Gauchismo - A tradição inventada e as disputas pela memória

As efemérides, ao evidenciarem determinados feitos, reafirmam os entendimentos mais comuns sobre o acontecimento histórico em questão. Elas também possibilitam que se lance um olhar crítico sobre o passado, para que não se fique refém do senso comum ou de visões engessadas. Uma data que anualmente rende debates e publicações acerca dela é o 20 de Setembro, quando se celebra a Revolução Farroupilha — ou Guerra dos Farrapos, como alguns preferem, já que os eventos ocorridos de 1835 a 1845 no extremo sul do Brasil não caracterizam uma revolução.

A revista IHU On-Line desta semana se alinha à segunda perspectiva. Nesta edição, publica um conjunto de entrevistas que se afastam das narrativas laudatórias em torno da identidade gaúcha a fim de apresentar subsídios para uma compreensão mais complexa deste tema que atinge a todos os gaúchos, tanto os que endossam a mitologia ufanista, quanto os que a negam. A questão, no entanto, tem alcance expandido, pois, ao se refletir sobre uma identidade regional, também se discutem os entendimentos acerca da identidade nacional.

O professor de literatura Luís Augusto Fischer defende a tese de que a bravata seria uma forma de se expressar no Rio Grande do Sul que combina decadência com arrogância, a partir das raízes rurais do estado.

O historiador Jocelito Zalla, ao falar sobre o seu ofício, afirma que a compreensão e análise dos fenômenos regionais não exime o historiador de fazer a crítica de todo e qualquer discurso preconceituoso que vigore na cultura local.

O também historiador Mário Maestri elabora a perspectiva de que a invenção do ethos gaúcho hegemônico solidificou o esquecimento sobre o passado escravocrata do estado.

A antropóloga Maria Eunice Maciel faz uma distinção entre cultura tradicional e cultura tradicionalista como premissa para se discutir o gauchismo.

A historiadora Letícia Borges Nedel faz uma ressalva muito oportuna: não se deve testar a “correspondência fática” entre o que é postulado pelos tradicionalistas e as práticas culturais de antigamente, mas entender a maneira como se processa o movimento na contemporaneidade.

O irmão marista Antônio Cecchin, coordenador do comitê Sepé Tiaraju, propõe uma aproximação polêmica: tradicionalismo e ditadura são irmãos siameses.

E o jornalista Moisés Mendes estabelece uma síntese contemporânea: “A busca por uma identidade, que funda o tradicionalismo e espalha os Centros de Tradições Gaúchas - CTGs, lá nos anos 1950, chega agora ao estágio da supremacia da caricatura”.

Além do conjunto de reflexões que discutem a identidade do gaúcho, a edição apresenta entrevistas com Carlo Franzato, designer e decano da Escola da Indústria Criativa da Unisinos; Gisella Colares Gomes, economista voluntária da Auditoria Cidadã da Dívida; Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp; Rafael Guimaraens, jornalista e escritor; e o artigo de Gabriel Adam, professor dos cursos de Relações Internacionais e Direito da Unisinos, que analisa as perspectivas do governo de Michel Temer acerca do Mercosul.

A todas e a todos, uma boa leitura e uma excelente semana!