Edição 394 | 28 Maio 2012

Tecnociência, ética e poder

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Graziela Wolfart

Celso Candido de Azambuja fala sobre o I Seminário nacional de pesquisa: tecnociência, ética e poder, que inicia nesta segunda-feira

A Unisinos, através do grupo de pesquisa “Prometheus: filosofia da tecnociência” do PPG em Filosofia, do Curso de Filosofia, do Instituto Humanitas Unisinos, com o apoio do Núcleo de Formação Humanística, promove o I Seminário Nacional de Pesquisa: Tecnociência, Ética e Poder. O evento acontece de 28 a 31 de maio na Sala Conecta da Unisinos. Mais informações e a programação completa encontram-se em http://filotechne.org/?page_id=218

A IHU On-Line entrevistou por e-mail o professor Celso Candido de Azambuja, que integra o comitê científico e a comissão organizadora do seminário. Segundo ele, “busca-se colaborar, desde a perspectiva das humanidades, no debate institucional sobre o significado e sentido da tecnociência na sociedade contemporânea e também ajudar a problematizar teoricamente a inflexão tecnológica atual da universidade”. Com isso, explica, “esperamos poder contribuir direta e publicamente na reflexão sobre a sociedade tecnocientífica contemporânea e seus desafios éticos e políticos”. E Celso Cândido afirma: “a questão da tecnociência tornou-se talvez o problema central de nossa época. Todas as questões humanas e civilizatórias passam, direta ou indiretamente, pela pesquisa e pelo desenvolvimento tecnocientífico. Hoje, mais que nunca, técnica é poder”.

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Celso Candido de Azambuja é mestre em Filosofia pela mesma instituição e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP com a tese Hipertexto e subjetividade – máquinas e redes cibernéticas interativas de comunicação e informação e produção de subjetividade. É professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Unisinos e organizou inúmeras publicações, entre elas Filosofia e ensino: um diálogo transdisciplinar (Ijuí: Unijuí, 2004) e A criação histórica (Porto Alegre: Artes e Ofícios/Sec. Municipal da Cultura, 1992).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que se pretende alcançar com o I Seminário nacional de pesquisa: tecnociência, ética e poder?

Celso Candido de Azambuja -
De forma resumida, trata-se de ajudar a mapear, fortalecer e articular institucional e interinstitucionalmente o campo de pesquisa filosófica em torno do problema da tecnociência e suas implicações éticas, políticas e sociais. Busca-se colaborar, desde a perspectiva das humanidades, no debate institucional sobre o significado e sentido da tecnociência na sociedade contemporânea e também ajudar a problematizar teoricamente a inflexão tecnológica atual da universidade. Mas também se busca colaborar no processo de articulação das pesquisas nas humanidades e nas ciências tecnológicas. No Brasil, fortalecer este campo de pesquisa é uma tarefa primordial. A pesquisa brasileira precisa aprofundar sua especulação teórica, filosófica e científica, em torno das questões pertinentes à sociedade tecnocientífica. Este processo só se fará em nível interinstitucional e a partir de uma perspectiva transdisciplinar e transversal. Penso que há um enorme trabalho teórico e político a ser feito, no sentido de favorecer a criação e o desenvolvimento de atividades e pesquisas transdisciplinares em âmbito institucional e articular pesquisas e pesquisadores em nível nacional e interinstitucional, inclusive envolvendo a iniciativa privada e o setor público.
A partir do Seminário faremos diferentes publicações: de artigos dos conferencistas nos Cadernos IHU Ideias (www.ihu.unisinos.br/cadernos-ihu-ideias); de vídeos das conferências e apresentações no Canal Online do Projeto Filoweb (http://vimeo.com/channels/filoweb) e de um caderno de resumos das comunicações no site do Grupo de Pesquisa Prometheus (http://filotechne.org/). Com isto esperamos poder contribuir direta e publicamente na reflexão sobre a sociedade tecnocientífica contemporânea e seus desafios éticos e políticos.


IHU On-Line - Como se relacionam tecnociência, ética e poder? Qual a importância deste debate para o cenário contemporâneo?

Celso Candido de Azambuja -
A questão da tecnociência tornou-se talvez o problema central de nossa época. Todas as questões humanas e civilizatórias passam, direta ou indiretamente, pela pesquisa e pelo desenvolvimento tecnocientífico. Hoje, mais que nunca, técnica é poder. Diferentemente da técnica moderna que era altamente concentrada nas mãos de poucos, a técnica contemporânea é também poder de muitos, gerando efeitos de empoderamento civil – ainda pouco ou mal percebidos pela maioria dos cientistas e filósofos políticos universitários – que colocam problemas éticos e políticos de toda ordem. A tecnociência contemporânea tem um caráter revolucionário e espetacular. Ela deu e está dando aos homens meios cada vez mais poderosos de intervenção na sociedade, sobre a natureza e sobre si próprio. Ao mesmo tempo, se é verdade que o destino humano é tecnocientífico e somente no horizonte da tecnociência a humanidade encontra qualquer esperança de futuro, entretanto, este mesmo desenvolvimento tecnocientífico gera questões angustiantes, na medida em que também coloca em risco o conjunto da vida planetária e nos aponta para transformações insuspeitadas no modo de vida e ser humano um século atrás.  Então veremos que a tecnociência contemporânea não carrega apenas a esperança de futuro da civilização, mas gera também uma enorme angústia, devido aos seus poderes de transformação e destruição.
O poder de um único indivíduo hoje é incomparável ao que ele tinha na antiguidade e mesmo na modernidade. Acesso à informação, controle e poder de comunicação, intercriatividade social, difusão cultural, disseminação em massa de medicamentos e tratamentos de doenças, vida prolongada – tudo isto coloca o indivíduo diante novas responsabilidades e novos desafios existenciais e sociais. Os problemas humanos se transformaram, seja em relação ao trabalho e suas formas de organização, ao tempo e qualidade de vida, às relações interpessoais e afetivas, às formas de participação política e cultura, etc. O agir humano tornou-se muito mais complexo e é hoje totalmente dependente da técnica.


IHU On-Line - Em que sentido a técnica pode ser apontada como um problema ético?

Celso Candido de Azambuja -
Quando Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, faz a distinção das virtudes intelectuais, ele aponta a phronesis, ou sabedoria prática e a techne, ou a sabedoria técnica, como virtudes relativamente independentes. Em certo sentido, não existe aqui nenhum problema ou implicação ética no campo da técnica. E esta se apresentará como uma virtude intelectual inferior não só diante da Phronesis, mas também da Sophia, do Nous e da Episteme.  (Em contrapartida, na Metafísica, Aristóteles reconhecerá a importância fundamental da técnica dialética no âmbito da atividade filosófica. Mas este é outro assunto, pois diz respeito à dependência da sabedoria filosófica da própria técnica – problema que, aliás, nem todos os filósofos estão dispostos a encarar verdadeiramente.) Esta representação aristotélica das relações entre técnica e ética tem a ver com o lugar que a técnica ocupava na antiguidade. Como destaca Galimberti, em seu monumental tratado Psiche e Techne – o homem na idade da técnica, a técnica na antiguidade está circunscrita no interior das determinações da natureza, cujos desígnios são eternos e imutáveis e cujos limites são intransponíveis. A técnica assim não impunha, de fato, nenhuma questão ética verdadeiramente relevante. Na modernidade industrial, acabamos por reduzir o sentido da técnica a uma representação essencialmente instrumental. Sendo definida como instrumento, a técnica não seria senão um meio a serviço do estado, da ciência, da indústria, da economia. Esta representação instrumental não é um acaso ou mero equívoco. Ela faz parte do magma imaginário da sociedade industrial altamente instrumentalizante. Máquinas são inventadas para produzir em escala de massas, para dominar a natureza, para aumentar os índices de produtividade. A técnica moderna assim reduziu-se a um instrumento nas mãos dos homens.
Desta maneira a técnica praticamente assume o controle e favorece o desenvolvimento da sociedade moderna. Sendo um instrumento de produção e transformação da natureza, a técnica, invadindo todos os campos da atividade produtiva, acaba por se tornar um problema ético, pois seus efeitos no âmbito da sociedade serão cada vez mais abrangentes e decisivos. Agora, a natureza é colonizada pela técnica. Assim, na modernidade industrial, o problema principal será o de como bem utilizar a técnica, ou seja, trata-se basicamente de como manipular a técnica de forma correta e adequada. São ainda dimensões claramente distintas, mas já muito fortemente imbricadas. É só no fim da modernidade que Heidegger, Simondon e McLuhan – que estão entre os mais agudos pensadores do século XX – se deram conta do reducionismo desta concepção de técnica. Eles perceberam que a humanidade e a própria ciência nada seriam sem a técnica; que os modos de ser e perceber o mundo são inseparáveis dos meios técnicos; que separação entre técnica e cultura é totalmente sem sentido e alienante; e que por fim a técnica tem um protagonismo central na escalada da civilização humana. Hoje, diferentemente de outras épocas, em certo sentido, já o agir humano é essencialmente técnico. A técnica está no centro da ação humana.


IHU On-Line - Que considerações podem ser feitas em torno de uma filosofia da técnica moderna?

Celso Candido de Azambuja -
A meu ver, a técnica moderna esgotou-se. O conceito de técnica na modernidade foi reduzido a sua mera instrumentalidade. Hoje a luta é contra a técnica moderna tal como ela foi realmente compreendida e praticada ao longo da modernidade industrial, ou seja, como instrumento de exploração da natureza e da humanidade.


IHU On-Line - Além de Giorgio Agamben e Hans Jonas, que outros autores e pensadores inspiram os debates do Seminário? 

Celso Candido de Azambuja -
A lista não seria muito extensa. Entretanto, eu destacaria as reflexões presentes nas obras de Heidegger , Simondon e McLuhan  e que são autores precursores e inovadores, junto com Jonas, do debate sobre a técnica no século XX. Entre os contemporâneos encontram-se pensadores fundamentais como Gilbert Hottois, Umberto Galimberti e Pierre Lévy , no campo da filosofia. No campo da sociologia, Manuel Castells  é também uma referência fundamental.


Leia mais...

Celso Candido de Azambuja já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

• A reinvenção do ser humano a partir da invenção da máquina. Publicada na edição Maio de 1968: 40 anos, número 250, de 10-03-2008

• Sociedade das possibilidades. Publicada em Notícias do Dia de 16-6- 2009

• A técnica pode ser um instrumento neutro? Publicada na edição 100 anos de Marshall McLuhan: um teórico de vanguarda, número 357, de 11-04-2011

• A derrocada dos grandes sábios e um oráculo chamado Google. Publicada na edição número 379, de 07-11-2011

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