Edição 222 | 04 Junho 2007

A obra de Rûmi como guia de ensinamento espiritual

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IHU Online

Ao ler as poesias de Rûmî, Beatriz Machado diz que para os místicos “a leitura provoca experiências interiores, geralmente num nível desconhecido para o não místico”. Para um leitor fiel, explica ela, as poesias desvendam coisas antes nunca reveladas. A obra do poeta persa pode servir como um guia de ensinamento espiritual, em diversos níveis. “Do ponto de vista da técnica pedagógica mística, trata-se de uma obra incomparável”.

Embora aborde elementos para reflexões de ordem política, ética e psicológica, a filósofa enfatiza que atualmente é necessário “fazer um grande trabalho de tradução e atualização”. Isso porque com o surgimento da modernidade, esclarece ela, muitos dos signficados originais da obra foram “profundamente aleterados”.

Beatriz Machado é mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). É autora da tese Sentidos do Caleidoscópio, uma leitura da Mística a partir de Ibn ‘Arabi. Confira, a seguir, a entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

IHU On-Line - O que provoca tanta admiração na poética de Rûmî?
Beatriz Machado -
Do ponto de vista literário, a obra de Rûmî é magistral, embora ele mesmo a critique, afirmando que seu conteúdo é mais importante que a poesia. De fato, foi o conteúdo de ordem mística que levou seus discípulos a chamar o Masnavi , sua obra mais conhecida, de o “Corão persa”. Ao mesmo tempo, o fato de Rûmî utilizar metáforas relativamente simples e uma linguagem, de certo modo, acessível (sobretudo se o compararmos ao seu contemporâneo Ibn 'Arabî, de igual estatura, cuja obra é extremamente complexa), faz com que ele possa ser lido por qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Pode-se dizer que há um encantamento devido à beleza das imagens (“Se meu Amado apenas me tocasse com seus lábios, também eu, como a flauta, romperia em melodias” – Masnavi) e à riqueza dos temas abordados. Também pode-se ficar perplexo com a naturalidade e a clareza com que ele trata de questões muito difíceis. Podemos tomar sua obra como um guia de ensinamento espiritual, em diversos níveis. Do ponto de vista da técnica pedagógica mística, trata-se de uma obra incomparável.

IHU On-Line - Qual é a incidência do Corão na obra de Rûmî?
Beatriz Machado -
A revelação corânica é a fonte de qualquer místico do Islã. Para nós, esta é uma perspectiva difícil de entender porque, geralmente, quando lemos um livro, temos idéias a partir dele e fazemos reflexões. No caso de um místico, a leitura provoca experiências interiores, geralmente num nível desconhecido para o não-místico. Diz-se que um verso do Corão pode “abrir-se” para um leitor fiel e revelar-lhe coisas que nunca foram reveladas a ninguém antes; trata-se de uma experiência singular. E, notem bem, é uma experiência singular e não subjetiva. Ela não se deve ao temperamento, à formação egóica ou a qualquer idiossincrasia do sujeito envolvido. Vejamos o que diz sobre isso o Emir Abd al-Qadir  que, como Rûmî, é um grande mestre do sufismo:

“Allâh, de fato, quando quer me comunicar uma ordem ou uma interdição, anunciar-me uma boa nova ou me por em guarda, ensinar-me uma ciência ou responder a uma questão que eu Lhe tenha colocado, tem por costume arrancar-me de mim mesmo – sem que minha forma exterior seja por isso afetada – e depois projetar sobre mim o que Ele deseja por meio de uma alusão sutil contida num verso do Corão. Em seguida, Ele me restitui a mim mesmo, munido deste verso, consolado e satisfeito. Ele me envia a seguir uma inspiração sobre o que Ele quis me dizer pelo verso em questão. A comunicação deste verso opera-se sem som nem letra e não pode ser atribuída a nenhuma direção do espaço” (Abd al-Qadir, séc. XIX).

IHU On-Line - Quais são algumas das influências mais importantes que marcaram o itinerário místico de Rûmî?
Beatriz Machado -
Os estudiosos contemporâneos tendem a valorizar bastante a idéia de uma influência historicamente transmitida. Podemos aceitar perfeitamente esta perspectiva. No entanto, segundo os próprios místicos, uma influência dessa natureza deveria ser considerada irrelevante se comparada com o modo direto de transmissão do conhecimento, por meio da Revelação, por meio da influência espiritual dos profetas (para um Rûmî, um Ibn 'Arabî, por exemplo, Moisés, Jesus, Muhammad ou qualquer outro profeta pode transmitir-lhes ciências por meio de um contato de ordem sutil) e por meio do ensinamento de um mestre (também a idéia de um mestre é de difícil compreensão para nós, não temos equivalente no mundo contemporâneo, é preciso muito trabalho para se saber realmente do que se trata). O famoso Shams de Tabriz, a quem Rûmî dedica muitos de seus poemas, era um mestre.

IHU On-Line - Como situar o lugar do despojamento na reflexão de Rûmî?
Beatriz Machado -
A Mística pode ser definida de incontáveis maneiras. Uma delas é que se trata de uma “ciência de lugares”, isto é, entrar em contato com um místico, por exemplo, por meio de sua obra ou diretamente, é experimentar lugares. Num lugar, o despojamento envolve o abandono de uma idéia ou de um estado; em outro, o abandono de um bem material ou de um prazer, e ainda em outro pode ser o abandono integral do ego. Em cada passagem do Masnavi, por exemplo, podemos conhecer internamente modos de despojamento. Experimentamos, inclusive, a necessidade do despojamento do despojamento: lugares em que podemos observar claramente como o abandono – naquele lugar – é, na verdade, uma ação puramente egóica, que não produz os efeitos esperados de um verdadeiro abandono, que são, para falar de modo simples, os de abrir espaço para novos aprendizados. O despojamento não seria, portanto, uma virtude, pelo menos não no sentido que estamos habituados a dar a essa palavra. Ele seria um instrumento, ou uma técnica, para levar ao conhecimento, finalidade mística por excelência.

IHU on-Line – Quais são algumas das mensagens mais importantes deixadas por Rûmî, e que permanecem atuais para o nosso tempo?
Beatriz Machado -
A obra de Rûmî contém elementos para reflexões de ordem política, ética, pedagógica e psicológica. No entanto, é necessário fazer um grande trabalho de tradução e de atualização. Rûmî pertence a uma época em que termos como “interioridade”, “alma”, “transcendência”, entre muitos outros, tinham um significado preciso. Com a Modernidade, os significados foram profundamente alterados, e passamos a entender muitas vezes o oposto do que está sendo dito. Portanto, não é mais uma questão de tradução de uma língua e sim de toda uma linguagem, de uma perspectiva que se tornou estranha para nós.

IHU On-Line - Rûmî destaca-se como um dos místicos que mais acentuou o traço da generosidade divina. Qual é a importância desta questão nestes tempos de fundamentalismo religioso?
Beatriz Machado -
As vias místicas do Islã, notadamente o Sufismo, são sem dúvida a maior fonte de combate ao fundamentalismo religioso naquilo que ele possui de autoritário e, muitas vezes, de insano. Isso porque são uma fonte interna, própria do Islã e, portanto, não possuem os interesses políticos, muitas vezes excusos, desse combate. A obra de Rûmî, não apenas sob o aspecto da generosidade divina – porque a tolerância, no Corão, não é uma questão de generosidade e sim de dever –, é toda ela uma viagem corânica, portanto, uma viagem pela Lei. O importante aqui é compreender que esta Lei simbólica tem como principal objetivo o conhecimento e não o constrangimento. Ela não visa nem à ordem nem ao progresso, no sentido que o positivismo deu a ambos. A Lei simbólica é uma pedagogia e não um manual para repetições mecânicas.

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