relação à teologia, o específico deste despertar, como ele mesmo afirma, foi a descoberta do tríplice mistério: de Deus – mistério por excelência – santo, totalmente próximo e não manipulável; do ser humano e da realidade. Essa importante descoberta gerou em Jon Sobrino a convicção de que o mistério possui, ao mesmo tempo, excesso de obscuridade e excesso de luminosidade. Aos poucos, ele aprendeu a vê-lo desde o excesso de luminosidade. Seu grande mestre deste período foi, particularmente, Karl Rahner : “A teologia de Rahner – para dar um exemplo do maior e mais benéfico impacto que tive - acompanhou-me durante aqueles anos, e suas páginas sobre o mistério de Deus continuam me acompanhando até o dia de hoje” . Explicitamente, o A. nada escreveu sobre o mistério, mas essa descoberta teve conseqüências decisivas para sua trajetória teológica, constituindo uma espécie de substrato teológico. Para ele, todo conhecimento teológico participa do mistério, e a razão mais profunda do seu interesse pela Cristologia reside na certeza de que Jesus de Nazaré remete-nos ao mistério de Deus e do ser humano: na relação desses dois mistérios aparece o mistério total. E, mais tarde, ao escrever sobre o pobre, teve em conta – além de sua dimensão histórica, social e política - acima de tudo, o pobre como produto do pecado e da opressão humana .

Foi forjando sua linha de pensar e seu fazer teológico no confronto com a injustiça e a opressão de El Salvador, numa Igreja latino-americana que, pouco a pouco, se abria à causa privilegiada do Evangelho de Jesus Cristo: os pobres. Neste contexto, aconteceu o despertar do sono da cruel inumanidade. Foi uma sacudida, ao mesmo tempo, forte e alegre, levando-o a perceber que o Evangelho, eu-angelion, não é só uma verdade a ser reafirmada, mas uma boa nova que produz alegria. O impacto consistiu, essencialmente, na percepção de uma nova realidade: os pobres e as vítimas, produto do pecado e da opressão humanas. Significou conhecer o Deus dos pobres e os pobres, para quem a tarefa mais urgente é sobreviver e o destino mais próximo é a morte lenta.

Esse despertar teve conseqüências decisivas para a sua vida religiosa e eclesial. Os interesses intelectuais, as certezas e as dúvidas de fé, as perguntas teológicas, exigem honradez com a trágica realidade histórica de repressão e das mortes, massivas e injustas. Tudo isso o levou a perceber não só a existência de Deus, mas também dos ídolos; não só do ateísmo, mas também da idolatria, e a descobrir a correlação transcendental entre Deus e os pobres. Os pobres e as vítimas são sacramentos de Deus e presença de Jesus em nosso meio.

Essa percepção significou uma mudança radical na compreensão do fazer teológico o qual sem ignorar o intellectus fidei, passou a ser, preferencialmente, intellectus amoris, ou seja, uma teologia preocupada em “descer da cruz os povos crucificados” e, por isso mesmo, intellectus misericordiae, intellectus iustitiae, intellectus liberationis. Essa teologia é também intellectus gratiae e a graça passou a fazer parte de sua teologia não como tema específico a ser tratado, mas como dom de Deus que fecunda e alimenta o labor teológico. Para Jon Sobrino, conceber a teologia como intellectus amoris, ineligência da realização do amor histórico pelos pobres e do amor que nos torna afins à realidade de Deus, é a maior novidade teórica da Teologia da Libertação, tornando-a mais bíblica e mais relevante historicamente e levando-a a ser mistagógica, oferecendo o amor como caminho primário que nos torna semelhante a Deus.

A publicação de sua primeira obra (Cristologia a partir da América Latina: Esboço a partir do seguimento do Jesus histórico), em 1976, fruto de um curso ministrado no ano anterior, no Centro de Reflexão Teológica de San Salvador, assinala sua incorporação pública entre os teólogos da libertação. A partir dessa data, destacou-se o A. por sua ampla produção teológica, publicada em livros e revistas. No panorama da Cristologia latino-americana, suas obras tornaram-se ponto de referência obrigatório .

Sobrino sublinha um estancamento na teologia da ressurreição por duas causas. Porque a ressurreição, remetendo ao futuro da história, não parece dizer nada que seja importante para o presente e porque a esperança redescoberta pela nova teologia generalizou-se em demasia. Embora relevante, é uma esperança precipitadamente universal e não capta a parcialidade que lhe é essencial, pois a ressurreição de Jesus é esperança, diretamente, para as vítimas .

Jon Sobrino está de acordo com a insistência de J. Moltmann  de que a ressurreição de Cristo não pode ser reduzida a questões doutrinais, existenciais ou históricas. A ressurreição não pode ser considerada à margem da cruz ou cruzes do mundo. Não pode, assim, ser tratada independentemente da missão eclesial de trabalho em prol da justiça e da libertação . Com esta delimitação, busca os pressupostos que ajudem a captar a ressurreição do Crucificado na caducidade da história.

2) A Ressurreição como revelação da Justiça de Deus
As vítimas deste mundo são o lugar substancial donde brota a cristologia sobriniana e, ao mesmo tempo, onde podem ser encontrados os seus destinatários privilegiados. São o “a partir de onde” e o “para onde” de sua cristologia .

A correlação entre Jesus e as vítimas estabelece um círculo hermenêutico: de um lado, as vítimas ajudam a entender os textos cristológicos e a conhecer melhor a Jesus; de outro, Jesus ajuda a compreender melhor as vítimas e a defendê-las. A partir desse círculo hermenêutico, Jon Sobrino introduz os pobres  e as vítimas no âmbito da realidade teologal, e é defendendo-as que faz teologia, uma teologia comprometida em fazer os povos crucificados descerem da cruz . Na situação concreta dos povos crucificados, surgem, por sua própria natureza, as mais desafiadoras perguntas em relação à ressurreição: é possível compreender e refazer hoje, ainda que seja de forma analógica, a experiência dos primeiros cristãos? Quais as possibilidades de viver como ressuscitados nas atuais condições históricas? O povo crucificado pode ter esperança de ser também um povo ressuscitado? Que significa crer que Deus é o Deus da vida, que faz justiça a uma vítima inocente, ressuscitando-a da morte?

Pergunta-se, ainda, como pode captar-se e compreender o viver, já agora na história, como ressuscitados? Como compaginar o senhorio de Cristo e a miséria reinante neste mundo?
Sobrino nos apresenta caminhos específicos para captar a teologia da ressurreição de Jesus e nos instiga a buscar hermenêuticas libertadoras. As vítimas são o locus privilegiado para captar a ressurreição do Crucificado. Ele nos mostra a riqueza da revelação de Deus nos mais pobres e injustiçados. Nos apresenta, finalmente, a dimensão escatológica da Ressurreição em nossa história e a ressurreição como revelação da justiça de Deus. Uma utopia para viver no seguimento de Jesus e uma promessa que nos abre a um futuro de esperança.

A ressurreição de Jesus é origem e fundamento da fé. Não é um mero problema histórico. Nós nos encontramos aí diante da natureza mesma de Deus e de seu modo de relacionar-se conosco e com toda a criação. Daí a importância da compreensão e práxis da pesquisa no horizonte da ressurreição de Jesus.

Investigar quais são os pressupostos para se poder entender hoje do que se trata quando os discípulos afirmam que Jesus foi ressuscitado e que eles se encontraram com o Ressuscitado é tarefa importante, mas queremos acrescentar que, para o cristão, além disso, não é optativa. Seria um contra-senso, de fato, afirmar que a ressurreição é central à nossa fé e não compreender sequer do que se está falando quando a mencionamos .

Além dos problemas da diversidade de expressões (ressurreição, exaltação, vida, está vivo...) e da manifestação dos diferentes contextos históricos bem como de uma realidade que não é conhecida diretamente, falar da ressurreição de Jesus traz consigo o desafio da hermenêutica . É um acontecimento escatológico, ou seja, é a aparição na história da realidade final da história. Por esta razão, é fundamental levantar a questão hermenêutica diante deste acontecimento concreto, que não é só do passado, mas escatológico. Esta constatação é já uma forma de introduzir-nos na mensagem da ressurreição, à maneira de teologia negativa: a impossibilidade de encontrar uma linguagem adequada exige também a disponibilidade para um certo não-saber necessário para se saber do mistério último e daquilo que a ressurreição tem de participação nele .

O ponto de partida de Sobrino é a pergunta pelo horizonte hermenêutico, desde o qual se deve compreender a ressurreição. Não se trata de estabelecer a historicidade ou, menos ainda, a verdade das tradições sobre a ressurreição de Jesus (das aparições ou/e do túmulo vazio), mas, sim, da compreensão da ressurreição de Jesus a partir da esperança das vítimas – ligada à correlativa revelação de Deus como o Deus das vítimas – e levando em conta a possibilidade de viver já como ressuscitados nas condições da existência histórica .

Mesmo que se tenha assentado a historicidade de um acontecimento do passado, deve-se perguntar, em geral, pelo sentido deste acontecimento no presente, separado por uma distância histórica. Hoje não podemos identificar-nos sem mais com o horizonte de compreensão que possuíam os cristãos primitivos; por isso surge o problema hermenêutico: o que significam os acontecimentos de Jesus, hoje, que óptica é necessária para que se depreenda seu sentido a partir de nosso horizonte atual, separado historicamente por vinte séculos e geograficamente pela situação de terceiro mundo .

Antes de fazer sua própria proposta, o autor apresenta alguns horizontes da teologia européia e latino-americana que tem exercido influência em seu olhar teológico sobre a ressurreição. Sobrino, em suas colocações acerca da teologia da ressurreição respeita, dialoga, confronta e valoriza o estudo de outros teólogos, buscando fazê-lo a partir do contexto atual, principalmente dos “crucificados da história” .

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