Edição 448 | 28 Julho 2014

Para compreender a natureza unitária do mundo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Luciano Gallas / Tradução: Isaque Gomes Correa

“A criação é um processo universal. Ela evolui num processo de criação. E eu, em particular, acredito que esta criação vem de dentro; vem dos próprios sistemas. Ela está dada na natureza, no cosmos. O cosmos é autocriativo”, declara Ervin Laszlo

“Penso que a aceitação de que a realidade ou o mundo seja unitário é, às vezes, o obstáculo básico, pois muitas pessoas ainda acham que o mundo é feito da mesma forma que um bolo de camadas, com elementos separados: o nível físico, o nível biológico, o nível social, o nível cultural e o nível psicológico, e que estes não têm muito a ver entre si. Este é um legado do modo tradicional de instrução, daquela estrutura tradicional escolar e universitária, em que todos estes fenômenos são tratados em diferentes disciplinas, não havendo muito diálogo e interação entre elas. Então, penso que o ponto principal seja a compreensão da natureza unitária do mundo, e que o mundo evolui como um todo, manifestando-se em diferentes formas”. A afirmação é do filósofo Ervin Laszlo, que apresenta assim o ponto central para compreendermos as diversas crises enfrentadas na sociedade contemporânea.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Laszlo discorre sobre o desenvolvimento da humanidade, impactado pela evolução da consciência e inserido dentro de um mesmo processo básico e unitário que afeta todo o universo, o qual se manifesta sob diferentes formas e domínios. “Se a criação for um produto divino — ou ainda um projeto, digamos —, então ela não se encontra sob o nosso controle. É algo que acontece além de nosso domínio. Se a criação for algo no qual participamos, do qual somos co-criadores, então, penso eu, podemos nos perguntar: Como criamos o mundo? Como criamos a nós mesmos? Num sentido literal, podemos criar nosso próprio DNA, pois está dado que há certas informações aí que podemos alterar”, destaca ele. “A ideia básica é como projetar o mundo em que vivemos, o nosso comportamento, nossas interações e como criar níveis mais elevados de consciência a respeito da natureza do ser humano, da natureza da sociedade e da natureza do universo. A criação é um processo universal. Ela evolui num processo de criação. E eu, em particular, acredito que esta criação vem de dentro; vem dos próprios sistemas. Ela está dada na natureza, no cosmos. O cosmos é autocriativo”, complementa.

Ervin Laszlo é considerado o fundador da Filosofia dos Sistemas e da Teoria da Evolução Geral. Nos últimos anos, vem se dedicando à formulação e desenvolvimento do "Akasha Paradigm", uma nova concepção do cosmos, da vida e da consciência emergente na vanguarda das ciências contemporâneas. É presidente do Clube de Budapeste e do Centro Ervin Laszlo para Estudos Avançados, chanceler da Giordano Bruno New-Paradigm University e editor do World Futures: The Journal of New Paradigm Research (Futuros do Mundo: o Jornal da Pesquisa sobre o Novo Paradigma). É detentor do mais alto grau em filosofia e ciências humanas na Sorbonne, Universidade de Paris, e possuidor de doutorados honorários, em bolsas de investigação pela Yale and Princeton Universities e em cátedras de filosofia, ciências de sistemas e futuras ciências pelas universidades de Houston e de Indiana, além da Northwestern University e da State University of New York. Também recebeu um doutoramento honoris causa pelo Canadian International Institute of Advanced Studies in Systems Research and Cybernetics. Foi duas vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 2004 e 2005, e recebeu o prêmio Goi Peace em 2001. É autor de mais de 70 livros, traduzidos em pelo menos 20 línguas, e já publicou mais de quatrocentos artigos e trabalhos de pesquisa, incluindo seis volumes de gravações de piano.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é o principal legado do General Evolutionary Research Group ?

Ervin Laszlo - Acho que este grupo de pesquisa — o General Evolutionary Research Group — contribuiu para tornar cientificamente aceita a ideia de que a evolução existe em todos os sentidos, nos diferentes níveis de complexidade: de que a evolução é, de fato, geral, e de que há uma coisa chamada Teoria Geral da Evolução. Este grupo de pesquisa realizou um estudo nos níveis físico, biológico e sociocultural. Nesse sentido, contribuiu para a aceitação da ideia de uma evolução que se desdobra em diferentes níveis: no nível local, acontecendo de diferentes formas, mas que, em última análise, tem uma mesma dinâmica básica que ocorre nos mais diversos níveis. Esta é a ideia da teoria geral aplicada à evolução dos sistemas.

 

IHU On-Line - E como surgem, no contexto do Clube de Budapeste , os debates acerca da evolução consciente? 

Ervin Laszlo - Já na fundação do Clube de Budapeste estávamos cientes de que a consciência é central, uma peça-chave. Junto com o Dalai Lama  e outros membros fundadores do Clube de Budapeste, escrevemos o Manifesto on Planetary Consciousness [Manifesto para a Consciência Planetária]. Desde então, logo no início do Clube, em 1993, percebemos que, se for para haver um futuro positivo, um desenvolvimento positivo no mundo, será preciso ocorrer uma mudança de consciência, ou mais precisamente: este desenvolvimento precisará ter como base uma mudança de consciência.

Então, decidimos contribuir para essa mudança, para essa evolução da consciência, pois, afinal de contas, a consciência é a forma como vemos o mundo, e a forma como vemos o mundo tem muito a ver com a forma como agimos nele. Isso depende do nível de consciência evolutiva, depende de como agimos no mundo.

 

IHU On-Line - Em que medida essa evolução já está em curso em nosso tempo? 

Ervin Laszlo - Eu diria que esta evolução se encontra num nível considerável. Acho que há 20 anos, aproximadamente, quando começamos o Clube de Budapeste, a ideia de consciência era apenas considerada nos esotéricos ou mesmo muito limitada ao campo da psicologia, ou a algumas áreas dela; não digo todas as áreas da psicologia, pois o behaviorismo , por exemplo, sequer aceitava a consciência como um fenômeno real.

Hoje, creio que a ideia de que a consciência é central para o nosso destino, para o nosso comportamento no mundo, para o nosso futuro, seja muito amplamente aceita por todas as pessoas razoáveis, avançadas e inteligentes.

 

IHU On-Line - Quais são as maiores dificuldades de se colocar em prática essa evolução consciente, dado o contexto de crise generalizada (na economia, na ecologia, em termos energéticos e também sociais) em que vivemos? 

Ervin Laszlo - Precisamos reconhecer que todos estes processos são parte de um mesmo processo básico, o processo evolucionário que se mostra na economia, na ecologia, nos níveis de consciência. Assim, as dificuldades estão em reconhecer que há um processo unitário. Deveríamos dizer de uma “evolução cósmica” ou “evolução no universo”, e que esta evolução se manifesta sob diferentes formas e em diferentes domínios.

Portanto, penso que a aceitação de que a realidade ou o mundo seja unitário é, às vezes, o obstáculo básico, pois muitas pessoas ainda acham que o mundo é feito da mesma forma que um bolo de camadas, com elementos separados: o nível físico, o nível biológico, o nível social, o nível cultural e o nível psicológico, e que estes não têm muito a ver entre si. Este é um legado do modo tradicional de instrução, daquela estrutura tradicional escolar e universitária, em que todos estes fenômenos são tratados em diferentes disciplinas, não havendo muito diálogo e interação entre elas.

Então, penso que o ponto principal seja a compreensão da natureza unitária do mundo, e que o mundo evolui como um todo, manifestando-se em diferentes formas.

 

IHU On-Line - Qual é a importância da Teoria dos Sistemas para uma devida compreensão da evolução consciente? 

Ervin Laszlo - A Teoria dos Sistemas contribuiu para a compreensão dos elementos unitários. Ela diz que precisamos olhar para o sistema como um todo, que um e outro sistema acontecem na natureza, que são produtos e portadores da evolução e que, portanto, são basicamente o mesmo. Eles possuem uma mesma dinâmica, um mesmo processo básico que se desdobra em diferentes formas.

A Teoria dos Sistemas é holística e, obviamente, é uma abordagem sistêmica em relação ao conhecimento e para os nossos problemas. A sua contribuição é chamar a atenção para o fato de que não podemos verdadeiramente compreender um problema — e, portanto, não podemos também resolvê-lo — sem, ao menos, olhar para todos os elementos que são relevantes em seus sistemas. Ou seja, ensina que não devemos observar apenas alguns elementos escolhidos previamente.

 

IHU On-Line - Em que medida, ao tentarmos melhorar o mundo, deveríamos melhorar, antes de tudo, nossa própria atitude perante a criação? 

Ervin Laszlo - Eu diria que precisamos reconhecer, discutir e chegar a uma conclusão sobre a criação. Se a criação for um produto divino — ou ainda um projeto, digamos —, então ela não se encontra sob o nosso controle. É algo que acontece além de nosso domínio. Se a criação for algo no qual participamos, do qual somos co-criadores, então, penso eu, podemos nos perguntar: Como criamos o mundo? Como criamos a nós mesmos? Num sentido literal, podemos criar nosso próprio DNA, pois está dado que há certas informações aí que podemos alterar.

A ideia básica é como projetar o mundo em que vivemos, o nosso comportamento, nossas interações e como criar níveis mais elevados de consciência a respeito da natureza do ser humano, da natureza da sociedade e da natureza do universo. A criação é um processo universal. Ela evolui num processo de criação. E eu, em particular, acredito que esta criação vem de dentro; vem dos próprios sistemas. Ela está dada na natureza, no cosmos. O cosmos é autocriativo.

 

IHU On-Line - Qual é a importância da espiritualidade para uma compreensão da evolução consciente e de nossa responsabilidade pela manutenção da vida na Terra? 

Ervin Laszlo - Penso que a espiritualidade seja uma atitude mental, uma abordagem à vida e à experiência. Assim, a espiritualidade é uma abertura ao pensamento, uma abertura à realidade que se encontra além de nossas sensações imediatas da realidade. É uma abertura para a possibilidade de que haja uma realidade superior, ou mais profunda, se assim preferirmos. De qualquer forma, é uma postura de que o que temos diante de nós, que podemos pegar com as mãos, não é tudo.

A espiritualidade vai além. Trata-se de uma abertura, e penso que esta abertura seja absolutamente necessária, caso queiramos avançar em nossa compreensão da natureza, do universo, de que há muito, muito mais além daquilo que nossos sentidos podem ver, hoje, no universo. Creio que a espiritualidade seja uma porta de entrada para a nossa compreensão da realidade.

 

IHU On-Line - O que demonstra a crença humana ilimitada nos poderes da ciência e na sua pretensa capacidade de desvendar e explicar tudo que existe? 

Ervin Laszlo - A ciência tem seus limites. Mas estes limites não se dão por motivos externos. Têm origem na profundidade de seu progresso. A princípio, penso que inexista um limite absoluto para a ciência. A pergunta que faço é: até que ponto o método nos ajuda a penetrar em nossa compreensão do fenômeno, da natureza real do mundo? A questão do método diz que este precisa se basear na experiência, precisa ser empírico, consistente, que um elemento deste conhecimento precisa ter coerência com outros elementos, e que precisa formar um sistema total além de possuir coerência interna — portanto, ele tem a sua própria lógica.

Estas são, pois, as restrições que a própria ciência se impõe. O quanto é possível explicar? Em termos ideais, ela deveria ter as condições para explicar tudo. Percebo que estamos muito distantes disso, e que talvez nunca cheguemos a este ponto. Percebo também que a ciência está progredindo em sua capacidade de capturar, mais e mais, a realidade de uma maneira coerente e consistente e de acordo com seus métodos.

 

IHU On-Line - Por que produzir e usar armas nucleares é celebrar um “pacto com o demônio”? 

Ervin Laszlo - Acho que a resposta para esta pergunta é clara e bastante óbvia: armas nucleares são capazes de extinguir toda a vida terrestre. Mesmo se parte delas for reduzida, a radiatividade tem condições de produzir, de lançar na atmosfera, elementos danosos que, em última análise, são fatais para todos os seres vivos, exceto, talvez, como dizem, para espécies de gramas, insetos e bactérias.

Portanto, armas nucleares são um pacto com o demônio. Podemos até controlá-las, dominar a técnica da reação nuclear. Mas se usarmos uma arma nuclear para responder, retaliar uma outra reação, estaremos entrando num jogo que terá como consequência, possivelmente, a extinção da vida. Mesmo se não extingui-la imediatamente, com certeza irá causar danos à saúde. Assim, elas são necessariamente algo negativo. Não consigo ver as armas nucleares como tendo algum aspecto positivo. São perigosas, absolutamente.

Últimas edições

  • Edição 534

    Etty Hillesum - A resistência alegre contra o mal

    Ver edição
  • Edição 533

    Direito à Moradia, Direito à Cidade

    Ver edição
  • Edição 532

    Veganismo. Por uma outra relação com a vida no e do planeta

    Ver edição