Edição 220 | 21 Mai 2007

“A bússola do sujeito muda seu norte”

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IHU Online

Homo automaticus. Novos enlaces entre gozo e saber é o tema que inspirou a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky à IHU On-Line, adiantando aspectos do ninicurso que irá ministrar em 23-05-2007 no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Para Jerusalinsky, se até pouco tempo “o sujeito se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade”. Dito de outro modo, explica ele, “se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais”.

Jerusalinsky é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e da Association Lacaniènne Internationale. Nas Notícias Diárias do sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), www.unisinos.br/ihu, Jerusalinsky concedeu a entrevista Borat, Babel e A Rainha e suas relações, analisando esses três filmes, bem como Pequena Miss Sunshine. De sua vasta bibliografia, destacamos: La formación del psicoanalista (Editora Nueva Visión: Buenos Aires, 1989); Psicanálise e desenvolvimento Infantil (2ª ed. Artes e Ofícios: Porto Alegre, 1998); Para entender al Niño, Claves psicoanalíticas (Ediciones ABYA-YALA: Quito, 2003) e Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala (Editora Ágalma: Bahia, 2004).

IHU On-Line - Em entrevista concedida ao nosso site em 09-03-2007, o senhor fala que a queda de crenças como “a união faz a força, a liberdade de um acaba onde começa a do outro, a felicidade está no amor (que necessariamente passa pelo outro)” nos deixa desorientados. Como esse desencantamento se relaciona com a autonomia do sujeito na pós-modernidade?
Alfredo Jerusalinsky –
A bússola do sujeito muda seu norte. Se até pouco tempo ele se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade. Dito de outro modo, se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais. A demanda social passou para um segundo lugar. De tal modo – no que se refere à autonomia – que ele mesmo perfaz seu próprio nome sem que o nome recebido do Outro tenha maior valor.

IHU On-Line - Como o senhor define o homo automaticus? Quais são os pontos de aproximação e as diferenças com o homo sapiens?
Alfredo Jerusalinsky –
Se situarmos o homo sapiens como aquele primata que deu esse passo fundamental para o domínio da linguagem, recalcando suas pulsões a serviço de uma aliança fraterna ordenada por um saber simbólico sobre o gozo, teremos que nos perguntar quais serão os efeitos da perda de consistência desse gozo simbólico quando se coloca no trono um gozo real. Quando o gozo se situa na ordem simbólica, isso significa que não é necessário experimentar para saber: a linguagem nos assegura um saber que, na medida em que ele provém de uma memória da espécie armazenada nos signos lingüísticos (memória que costumamos designar como “cultura”), poupa a cada um de passar pela experiência. Até as crianças mais pequenas sabem disso: quando a mãe lhes oferece uma comida nova, elas podem responder que não gostam, apesar de nunca tê-la experimentado. A ordem simbólica ancorada na linguagem nos permite deduzir o lugar e o valor das coisas e dos outros sem nunca tê-los visto ou tocado. É assim que podemos saber que algo falta, sem termos registro de que é. Tais são as razões desse “homo” para merecer no nome de “sapiens”.

Quando se dá prevalência ao corpo como coisa a ser satisfeita – ou também como coisa a ser privada de satisfação –, são seus automatismos que passam a ocupar o centro da cena. Seja pela prevalência de um prazer absoluto, seja pelo martírio da privação, o corpo se torna protagonista e, então, seus automatismos passam a comandar a vida do sujeito. Este se torna escravo, paradoxalmente, dos artifícios que inventa (sejam científicos ou religiosos) para se desembaraçar da responsabilidade sobre seu destino. Na medida em que o saber já não está mais no sujeito, mas no artifício automático que ele mesmo criou (trate-se de suas descobertas neuroquímicas, da informática, dos artefatos eróticos ou dos sistemas dogmáticos de crenças ou cosmogonias), ele passa a merecer o nome de homo automaticus. A robótica aplicada como complemento corporal é um dos paradigmas desse conceito que acabo de propor, e, como é bem sabido, ela nos apresenta uma série interminável de problemas éticos. 

IHU On-Line - E quais seriam os possíveis enlaces entre gozo e saber nesse homo automaticus?
Alfredo Jerusalinsky –
Como acabo de afirmar, nesse homo automaticus, o que parece destinado a tomar o comando das coisas hoje em dia, o saber consiste numa repetição fechada que assegure um gozo real. Se é esse gozo que se procura, nada melhor, então, que reduzir tudo a uma engenhoca ou a um dogma, ambos garantindo uma repetição sempre igual e automática. Deve-se notar que, ultimamente, há importantes tentativas de reconciliação entre a religião e a ciência. Tentativas que se fundamentam nesse acordo estratégico de elevar os automatismos ao lugar de comando (embora os automatismos propostos não sejam da mesma natureza). Pelo seu lado, o fundamentalismo aposta seu saber na repetição automática das escrituras sacralizadas pelo homo sapiens. Ocorre que este último vivia com tantas dúvidas que precisou colocar em algum lugar a esperança de alguma verdade indiscutível. Se a religião, pelo seu lado, o fez nas sagradas escrituras, Descartes  a situou no pensamento: “cogito ergo sum”, o que, paradoxalmente, cancelou sua “dúvida sistemática”.

Na medida em que o paradigma cartesiano colocou como núcleo do pensamento moderno o suposto de que todo saber é transformável em conhecimento (o que quer dizer, dotado de parâmetros que permitem materializá-lo calculá-lo), os saberes se transformaram em pequenas certezas. Habitamos num mar delas, tão pequenas que não alcançam para nos dar certeza de nada. Por isso, passamos a gozar de uma ilusão vasta e generalizada de saber o que, em verdade, ignoramos.

IHU On-Line - Se progresso é um sinônimo para felicidade, podemos dizer que o saber virou sinônimo de gozo? Por quê?
Alfredo Jerusalinsky –
Um momento! Eu não disse que progresso seja realmente um sinônimo para a felicidade. Eu referi que essa é uma crença própria da modernidade. Mutatis mutandis, hoje tal crença se deslocou para a suposição de que o gozo seja sinônimo de felicidade. É difícil saber por que aconteceu tal coisa. Podemos formular algumas hipóteses: a ciência evoluiu de tal modo na modernidade que facilitou a crença de que os aproveitamentos tecnológicos de suas descobertas poderiam assegurar aos humanos que nada lhes faltaria. Outra hipótese na mesma trilha: a confiança cega na razão como fonte exclusiva de verdade levou a um reducionismo logicista (em termos euclidianos ) do pensamento, o que teve como conseqüência uma ilusão de domínio total do mundo em que vivemos. Talvez se trate simplesmente de um retorno do corpo mesmo ao centro da cena, depois de ter sofrido séculos de recalque e repressão.

IHU On-Line - Quais são as principais conseqüências da hiperacionalização realizada em diversas instâncias da vida pós-moderna e de que modo o gozo e o saber estão imbricados nesse otimismo teórico ilimitado tão característico de nossos dias?
Alfredo Jerusalinsky –
Que a razão conduz à felicidade é uma ilusão que rapidamente se desmancha. Basta perguntar a um casal, quando estoura uma briga entre os parceiros, se lhes serve, a cada um deles, ter razão. Certamente não é por essa via que vão se reconciliar. O mesmo acontece nas mais amplas relações sociais. Quando a razão destrói os mitos em que se alicerça a consistência simbólica de uma determinada cultura, aparece aí um tipo de verdade que, por lançar ao centro da cena o real recalcado, provoca efeitos arrasadores nesse conjunto social. Rapidamente, então, se fabricam novos messianismos, para substituir, na sua função de recalque, os horrores revelados na queda das antigas crenças destituídas pelo hiper-racionalismo.

IHU On-Line - Como e por que a ilusão de autonomia absoluta inclina as pessoas a uma ética individualista? Corremos o risco de nos tornarmos uma sociedade de indivíduos e pensar a autonomia apenas como um sinônimo de individualismo?
Alfredo Jerusalinsky –
Sua pergunta é interessante porque ela mesma afirma a existência desse risco. Estou de acordo. Porém, cabe assinalar pelo menos duas questões. A primeira é sobre o conceito de ética. Se colocamos a ética como “o sujeito se fazer responsável das conseqüências que seu ato tem para o outro” (citando Jacques Lacan) - definição que eu faço minha –, como poderíamos falar em ética tratando-se do individualismo? Devemos atentar aqui ao fato que o termo “individualismo” é portador de um “ismo”, o que quer dizer que cada vez que houver um conflito entre o indivíduo e o conjunto social haverá tomada de partido pelo indivíduo. Tratar-se-ia, então, de uma sociedade em permanente erosão. Eis aqui a segunda questão: colocando em jogo o princípio de o sujeito se responsabilizar pelas conseqüências do ato sobre o outro, não estaríamos garantindo o respeito do indivíduo, sem necessidade de tomar partido? Devemos reconhecer, contudo, que as paixões humanas não são tão ponderadas.

IHU On-Line - Que patologias psicológicas podem surgir dessa postura egóica assumida pelas pessoas atualmente?
Alfredo Jerusalinsky –
Novamente, você assinala um ponto importante, a saber, a dilatação do ego. Essa, precisamente, é uma das características da paranóia : tudo o que acontece em volta o sujeito imagina que está dedicado a ele. Seja como beneficiário ou prejudicado, o sujeito contemporâneo se coloca como credor de um gozo inusitado, e, ao mesmo tempo, como ameaçado pelo gozo do outro. Assim é que coloca grades pontudas ao redor de sua moradia, situa seu corpo como inimigo que deve ser controlado por medicações que eliminem suas ameaças e anseia entrar em corporações que o protejam. Esse fundo paranóide, com que o sujeito hoje em dia se sociabiliza, costuma tomar diversas formas: a hipocondria generalizada (alguém que saiba me defender das ameaças vindas do corpo), formas obsessivas (a delimitação minuciosa dos espaços), defesas histéricas (como as da ciência: “nada tenho a ver com o desejo”), a bulimia (devorar o mundo inteiro para me constituir numa totalidade na qual não falta nada), a toxicomania (como resistência a depender do outro), a anorexia (ser nada para impedir o registro de que algo falta), e uma intensa fobia do semelhante (sob formas de racismo, xenofobia, guerras santas etc.)

IHU On-Line - Nessa mesma entrevista ao nosso site, o senhor afirma que a população do planeta todo se sente hoje politicamente mal representada. Como entender essa má representação frente à autonomia do sujeito em escolher seus representantes? Por outro lado, como podemos compreender a apatia política presente em boa parte dos eleitores no mundo afora?
Alfredo Jerusalinsky –
Quando se fala em representação de um sujeito por outro, em seguida tropeçamos num problema grave: sempre haverá uma distância entre o desejo do representado e a interpretação que, desse desejo, fará o representante. Esse mal-entendido inevitável, porém, fica amortecido quando o representante, pelo fato de reconhecê-lo, consulta incessantemente o representado. A maior dificuldade surge quando o representante, uma vez eleito, acredita encarnar, ele mesmo, o desejo de seu representado, o que quer disser que ele confunde seu desejo e sua própria satisfação com a de seu representado. Passa então a gozar da legitimação de qualquer forma de sua satisfação pessoal (chamada vulgarmente de corrupção ou abuso de poder), acreditando que, com isso, seu representado ficará feliz ou, ao menos, indiferente. Essa é a filosofia dos reis: eles acreditam que seu luxo e magnificência, que sua festa, constitui a felicidade de seu representado. Isso se chama “gozo do outro”. Simplesmente nos sentimos mal representados porque estão gozando de nós. Ocorre que os representantes, de um modo geral, levam demasiado a sério a sua própria autonomia: se tornam autônomos de qualquer versão do Outro social.

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