Edição 217 | 30 Abril 2007

Um debate sobre comércio ético e pequenos agricultores

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IHU Online

No próximo dia 3 de maio, durante o evento IHU Idéias o tema em debate será O Comércio Ético e a Sustentabilidade de Pequenos Produtores. Quem conduz é a Profa. Dra. Luciana Marques Vieira, professora no PPG em Administração da Unisinos, com o apoio da mestre em Administração Tatiana Maia, que falarão aos presentes na sala 1G119 do IHU, das 17h30min às 19h.

Tatiana acaba de defender sua dissertação de mestrado no PPG em Administração da Unisinos, avaliando a aplicabilidade do sistema Fair Trade (FT) em pequenos apicultores do Rio Grande do Sul. No evento de quinta-feira, a professora Luciana, que tem experiência na área de comércio exterior, falará sobre o comércio internacional e as certificações relacionadas ao comércio ético, enquanto Tatiana Maia apresentará os resultados da pesquisa realizada por ela com pequenos apicultores do estado gaúcho, identificando principais barreiras e oportunidades neste sistema.

IHU On-Line realizou uma breve entrevista com a professora Luciana e com Tatiana Maia sobre o tema em questão. Elas adiantam aos leitores e leitoras da revista IHU On-Line a forma como conduzirão o debate na próxima quinta-feira. 

IHU On-Line - No que consiste o conceito de "comércio ético" e como ele se relaciona com o "consumo solidário"? O que caracteriza a produção e o consumo ético?
Luciana Vieira e Tatiana Maia -
Comércio ético pode ser definido como parceria comercial baseada na proximidade, transparência e respeito a consumidores, com pretensão de reduzir as desigualdades no comércio internacional. O sistema Fair Trade (comércio ético) originou-se na década de 1960, quando ONGs, agências de cooperação, instituições filantrópicas e grupos de consumidores, europeus e norte-americanos, iniciaram a venda, em seus mercados, de produtos feitos por pequenos produtores, vitimados pela pobreza ou pelo isolamento comercial imposto aos regimes políticos em que viviam.

A partir dos anos 1970, alguns desses grupos iniciaram discussões sobre a possibilidade de unirem forças sobre formas alternativas de comércio que visassem a compensar os pequenos produtores, principalmente dos países pobres, do que percebiam ser “condições comerciais injustas” enfrentadas por estes. Assim, teve início um processo de unificação de conceitos (o que seria um comércio justo?), harmonização de princípios (igualdade de gênero, respeito à cultura local) e práticas (pagamento de preços mínimos, contratos de longo prazo), e a criação de instrumentos de cooperação entre as organizações de comércio alternativo, que de certa forma continua até hoje.

IHU On-Line - E como o pequeno produtor se engaja nesse “comércio alternativo”?
Luciana Vieira e Tatiana Maia -
As organizações envolvidas identificaram algumas circunstâncias enfrentadas pelos pequenos produtores nos países pobres que foram classificadas de injustas. Entre elas:

- A vulnerabilidade de pequenos produtores a flutuações dos mercados internacionais de commodities. Sem acesso a serviços de seguro e crédito e sem reservas de capital, os efeitos das flutuações de mercado sobre pequenos produtores podem ser devastadores;

- A apropriação de boa parte do valor adicionado ao longo da cadeia produtiva por intermediários desnecessários ou sobre-valorizados;

- A falta de oportunidades econômicas por dificuldades de acesso a capital, mercados compradores e informação, sendo que o acesso é facilitado a produtores maiores.
Essas condições inspiraram o funcionamento de acordos comerciais hoje conhecidos como Fair Trade (Comércio Justo)

IHU On-Line - E o que esses acordos comerciais (Fair Trade) buscam? Qual o objetivo?
Luciana Vieira e Tatiana Maia -
Eles buscam, por exemplo: estabelecer preços mínimos e demandas de longo prazo, como forma de reduzir a exposição de pequenos produtores às flutuações de mercado; pagar preços acima dos de mercado (preços “justos”) e aproximar consumidores de produtores, como forma de excluir os intermediários desnecessários na cadeia produtiva; disponibilizar pré-financiamento da produção, informação e acesso a mercados como forma de gerar oportunidades de negócios para pequenos produtores; apoiar os trabalhadores para que tenham melhores condições de trabalho e proteção ao meio-ambiente; fomentar a igualdade de gênero, raça, crença e a proteção das crianças; promover o desenvolvimento local sustentável, através do pagamento de um prêmio (Premium Price), que deve ser investido na melhoria das condições de vida dos produtores e trabalhadores e de suas comunidades.

Na década de 1970, a cooperação entre as organizações de comércio denominadas “alternativas” era informal e baseada em encontros esporádicos. Na segunda metade da década de 1980 apareceram as primeiras iniciativas formais de colaboração. Atualmente o Fair Trade conta com um grande número de organizações espalhadas ao redor do mundo e os produtos são também comercializados em redes de grande varejo da Europa.

IHU On-Line - Quem é o consumidor ético? Temos na sociedade hoje uma cultura do consumo ético?
Luciana Vieira e Tatiana Maia - O consumidor ético são principalmente os consumidores de alta renda da Holanda, Inglaterra e Suíça, altamente seletivos no momento de realizar suas compras. Entre outros fatores, este consumidor interessa-se por conhecer atributos do produto, do método de produção e garantias específicas (certificações) daquilo que é ofertado. Sob tais condições, o consumidor ético está disposto a pagar um preço prêmio (mais alto).

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