Edição 222 | 04 Junho 2007

Campo “triste”. Vale dos Sinos está sufocado pela crise

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IHU Online

Já passou o tempo em que Campo Bom se destacava pelos altos índices de exportações do país. Aos poucos o sapato vem deixando de ser a maior fonte de renda do município. A cidade, reconhecida por suas festas populares e pelo povo alegre e trabalhador, parece estar adormecida. O crescimento da  crise no setor calçadista tem deixado, além de muitas preocupações e incertezas, mais de 1620 desempregados apenas neste ano, segundo o diretor do sindicato local dos trabalhadores, Juarez Flor. A reportagem é da revista IHU On-Line, e foi publicada em 01-06-2007 no site www.unisinos.br/ihu repercutindo a crise no setor calçadista no Vale dos Sinos.



No início da semana passada, uma das maiores exportadoras de calçados femininos do país, Reichert Calçados, anunciou o fechamento da sede em Campo Bom e de suas 20 unidades espalhadas em 11 municípios gaúchos. Com o encerramento das atividades da empresa, aproximadamente 5mil pessoas estarão desempregadas até o final de julho. Para a próxima segunda-feira, 4-06-2007, estão previstas 75 demissões no setor de modelagem.

Na manhã desta quinta-feira, 31-05-2007, a equipe da IHU On-Line foi ao município e conversou com alguns trabalhadores e desempregados. Os sentimentos de tristeza e desânimo refletem pelas ruas da cidade, ao mesmo tempo em que se contrapõe à esperança e ao desejo de mudanças. Chocados com as demissões em massa que vêm ocorrendo na região, os ex-calçadistas sonham com um futuro incerto e esperam soluções.

“Estou com dois meses de aluguel atrasado. Já pediram para desocupar a casa, mas eu não tenho como arrumar outro aluguel porque estou desempregado”. Esse é o drama que Lodacir de Moura Oliveira, 46, está vivendo há um ano, desde que foi demitido da Irmãos Schmidt. Com vinte anos de experiência como passador de cola e lixador, ele perambula pela cidade em busca de “biscates”. A esposa, desempregada há oito meses, também não consegue retornar para as fábricas da cidade. “A situação tá difícil pra mim. Tenho três filhos para sustentar. Estou apavorado e desempregado”, desabafa.

Sem dinheiro para pagar a luz e a água, ele conta que nem sempre consegue comprar comida para os filhos de quatro, seis e oito anos. Atualmente sobrevive de doações. “A Igreja está ajudando os pobres. Eles arrecadam e chamam a gente para distribuir um ranchinho”. Se não encontrar emprego na próxima semana, Oliveira diz que pretende voltar para a cidade natal. “Eu vou ter que ir embora. A esperança que resta é que minha gente me dê uma mão, porque aqui não tá dando mais para sobreviver.”

As maiores dificuldades são vivenciadas por homens e mulheres de 30 a 50 anos que dedicaram a maior parte de suas vidas à profissão. Demitido da Calçados Modelli há duas semanas, Gilberto Maximo Ghiggi, 46, encaminhou o seguro desemprego nesta manhã. Ele trabalhava na empresa há 18 anos, e conta que a maior preocupação nesse momento é ter que parar de pagar a faculdade da filha Priscila, 18 anos. “Trancar um sonho tão desejado é difícil e doloroso”, lamenta.

A esposa de Ghiggi também depende do setor para auxiliar nas despesas da família. Atualmente, ela trabalha na Calçados Nunes, que segundo ele, “não está prometendo muita coisa para a diante”. O ex-calçadista diz que está procurando emprego em outra área, mas lembra que “no Vale dos Sinos tudo gira em torno do sapato”.

Gilberto Pochnann, 46, também é um dos 400 desempregados que dependia da Calçados Modelli. Sem obter lucro, a empresa encerrou as atividades no mês passado. Depois de dez anos de carreira na organização, ele afirma que mesmo com as dificuldades pretende continuar atuando no ramo. “Depois de 30 anos exercendo uma profissão, é difícil pensar em outra atividade que não seja o calçado”, aponta. Pai de dois filhos, um de 12 e outro de 19, Pochnann era responsável pelas despesas da família. “Com o seguro desemprego ainda vamos conseguir nos manter, mas não por muito tempo”, comenta. De acordo com Roberto Nardes, responsável pela captação de vagas no Sistema Nacional de Emprego (SINE) da cidade, o número de pessoas encaminhando o seguro desemprego desde abril tem aumentado e oscila entre 50 a 60 por dia.

Crise atinge outros segmentos
O comércio do município também está passando por momentos de tensão. Raul Blos, 66, é dono de uma livraria e diz que “desde março as vendas decaíram assustadoramente”. O mesmo está acontecendo na lotérica de Catia Luz, 34. Segundo ela, o estabelecimento que funciona há seis anos arrecadava três mil contas por mês. “Hoje arrecadamos a metade. O pessoal está pagando as contas do mês passado”, explica.

Nas farmácias, o movimento também diminuiu. Para não perder os clientes, a vendedora da Farmácia Econômica, Thais Gonçalves, diz que além dos descontos, a drogaria está parcelando as contas em várias vezes. Segundo ela, outro fator que tem contribuído para o declinio das vendas são os cortes de benefícios concedidos pelas empresas calçadistas. “Nesse mês muitas empresas cancelaram os convênios com a farmácia”, explica. Assim, ressalta "os funcionários estão se afundando em dívidas".

Crise no Vale dos Sinos. 'Nunca sei até quando meus pais vão ter emprego'. A opinião de alguns universitários   
Depois de mais uma empresa de calçados encerrar suas atividades no Rio Grande do Sul, a crise do calçado cresce e deixa profundas marcas nos trabalhadores que agora se vêem desempregados e sem perspectiva de trabalho. Até que ponto o povo gaúcho tem ciência deste problema e está pronto para ajudar estes trabalhadores a cobrarem dos governantes alguma solução?
Para saber a opinião dos universitários, a IHU On-Line conversou com alguns alunos da Unisinos sobre o tema. A primeira entrevistada foi Tanísia dos Santos, 32 anos, aluna de Letras. Ex-representante da marca Picadilli, ela conta que há dois meses foi demitida. “Não sei o que fazer, tenho que pagar a universidade e não tenho nenhuma reserva; provavelmente vou ter que trancar no próximo semestre.” Ao mesmo tempo, Julianna Baum, 18 anos, de Dois Irmãos, diz que sabe que a crise no setor calçadista da sua cidade é grande, mas não tem lido muito sobre o assunto. “Eu leio nos jornais, mas não tenho muito o que falar sobre o assunto”, diz a estudante de Direito.
Daniela Machado, 19 anos, aluna do curso de Jornalismo, sabe bem o que é a crise, afinal boa parte de sua família depende do setor. “Quando eu fiz vestibular, meu pai disse que o que eu escolhesse ele apoiaria, menos algum curso ligado ao calçado”, conta. Ela mora em Novo Hamburgo e tem o pai e a mãe atuando no setor calçadista da região. “Meu pai está com pouco serviço na firma, vários empregados foram para rua”, relata.

Confira a seguir a conversa realizada entre a IHU On-Line e Daniela Machado, na íntegra:

IHU On-Line - Daniela, como tu tens acompanhado a crise no setor calçadista na tua região?
Daniela Machado -
Eu sempre procuro me manter informada através do Jornal NH, que possui duas páginas dedicadas ao setor. O jornal tem noticiado a crise diariamente. De uns anos para cá, tornou-se comum o NH publicar notícias falando que o grande problema da crise se deve ao fato do Brasil ter a China como concorrente. Eu sei que a China produz o calçados em grande escala, gastando menos em matéria-prima. A mão-de-obra lá é muito barata, também.

Meu pai sempre trabalhou com exportação de calçados. Mas, com a forte concorrência da China, as firmas perderam mercado no exterior. A maioria das empresas da região, hoje, só trabalham voltadas para o mercado interno.

IHU On-Line - E como é viver essa crise na família?
Daniela Machado -
É complicado porque eu nunca sei até quando meus pais vão ter emprego. Em julho do ano passado, a crise estava muito forte e a firma da minha mãe começou a dar férias para todo mundo, inclusive demitiu algumas pessoas. Eu tenho uma tia que trabalhou a vida todo com calçados e agora perdeu o emprego.

IHU On-Line - Onde ela trabalhava?
Daniela Machado -
Ela trabalhava na Cariri Calçados, em Estância Velha. Era uma empresa muito forte. O marido dela também perdeu o emprego, ele trabalhava na Menfins, no mesmo município. Imagina, mais de 200 pessoas ficaram sem emprego nessas firmas.

O meu pai está com pouco serviço na empresa. Os colegas dele que foram demitidos estão partindo para outras linhas, fazendo acessórios e tal. Inclusive, quando eu fiz vestibular meu pai me disse que o que eu escolhesse ele apoiaria, menos algum curso ligado ao calçado. Minha família toda trabalha com calçado.

IHU On-Line – E, diante dessa crise, como você faz para continuar estudando?
Daniela Machado -
Eu me viro como posso. Estou trabalhando em dois lugares, pois eu tento depender o menos possível dos meus pais. Eu não sei até quando eles estarão recebendo todo mês ou até quando estarão empregados. A minha insegurança só vai acabar quando eu me formar e conseguir uma estabilidade, daí eu poderei ajudá-los, e até lá acredito que a crise vai piorar ainda mais.

IHU On-Line - E como fica o lado psicológico deles, ou seja, como eles lidam com essa sensação de não saberem se vão acordar empregados no dia seguinte?
Daniela Machado -
É insegurança total, mas eles não expressam isso comigo. Eles comentam essa crise com amigos de profissão. Meu pai, quando encontra ex-colegas de trabalho na rua, sempre fala da crise, que está complicado e muitos estão tentando ganhar a vida de outra forma, trabalhando por conta. Meu pai sabe que se ele ficar desempregado não vai conseguir trabalhar em outro lugar; isso ele me falou. Ele não tem curso superior ou técnico e já está com quase cinqüenta anos. Antigamente, não precisava de curso superior. Ele, por exemplo, aprendeu fazendo.

A minha mãe se preocupa mais com a idade, ela trabalha no financeiro e não conseguirá trabalho em outras empresas. Eles acreditam que eu terei uma vida bem diferente. Com diploma, eles dizem, tudo será mais fácil. Eles me incentivam a trabalhar sempre, dizem que eu tenho é que me preocupar com o meu futuro e não com o deles.

IHU On-Line - E tu pensas como eles?
Daniela Machado -
Não. Porque a concorrência é muito grande na área da comunicação e  eu tenho medo de decepcioná-los, de não conseguir um bom emprego e ter que acabar trabalhando com outra coisa.

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