Edição 218 | 07 Mai 2007

Discussão das obras do século XX-XXI: Maria Regina Celestino de Almeida e Cristina Pompa

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IHU Online

Para a historiadora Maria Cristina Bohn Martins, docente na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, as obras de Maria Regina Celestino de Almeida e Cristina Pompa “podem ser hoje consideradas fundamentais para o campo da historiografia do Brasil Colonial. Elas efetivamente rompem com um paradigma que sempre pensou nossa história eurocentricamente ao trazerem a questão da história indígena para a arena de debate”. Essas idéias serão aprofundadas nesta terça-feira, 08-05-2007 na palestra Discussão das obras do século XX-XXI: Maria Regina Celestino de Almeida e Cristina Pompa, que Bohn Martins irá conduzir dentro das atividades do evento Interpretações do Brasil: dos clássicos às novas abordagens. A atividade acontece na Sala 1G119, das 19h30min às 22h15min.



Bohn Martins é graduada e mestre em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Cursou doutorado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com a tese A festa guarani nas reduções: perdas, permanências e recriação. Com Eliane Cristina Deckmann Fleck organizou a obra Dossiê América Latina Colonial (São Leopoldo: Unisinos, 2004). De sua autoria, destacamos Sobre festas e celebrações: as reduções do Paraguai (séculos XVII e XVIII) (Passo Fundo: Editora da UPF; ANPUH - RS, 2006).

Entrevista com Maria Cristina Bohn Martins
Compreensões diferentes, conclusões surpreendentes

IHU On-Line - Como as obras de Maria Regina Celestino  de Almeida e Cristina Pompa  podem nos ajudar a compreender a história brasileira?
Maria Cristina Bohn Martins -
As obras sobre as quais vamos refletir,  nesta atividade do Ciclo de Estudos Intérpretes do Brasil: dos clássicos às novas abordagens, podem ser hoje consideradas fundamentais para o campo da historiografia do Brasil Colonial. Elas efetivamente rompem com um paradigma que sempre pensou nossa história eurocentricamente, ao trazerem a questão da história indígena para a arena de debate. Desta forma, se os temas das autoras (a “catequese indígena” e as “aldeias coloniais”) não são exatamente novos (poderíamos até dizer que são temas clássicos da história do Brasil), o tratamento teórico que elas emprestam a eles permite que se chegue a compreensões muito diferentes das tradicionais e a conclusões quase surpreendentes.

IHU On-Line - Quais são as inovações e pontos fortes que esses escritos trazem à historiografia nacional?
Maria Cristina Bohn Martins -
Com as obras em questão, as duas historiadoras trazem uma contribuição decisiva - ao lado daquelas de John Monteiro , Ronaldo Vainfas  e Raminelli   , por exemplo, - para um campo de estudos que conhece um forte processo de amadurecimento e profissionalização nas últimas duas décadas. Estes autores e seus estudos sinalizam para a necessidade de reconhecer-se que as sociedades indígenas e suas dinâmicas sociais e culturais representaram um fator crucial na formação da América colonial portuguesa e, por extensão, na formação da própria sociedade brasileira.
Se as conclusões propostas pelo trabalho das autoras são inovadoras, isto ocorre porque o desenvolvimento das pesquisas que as sustentam, as fontes de que se valem (principalmente no caso de Pompa), os questionamentos que dirigem a estas fontes, a mediação constante estabelecida entre os campos de conhecimento da história e da antropologia, também o são.

IHU On-Line - Seus escritos propõem algum rompimento na historiografia feita até o momento?
Maria Cristina Bohn Martins -
Sem dúvida, estudos desta natureza se apresentam como alternativos a um paradigma que apresenta uma perspectiva de análise totalizante (“macro histórica”) no tratamento e na construção dos objetos de investigação e que é, de um modo ou de outro, herdeiro da tradição iluminista. Desde a década de 1970, pelo menos, vimos a difusão daquilo que Ciro F. Cardoso chamou de “paradigma rival”  e  que marca pela   pulverização dos objetos de análise  e das leituras do social. Acentua-se, então, um olhar microscópico e a atenção para o estudo dos “grupos subalternos”. Ao lado do referido “jogo de escalas”, tem-se também atentado para a consideração de  outras polaridades, que não apenas as de classe,  como objetos importantes de estudo, o que nos leva a pensar, também,  em dimensões mais antropológicas das relações sociais.

Além de inovarem ao dar visibilidade para as sociedades indígenas, pouco ou nada consideradas até muito recentemente (vale lembra que outros setores destes “grupos subalternos”, como negros, mulheres, ou o povo miúdo em geral, já vêm sendo objeto de atenção da historiografia brasileira há mais tempo), as pesquisas desenvolvidas pelas autoras confirmam a necessidade de abandonar-se a antiga compreensão de que as sociedades indígenas são a-históricas. O maior mérito de seus trabalhos é justamente o de evidenciarem fartamente o quanto os grupos indígenas participaram da construção da história do Brasil colonial, interagindo com os europeus e buscando ganhos e vantagens na situação (francamente desfavorável a eles) que se estabeleceu a partir de 1500.

De forma alguma isto significa desconsiderar os imensos prejuízos que a situação colonial  determinou para as populações indígenas do Brasil (e da América). O que se tem afirmado é que o reconhecimento destes danos não pode implicar em outro dano (que não é sob nenhuma hipótese colateral), que se faz presente na negação a estes povos  da condição de agentes de sua história. Esta é uma tendência que marca os estudos de história indígena na América Latina e nos Estados Unidos, onde não apenas acompanhamos o desenvolvimento da reflexão etno-histórica como o impacto do tema na própria história social.

IHU On-Line - Quanto às metamorfoses indígenas, título que inspira a obra de Maria Regina, quais são as principais mudanças que esse povo passou em nosso País?
Maria Cristina Bohn Martins -
Regina Celestino estuda a participação dos índios na construção dos povoados em que foram aldeados na época colonial, observando as formas pelas quais eles negociaram com autoridades civis e eclesiásticas, interagiram com elas, buscando ganhos em uma situação que lhes era tremendamente. Neste processo, transformaram-se, mesmo que fosse para permanecerem sendo índios. Não lhes coube unicamente, e a autora demonstra-o sobejamente, a renúncia passiva ao domínio europeu, ou a tomada em armas para a resistência heróica e de final infeliz....

IHU On-Line - O que Cristina Pompa quer dizer com Religião como tradução? Qual é a relação entre missionários, tupi e tapuia no Brasil colonial?
Maria Cristina Bohn Martins -
Pompa toma um tema caro em alto grau à historiografia sobre a Época Moderna - que é o da catequese e evangelização do Novo Mundo - para propor a ele uma leitura muito atual. Isto é, a autora estuda o complexo processo de adaptações na teoria e na prática missionária engendrado pela própria dinâmica que o move. Seu esforço é o de evidenciar como a ação missionária se alimenta e transforma a partir de experiências americanas, a partir da compreensão (tradução) que fazem os missionários da realidade americana. Assim também os índios traduziam para categorias próprias aquilo que lhes chegava através do contato com o Ocidente. Exemplo bem conhecido disto é a importância que conferiam às práticas curativas aplicadas pelos jesuítas, tal como haviam sido os xamãs os responsáveis por elas no contexto anterior .
Se a noção de que os religiosos “traduziram” conceitos e práticas à realidade americana, a fim de viabilizar a catequese, não é exatamente uma criação da autora, ela desenvolve ainda o argumento de que, no século XVII, junto aos grupos tapuias do sertão, podemos encontrar uma certa “tupinização” destes conceitos e práticas, e isto é absolutamente inovador. Ou seja, a experiência do século XVI alimenta e transforma (traduz) a ação missionária do litoral para o sertão. Assim como liam o mundo tapuia a estes últimos, informa aquela que se pensa para os primeiros. Nesse jogo muito complexo de apropriações e traduções, ela ainda sugere que se considerem as relações que se estabelecem, também, entre jesuítas e outras ordens, como a dos capuchinhos. Relações estas que são de complementaridade de ações, influências recíprocas, mas também de conflito e dissensões. É assim que  o panorama que se vislumbra, acompanhando a extensa pesquisa de fontes da autora, é muito mais rico, multifacetado e polifônico do que se podia perceber enquanto desenhávamos um quadro em preto e branco, dominado pela polarização “índios x jesuítas”.

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