Edição 222 | 04 Junho 2007

“A questão da dívida externa deixou de ser um problema”

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IHU Online

O debate sobre a política econômica do governo Lula, sobre o dólar e o real é o tema de uma entrevista que a revista IHU On-Line realizou, por e-mail, na última semana, com a economista Lídia Goldenstein.

Lídia é economista formada pela USP, com mestrado e doutorado em Economia pela Universidade de Campinas. Foi economista/pesquisadora do CEBRAP e assessora da presidência do BNDES de 1996 a 1998. Professora de diversas instituições, tais como Fundação Armando Álvares Penteado e Unicamp, tem diversas pesquisas e artigos publicados sobre questões político-econômicas. É autora do livro Repensando a dependência (São Paulo: Paz e Terra, 1994). Atualmente, é consultora da LGoldenstein Consultoria e Associada da MBAssociados, onde é parceira de José Roberto Mendonça de Barros.

IHU On-Line - Se a economia brasileira vai tão bem, como afirma o presidente Lula, por que o País não cresce? Quais os principais entraves para o crescimento econômico?
Lídia Goldenstein –
Fundamentalmente, a principal limitação para o País voltar a ter um crescimento sustentável (mais de 5% ao ano, por vários anos) está ligada ao fato de as taxas de investimento ainda serem muito baixas.

IHU On-Line - E por que os investimentos são baixos? 
Lídia Goldenstein -
Acho que por vários motivos que se entrelaçam uns aos outros. Antes de mais nada, é porque, apesar da queda, os juros ainda são extremamente elevados. Juros elevados obrigam o governo a gastar com juros e dispor de recursos irrisórios para investir em infra-estrutura que se torna outro entrave para o investimento. Sem garantia de energia no futuro, sem estradas, portos e ferrovias, os custos no Brasil vão tornando-se extremamente elevados, e as empresas, quando decidem investir, têm preferido investir no exterior. Os casos agora já são inúmeros. Mais ainda: juros elevados são uma das explicações importantes para a valorização do Real, outro dos entraves à retomada mais forte dos investimentos. Com o Real sobrevalorizado, o País vem perdendo competitividade nas exportações e aumentado as importações. O aumento de renda do bolsa família e do salário mínimo tem resultado no crescimento da demanda de bens de consumo em geral, mas não em aumento da produção interna e sim em importação.

IHU On-Line - Qual balanço podemos fazer do Plano Real, considerando sua atual valorização em razão da queda do dólar? Para quem o Real é bom, para quem ele é ruim? Isso foi sempre assim desde sua implantação? Como o Real tem se construído na economia brasileira e mundial? Podemos dizer hoje que o Real é uma moeda forte?
Lídia Goldenstein -
O Plano Real foi um plano de estabilização que teve imenso sucesso em impedir que o Brasil entrasse em um processo de hiperinflação aberta. Depois disso, tivemos inúmeras crises internacionais, a maxidesvalorização do Real, a entrada da China de forma retumbante no cenário internacional, a eleição de Lula etc. Não dá para simplificar a análise e colocar tudo como se não existisse história, evolução, contradições, mudanças no cenário internacional. O Real de hoje é fruto de um cenário internacional profundamente diferente do Real do momento de sua implantação, no Plano Real. Mais ainda: desde então, o País passou por mudanças estruturais com impactos na sua moeda. Um exemplo é o da geração de superávits comerciais expressivos.

Hoje, pode-se dizer que a questão da dívida externa deixou de ser um problema. Conseqüentemente, não existe mais o risco, pelo menos no médio prazo, de termos desvalorizações tão significativas da moeda nacional como tínhamos no auge da crise da divida externa, nos anos 1980.

O Real valorizado ajuda no combate à inflação. Mas o atual nível de valorização é extremamente prejudicial para o setor produtivo e, conseqüentemente, para a geração de investimentos e emprego.
 
IHU On-Line - Quais são os riscos da atual taxa de câmbio para a estrutura industrial brasileira? E quais as conseqüências de uma especialização na produção de commodities?
Lídia Goldenstein -
Os riscos são muito elevados. Principalmente se lembrarmos que, além do câmbio, temos problemas graves de custo decorrentes do que chamamos genericamente de custo Brasil: falta de regulação, provável apagão energético no médio prazo, falta de infra-estrutura portuária, rodoviária e ferroviária, burocracia, corrupção etc. Não bastasse tudo isso, o Brasil carece de investimentos em P&D e ainda não temos uma cultura empresarial agressiva na construção de marcas e design. Tudo isso junto enfraquece o País e vai minando nossa capacidade competitiva.
 
IHU On-Line - O economista Mendonça de Barros defende uma conduta mais ousada na economia, lembrando que “não existe risco zero”. Por que tanta dificuldade em reduzir os juros? Por que tanta cautela por parte da política econômica/monetária do governo Lula?
Lídia Goldenstein -
No início do seu governo, o Presidente Lula precisou ser mais realista que o rei, pagando um pedágio de conservadorismo por conta do período em que era oposição e dizia qualquer coisa para ser oposição, sem coerência e contra tudo. Teve que ser muito conservador no início para evitar um retrocesso enorme da inflação que a fuga de capitais já estava provocando. Mas, após tanto tempo, só posso explicar que continua com a mesma política por falta de projeto alternativo e capacidade de sua equipe implementá-lo.
 
IHU On-Line - Que cenário podemos prever caso o governo Lula baixe os juros e volte a inflação? Isso é possível? Como a economia internacional influencia nisso?
Lídia Goldenstein -
Ninguém de bom senso está propondo uma queda abrupta e repentina. A idéia é acelerar a queda. A inflação não só está sob controle, como abaixo da meta. Existe espaço para uma política de redução dos juros sem temer o retorno do processo inflacionário.

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