Edição 217 | 30 Abril 2007

Liberdade, necessitarismo e ética em Hegel

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IHU Online

De acordo com o Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos, a questão de fundo que divide os intérpretes de Hegel é se a sua filosofia é necessitária ou expõe a liberdade. “Sobre isso, ainda vai se dar muita discussão. Alinho-me com a leitura do Padre Vaz, entendendo Hegel como representante problemático do pensamento da liberdade”. Sobre a resposta hegeliana aos projetos éticos de Descartes, Hobbes e Kant, pontua: “Descartes e Hobbes inauguram, respectivamente, os projetos racionalista e empirista da ética moderna. O primeiro, sob a égide do cogito, e o segundo sob a égide do corpo. Kant inaugura em senso estrito uma nova família de pensamento ético: o dever-ser. Aristóteles (ética da felicidade) e Kant (ética do dever) são alguns dos interlocutores maiores de Hegel que, por sua vez, subverte tanto o primeiro quanto o segundo”.

Aquino é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Aloisianum, em Milão, e em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (PUG), ambas na Itália. É especialista em Filosofia pela Hochschule Für Philosophie, em Munique, mestre e doutor em Filosofia pela PUG e mestre em Teologia pela mesma instituição. Cursou pós-doutorado no Boston College, nos EUA. É autor de O conceito de religião em Hegel (São Paulo: Loyola, 1989), originado de sua tese em Filosofia. Além da função de reitor, assumida em 02-01-2006, Aquino segue lecionando no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos. O reitor concedeu diversas entrevistas à IHU On-Line: nas edições 19º, de 27-05-2002, sobre a morte de Padre Vaz, e na edição 75, de 15-09-2003, a respeito do lançamento pela Editora Unisinos do Dicionário de Ética e Filosofia Moral, de autoria de Monique Canto-Sperber. Na edição 170, de 6-03-2006, Aquino falou sobre sua nova função como reitor da Universidade. Na edição 185, de 26-06-2006, falou sobre Vaz: intérprete de uma civilização arreligiosa. A entrevista que segue foi concedida por e-mail. Confira.

IHU On-Line - Em que aspectos Hegel abandona, supera e conserva o pensamento kantiano? É exato dizer que a dialética hegeliana é uma tentativa de superação do dualismo kantiano “númeno-fenômeno”?
Marcelo Aquino –
Para situar a questão, reporto-me à tese recentemente defendida por Robert Hanna  em seu livro Kant e os fundamentos da Filosofia analítica (São Leopoldo: Unisinos, 2005), segundo a qual Kant é um dos fundadores da Filosofia analítica contemporânea. Vejo com mais clareza, hoje, que a contraposição entre Kant e Hegel é a mesma, fundamentalmente, que há entre Filosofia analítica e Dialética: o Todo e sua categorização como o Absoluto. Realmente, é preciso partir da crítica hegeliana ao dualismo kantiano entre “númeno” e “fenômeno”. Num sentido bem específico, pode-se falar de um monismo hegeliano, cuja articulação teórica acontece de maneira acabada na exposição da idéia absoluta na Ciência da lógica, e sua expansão (mais precisamente Erweiterung) na Filosofia da natureza e na Filosofia do espírito, que se dá na exposição da Enciclopédia de 1830. A questão do Todo categorizado como o Absoluto alcança notável espessura filosófica na crítica à concepção kantiana de moralidade que Hegel desenvolve na esfera da Eticidade na Filosofia do Espírito objetivo da Enciclopédia. Em outras palavras, o dualismo no âmbito da razão especulativa dá origem ao dualismo entre razão teórica e razão prática, e dele decorre, ainda, a nítida separação entre o ético e o jurídico, a virtude e o direito, o moral e o legal, que caracteriza o pensamento ético de Kant. A supressão de todo dualismo, ou cisão, na ordem do ser, sobretudo do dualismo inconciliável que, segundo Kant, divide a razão pura entre o uso teórico e o uso prático e, portanto, cinde igualmente a ação humana (a história e a cultura) entre o ser e o dever-ser, a natureza e a liberdade, era uma primeira e fundamental conseqüência da posição que afirma como princípio a identidade ainda abstrata entre ser e manifestação. A abolição da incognoscibilidade da coisa-em-si era uma condição necessária para o cumprimento do roteiro hegeliano.

IHU On-Line - A partir dessa dialética, como se situa a questão do determinismo e da liberdade no sistema hegeliano?
Marcelo Aquino -
Esta é a questão de fundo que divide os intérpretes de Hegel: sua filosofia é necessitária ou expõe a liberdade? Aqui no Brasil, por exemplo, o Professor Cirne Lima, um dos intérpretes mais respeitados de Hegel, retoma e reelabora a crítica de Schelling ao sistema hegeliano. Pessoalmente, alinho-me com a posição do Padre Vaz, lendo Hegel como representante problemático do pensamento da liberdade. Tudo depende, em grande parte, da interpretação que se dê ao engendramento da determinidade Efetividade (Wirklichkeit) na Lógica da essência. Ora, a Efetividade, cujos momentos lógicos são ‘o absoluto’, ‘a efetividade’ e ‘a relação absoluta’, inscreve-se no horizonte metafísico que resultou da fusão do conceito aristotélico de enérgeia, do conceito latino-medieval de actus purus e do conceito espinosiano de causa sui. Ela desenha, grosso modo, a proporção direta entre interioridade e exterioridade, que encontrará o seu acabamento na última determinação lógica da exposição genética do conceito, a ‘ação recíproca’. O agir efetivo é o traço semântico dominante no conceito hegeliano de efetividade: “o que é efetivo, pode agir” (was wirklich ist, kann wirken).

IHU On-Line - Hegel acentuou que o indivíduo só é livre quando se conhece como livre, e só atinge este conhecimento quando põe à prova a sua liberdade. Como o homem contemporâneo pode apropriar-se dessa premissa para repensar seu papel na sociedade, sobretudo no que diz respeito à sua autonomia?
Marcelo Aquino -
A Lógica objetiva, próxima de cumprir a exposição genética do conceito, nos põe frente a esta afirmação de Hegel: “a coisa originária é esta, enquanto ela é somente a causa dela mesma, e esta é a substância liberada em conceito” (die ursprüngliche Sache ist dies, indem sie nur die Ursache ihrer selbst ist, und dies ist die zum Begriffe befreite Substanz WLII219[Lasson]). O fecho final da exposição genética do conceito é este: “este é o conceito, o reino da subjetividade ou da liberdade”. Perante a disseminação do conhecimento digitalizado, e sua aplicação tecnológica nas áreas da informação, da biologia, por exemplo, seria importante repensar a esfera da Eticidade levando em consideração a rememoração especulativa do ser feita por Hegel, como antídoto preventivo a qualquer tentativa de instaurar o reino da autonomia a partir de pressupostos dualistas.

IHU On-Line - Em linhas gerais, qual é a resposta de Hegel aos projetos éticos de Descartes, Hobbes e Kant? Como ele dialoga com as idéias desses filósofos?
Marcelo Aquino –
Descartes e Hobbes inauguraram, respectivamente, os projetos racionalista e empirista da ética moderna. O primeiro, sob a égide do cogito, e o segundo sob a égide do corpo. A doutrina hegeliana do reconhecimento, com sua famosa dialética senhor e escravo, torna-se ininteligível caso se desconheça seu fundo hobbesiano. Kant, por sua vez, inaugurou, em senso estrito, nova família de pensamento ético: a ética do dever-ser. Aristóteles (ética da felicidade) e Kant (ética do dever) são alguns dos interlocutores maiores de Hegel. Seria interessante aprofundar a doutrina hegeliana da Handlung (ação) e chegar ao palimpsesto da doutrina aristotélica da práxis, mas já no contexto da Metafísica da subjetividade. Igualmente, estudar a doutrina hegeliana da virtude, cotejando-a com suas homônimas aristotélica e kantiana. O diálogo de Hegel com seus grandes predecessores é subversivo. Ele se apropria do pensamento de determinado autor, ao mesmo tempo que o subverte, ou seja, o remodela completamente.

IHU On-Line - Em que aspectos o “Absoluto real pensado segundo as formas de sua manifestação na história cumpriria a abolição da incognoscibilidade da ‘coisa em si’, e se constituiria como princípio unificador e fundamental do sistema das razões da liberdade”, conforme consta em seu artigo Sistema e liberdade. A fundamentação metafísica da ética em Hegel (II)”?
Marcelo Aquino –
A superação hegeliana da teoria da ‘coisa-em-si’ acontece no segundo capítulo (o fenômeno) da segunda secção (o fenômeno) da Lógica da essência. A ‘coisa existente’ e a ‘coisa-em-si’ já estão, em certo sentido, sob a regência do fenômeno. O fenômeno é, pois, a primeira verdade da existência. Ele corresponde ao parecer da essência nela mesma e a ela mesma, que é inerente às determinações reflexivas. Mas a sua gênese acontece a partir de uma imediatidade que se constituiu como mediação, isto é uma imediatidade refletida. Como diz Hegel, “o fenômeno é, por conseguinte, unidade de aparência e de existência” (die Erscheinung ist daher Einheit des Scheins und der Erscheinung WLII123). Em outras palavras, o fenômeno “é aparência real, em que os momentos da aparência têm existência” (WLII123). Na Ciência da lógica, o fenômeno comporta uma inteligência mais articulada da relação entre o mundo do em-si e o da realidade fenomenal. Esta inteligência consiste na apreensão da coerência lógico-estrutural do mundo exterior com a interioridade que a habita e a constitui como tal. O Absoluto real, ou pensado segundo uma lógica da existência, é um filosofema que aparece com a reflexão cristã de Deus, em contraponto com o essencialismo estático do Absoluto como idéia (Platão) ou forma (Aristóteles). O tema “história” está profundamente ligado à concepção judaico-cristã da revelação como história, em que o Absoluto vem ao encontro (katábasis) dos humanos como um dom gratuito. Hegel, às vezes, heleniza o cristianismo. O foco da tensão cristã com o pensamento de Hegel está, penso eu, na questão do dom, da gratuidade.

IHU On-Line - O marxismo entendeu Hegel equivocadamente ao justificar o totalitarismo soviético, por exemplo? Por quê? A exacerbação estatal dos regimes de exceção pode ser compreendida à luz do hiper-racionalismo proposto por Hegel sobre o Estado?
Marcelo Aquino –
O foco desta pergunta diz respeito à leitura que Marx fez dos textos hegelianos. Seguindo o fio condutor desta entrevista, penso ser mais razoável perguntar-se como Marx articula Lógica, Dialética e Teoria do Conhecimento  no seu esforço de inverter a dialética hegeliana. Deste ponto de vista, posso falar de uma leitura equivocada de Hegel por parte de Marx, que o leu pelo viés da teoria marxiana da base e superestrutura, que em seu cerne materialista encerra uma visão necessitária da história. Seria preciso, igualmente, perguntar-se pela leitura que Lenin  fez da lógica hegeliana. Quem sabe, no pensamento de Lenin são detectáveis as raízes paleo-bizantinas na concepção do poder estatal? Pergunto-me se a concepção hegeliana de Estado é passível de aproximação à tradição do liberalismo anglo-saxão. Para isso, ainda não tenho resposta.

 

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