Edição 222 | 04 Junho 2007

Rûmî: um mestre do encontro

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IHU Online

“Rûmî significa a prática viva do diálogo inter-religioso. A sua poesia abre o coração. É um espelho onde se contempla a alma.” Assim o poeta persa que inspira a matéria de capa desta semana é descrito pelo casal Pilar Garrido e Pablo Beneito.

Prof. Pablo Beneito Arias, doutor em Arabística e Islamología pela Universidade Complutense de Madri, e professor da área de estudos árabes da Faculdade de Filologia da Universidade de Sevilha, é um importante estudioso do sufismo. E a Profª. Pilar Garrido, também professora na Universidade de Sevilha, é especialista em língua árabe e graduada em Filologia Arábica pela Universidade da Salamanca.

Eis a íntegra da entrevista que o casal concedeu por e-mail para a IHU On-Line:

IHU On-Line - Qual o significado e a atualidade de Rûmî para a mística contemporânea?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
Rûmî continua sendo um mestre vivo para os sufi atuais das mais diversas vias de iniciação em todo o mundo islâmico e para o Islã em geral. Seu inspirado discurso, dirigido diretamente ao coração, transcende formulações culturais particulares e se torna iluminador e eficaz em qualquer contexto espiritual. Cremos que se pode situar o começo de um significativo influxo moderno de autores como Rûmî ou Attar na cultura européia ocidental no Divã oriental de Goethe , que tão profundamente admirou a mística islâmica.    

IHU On-Line – Em que aspecto reside a atualidade da obra de Rûmi?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
Na atualidade, se tende com excessiva freqüência a explicar as situações de violência como resultado de diferenças religiosas e a confundir a ordem sociopolítica com a ordem propriamente espiritual. Os ensinamentos de Rûmî, através de seus versos e seus relatos, constitui um referencial de grande importância na hora de afirmar a universalidade da verdade e do amor. Rûmî é um porta-voz da escuta e do reconhecimento mútuos do Islã. 

IHU On-Line - Qual é a importância concedida por Rûmî ao diálogo inter-religioso?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
Rûmî, sendo um muçulmano comprometido com sua fé, significa a prática viva do diálogo inter-religioso. Pessoas de diversas confissões e tendências acudiam a suas reuniões. A experiência do amor está, por sua própria essência, aberta a todos. Precisamente porque ensina a perceber a essência da vivência do espírito mais além das determinações formais de cada via, Rûmî é um mestre do encontro.

“Contudo eu permaneço como um convidado no coração do crente, sem qualificação, definição, ou descrição.”

“O credo do amor é separado de todas as religiões: O credo e a denominação dos amantes é Deus.”

IHU On-Line - O que provoca tanta admiração na poesia de Rûmî?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
Seu impacto imediato, profundo e indelével no coração. Os que podem lê-lo em persa sentem, além disso, uma fascinação musical. Sua maestria na língua persa, com seus incessantes jogos de palavras, é uma dimensão somada, mas o assombroso da poesia de Rûmî é que, bem traduzida, preserva sua eficácia espiritual. A poesia de Rûmî abre o coração. É um espelho onde se contempla a alma.

“Feche a porta do discurso e abra a janela do coração! A lua beijá-lo-á somente através da janela.”
   
IHU On-Line - Como decifrar a paixão de Rûmî pela Unidade? E como ele articula esta paixão com sua abertura generosa à pluralidade do real?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
Amar a Deus significa amar tanto sua Unidade como a diversidade de suas manifestações. O conhecimento da Realidade implica estas duas dimensões do Uno-múltiplo. A paixão pela Unidade, comum a todos os místicos do Islã, apresenta-se como resultado da gnose e da experiência do êxtase: é paixão pela Realidade, que é o Amado e o Amante. 

“Todas as formas das imagens são reflexos na água do córrego; quando você esfrega seus olhos, certamente, todos são ele.”

IHU On-Line - Como dimensionar o lugar do amor na obra poética de Rûmî?
Pilar Garrido e Pablo Beneito
- O amor é a origem e o segredo da existência. Quem pode ver com o coração contempla o modo em que todos os seres almejam sua origem – a unidade do amor - e são expressões do divino amor que os gera e preserva.

“Minha religião deve viver com o amor”.

IHU On-Line - Como entender, na obra de Rûmî, o tema do coração e qual a centralidade desta questão para a reflexão mística do sufismo?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
O coração é o centro. Se o coração está desperto, harmoniza todas as funções humanas. Se está adormecido, não há verdadeiro conhecimento. É a chave do conhecimento que vincula todos os mundos e faculdades: desde o intelecto e o espírito à imaginação e à alma, ou o corpo e a percepção sensível. Sem coração, as dimensões do real estão divididas. O coração restaura a Unidade essencial, a continuidade do diferenciado.

“Vindo do coração, o lugar de Deus contemplado! Embora não seja assim agora, pode ser feito assim.”

IHU On-Line - Como sinalizar a centralidade da oração no conjunto da obra de Rûmî?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
A vida de Rûmî é uma vida de constante oração. Além da oração ritual, cada hábito, cada verso, cada ato humano, cada giro, cada palpite de amor orientado desde o Amado, é oração. A oração – salat, du’a, dhikr -, como comunicação com a Unidade a partir da diversidade, como vínculo com o Absoluto do mundo das relações particulares, é o domínio por excelência do sufismo. Rûmî nos convida a entender que a existência consciente em presença da Unidade é oração. Em sua interioridade, todos os seres constantemente oram.

“Apesar de tudo, você vê também Deus neste momento, em seus efeitos e atos. Cada instante você vê algo diferente, porque nenhum de seus atos assemelha-se a qualquer outro.”

IHU On-Line - Como situar o lugar do despojamento na reflexão de Rûmî?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
A consciência da Unidade acarreta em desapego que consiste em não identificar-se com nada que signifique um obstáculo para o amor, um distanciamento do ilimitado. Despojar-se de apegos e atributos é permanecer aberto e livre. Os ensinamentos de Rûmî convidam a despojar-se do véu da ilusão, da identificação limitadora com o eu relativo acidental: só assim pode o ser humano chegar a conhecer o significado e a essência de seu ser.

“Eu morri sob os pés de seu amor. Não, eu disse errado: ele é quem está vivo e através dele posso nunca morrer.”

IHU On-Line - Quais são as mensagens mais importantes deixadas por Rûmî, e que permanecem atuais para o nosso tempo?
Pilar Garrido e Pablo Beneito -
O sentido de nossa vida é realizar a experiência do supremo amor. Qualquer tendência que nos afaste da harmonia que conduz à realização da Unidade é dispersão. Quem se concentra na escuta do coração e chega a amar a existência pode contribuir para que outros participem da harmonia que essa experiência suscita. Assim, o diálogo se funda não na tolerância com respeito à moléstia que o outro possa significar, mas no profundo reconhecimento da providencial necessidade do outro enquanto divina expressão do Amor.

“O gosto do leite e do mel reflete o coração; a doçura de cada coisa doce deriva-se do coração. Assim, é o coração a substância e o acidente do mundo. Como deve a sombra do coração ser o seu objetivo?”

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