Edição 220 | 21 Mai 2007

Filme da semana: Hércules 56

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Ficha Técnica:
Nome: Hércules 56
Nome original: Hércules 56
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano produção: 2006
Gênero: Documentário
Duração: 82 min
Classificação: livre
Direção: Sílvio Da-Rin

Reavaliando os ideais de uma época radical
Filme joga luz nesse espaço de 40 anos entre o passado e hoje

Luiz Zanin Oricchio
O Estado de S. Paulo, 11-05-2007.

A imagem que está na origem do filme, uma espécie de célula original do projeto, é das mais famosas da época do regime militar - 13 dos 15 presos políticos liberados por exigência dos seqüestradores do embaixador americano no Brasil posam diante de um enorme avião da FAB, um Hércules 56, prestes a deixar o País. Por que faltam dois personagens? Porque a foto foi feita no Rio e esses dois remanescentes (Gregório Bezerra  e Mário Zanconatto) embarcaram em outros pontos do País, antes de o avião deixar o território nacional e levá-los ao exílio.

Foi o ato mais ousado e espetacular da resistência ao regime militar: o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, que envolveu dois grupos da esquerda armada (a Dissidência da Guanabara e a ALN). A idéia inicial era libertar alguns líderes estudantis, presos no Congresso da UNE, em Ibiúna, no ano anterior. Mas, com o embaixador capturado, decidiu-se pela ampliação da lista, incluindo-se militantes veteranos, como Onofre Pinto e Gregório Bezerra. O momento da ação também era estratégico - o Brasil de 1969 era governado por uma junta militar, pois o general Costa e Silva havia sido afastado por doença e os guerrilheiros entendiam que a ausência de um comando unificado enfraqueceria o poder central e facilitaria a negociação. Foi o que aconteceu.

Essa ação, que se desenvolve em duas frentes, é o assunto do documentário de Silvio Da-Rin, Hércules 56, nome do avião da FAB que levou os prisioneiros do Brasil para o México. Quais são as imagens mobilizadas por Da-Rin para remontar essa história? Bem, de um lado, ele reúne alguns dos remanescentes da ação para lembrarem de como as coisas se deram. Nesse ponto, parece interessante a idéia de entrevistá-los não um a um, como é usual, mas em grupo, reunidos em torno de uma mesa para que pudessem aparecer as divergências de relato e as diferenças de opinião. O filme ganha em pluralidade com essa escolha.

Na outra frente, ouvem-se os libertados, entre os quais despontam alguns nomes conhecidos: José Dirceu, Ricardo Zarattini, José Ibrahim. Entre os remanescentes do grupo de seqüestradores há também nomes famosos, em especial o jornalista Franklin Martins, atual ministro da Comunicação Social. O filme realiza um vaievém constante no tempo e no espaço. Encontramos depoimentos dos personagens na época e agora. Há imagens no Brasil e outras do México e Cuba.

Esse contraponto entre passado e presente é a linha fina que costura o filme. Porque quando se confrontam experiências e ainda mais experiências vividas em situação-limite, o balanço é inevitável. Os personagens falam do País na época da ditadura e o comparam com o Brasil da democracia; falam da decisão de ingressar na luta armada, da experiência do exílio. Relembram detalhes da ação, como a redação do manifesto a ser lido pelas TVs e publicado nos jornais como parte das exigências. Da tensão no 'aparelho' e do relacionamento com o embaixador capturado. Do mais do que tenso momento em que o embaixador deveria ser liberado, instante a partir do qual eles se tornariam caça. Do outro lado, o medo no interior do avião e o alívio da chegada ao México. A primeira garrafa de tequila bebida, 'depois de uma seca de muitos meses'. A ida a Cuba e a recepção de Fidel Castro. Elogios ao regime socialista da ilha, de um lado, e, de outro, a desconfiança de Vladimir Palmeira ao desembarcar do avião e ver um excesso de gente vestida de verde-oliva.

Os balanços de participação também parecem contraditórios (e como seriam unânimes?) Dirceu diz que a sua geração perdeu em toda a linha, foi completamente derrotada. Flávio Tavares defende a idéia de que o mais importante era lutar e que aquela geração deu o que tinha de melhor - a própria vida. Não é um balanço amargo. Nem triunfalista. Parece sereno.

Hércules 56 joga luz sobre esses quase 40 anos passados entre aquela época de paixão política e o anódino mundo de hoje. A história olha a si própria. O que foi feito do sonho, da violência, da esperança radical? É algo que também cabe à história responder.

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