Edição 217 | 30 Abril 2007

Perfil Popular - Marta da Silva

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Vida difícil desde a infância é a realidade da vendedora Marta da Silva. Hoje, tem uma família e seu próprio negócio, mas com muitas dificuldades enfrentadas pelo caminho. Marta perdeu os pais muito jovem e se mudou para São Leopoldo. Na cidade, aprendeu a contornar as pedras no caminho sem a ajuda de ninguém. Depois de trabalhar em fábricas de calçados, foi no setor de vendas que achou a sua vocação.  Ela trabalha como ambulante na estação de trensurb Unisinos, em São Leopoldo ainda tem grandes projetos. “Tenho o sonho de ter a minha própria loja.” Conheça um pouco mais de Marta da Silva na entrevista a seguir.

Começo – Natural de Tenente Portela, município a 453 quilômetros de Porto Alegre, Marta da Silva, 31 anos, aprendeu muito cedo como cuidar de si mesma. De uma família de oito irmãos, perdeu os pais aos sete anos. “Meu pai morreu de infarto e minha mãe de câncer, com seis meses de diferença. Eu aprendi muito com isso, amadureci.” Cada irmão de Marta foi para um lado. Ela foi morar com a tia e o irmão de apenas um ano foi dado a uma família.

Decisão - Mesmo jovem, aos 10 anos Marta tomou uma decisão grande: mudou-se sozinha para São Leopoldo. “Vim para cá porque achava muito ruim morar lá no interior. Era muito sofrido. Eu e minha irmã brigávamos muito. Não dava certo. Eu ganhei uma passagem e vim.” Marta lembrou de um primo que morava na cidade e foi morar com ele. Na época, ele era casado e tinha filhos. A criança Marta passou a trabalhar como babá dos filhos do casal enquanto o primo e a esposa trabalhavam. Aos 12 anos, Marta começou a trabalhar como atendente em uma lanchonete no centro da cidade, servindo os lanches. “Eu adorava esse trabalho. Conheci muita gente. Foi ali que eu aprendi a trabalhar com o público.”

Mudança - Marta estava cansada de morar com o primo. “O salário que eu ganhava ia tudo para eles. Não me sobrava nada nunca.” O primo também causou outro problema, este mais grave, na vida da jovem. “Ele era muito ‘passado’ comigo. Ele mentia para a esposa que estava doente e vinha para casa. Quando eu contei para ela e ela não acreditou, então eu saí de casa.” Marta ficou sem rumo, dormindo na casa de amigas, até que o namorado a convidou para morarem juntos. “Eu não tinha ninguém até ir morar com ele.” Depois de dois anos casada, ela descobriu que o primo havia sido preso.

Dificuldades - Aos 16 anos, Marta teve seu primeiro filho, hoje com 15 anos. Marta cuidava da criança enquanto o marido trabalhava em um fábrica de calçados. Com 17, ela passou a trabalhar junto com o marido na indústria. Lá, o casal trabalhou durante seis anos e teve seu segundo filho. Logo após a crise do setor os atingiu e a fábrica fechou. “Logo após fiquei grávida do meu terceiro filho, que só tem 1 ano e três meses. Nessa época eu trabalhava em outra fábrica de calçados que também fechou. Fiquei um tempo parada até conseguir emprego em outra fábrica de calçados.”

Negócio - “Eu sempre sonhei, desde criança, em ter o meu negócio próprio, para não depender de outras pessoas.” Marta tinha um amigo que possuía uma banca de vendas na estação Unisinos. “Ele me falou que era o único que vendia aqui. Na época, pensei que o trabalho não iria dar certo, mas acabei me convencendo.” Junto com uma amiga, ela abriu o negócio, mas logo a sócia desistiu. “Eu pensei que não podia desistir. Se Deus me colocou aqui eu devo ficar.” Isso foi há três anos. Marta mostra paixão pelo trabalho de vendas. “Eu adoro trabalhar aqui. É um trabalho legal, conheci muitas pessoas legais. Até sou reconhecida em outros lugares. Ouço sempre: ‘Tu não é a moça lá da banca que eu comprei um brinco?’”

Família - A família de Marta é o bem mais importante que tem na vida. Ela valoriza muito a convivência com os filhos, pois não pôde conviver com os pais e irmãs quando pequena.

Perda - Em julho, fará um ano que Marta perdeu um grande amigo, seu irmão, o caçula da família. “Ele morou comigo 18 anos. Éramos muito grudados. Sabíamos tudo da vida um do outro.” O irmão havia retornado para a cidade natal, Tenente Portela, para visitar outra irmã, mas teve um final trágico. “Devido a algumas pessoas com que ele se envolveu, acabou sendo assassinado. Eu pedi para ele não ir.” Marta conforma-se com o que aconteceu em razão dos filhos. “Eu amo muito e são tudo na minha vida. Minha vida não foi muito fácil até chegar aqui, mas posso dizer que hoje eu tenho tudo.”

Sonho - Marta é uma pessoa realizada. Ter sua filha, por exemplo, é um sonho realizado.  Mas ela ainda tem um desejo maior. “Outro sonho que tenho é ter a minha loja.”

Brasil - A vendedora não tem grande fé no futuro do país. “Eu não acredito muito que possa melhorar, mas vamos ver o que acontece.”

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