Edição 216 | 23 Abril 2007

Racionalidade sem razões

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Sob o título Racionalidade sem razões, a filósofa canadense Judith Baker proferiu uma conferência em 20-03-2007, parte integrante do seminário Linguagem, racionalidade e discurso da ciência, orientado em parceria com seu marido, Ian Hacking, no curso de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos.

Em entrevista à IHU On-Line, em Porto Alegre, Baker, que leciona nas universidades de Toronto e York, no Canadá, discutiu algumas idéias que abordou em sua conferência. Baker é especialista em filosofia moral e do direito. Publicou as obras The conception of value by Paul Grice (Oxford: Clarendon Press, 1991) e Group rights (Toronto: University of Toronto Press, 1994). Confira.

IHU On-Line – A senhora poderia dar mais detalhes a respeito do conceito "transições de pensamento" de P. H. Grice ?  Qual é a importância desse conceito?
Judith Baker –
Esse trabalho nunca publicado foi parte das discussões que Grice e eu tivemos semanalmente ao longo de doze anos. Muitas das nossas discussões tiveram como foco a racionalidade e a conexão entre razões e a racionalidade. E quando procurávamos casos de pessoas agindo por razões, casos onde pensávamos que as pessoas agiam racionalmente, procuramos os tipos de argumentos que elas apresentavam para outras pessoas ou para si mesmas. Verificamos as formas como as pessoas deliberavam antes de agir. Verificamos o que elas diziam a si mesmas, ou o que pensavam. E constatamos que existem pouquíssimos argumentos que as pessoas apresentam para si mesmas ou para outras pessoas.

IHU On-Line – A título de justificação?
Judith Baker – Não, deixe isso de lado por enquanto. É sim justificação, às vezes, mas quando você tenta pensar sobre o que fazer em determinada ocasião – se vai jantar após o seminário, ou se vai comprar algo novo para sua casa, ou se vai continuar a caminhada nas montanhas ou vai voltar para casa – em situações bem comuns da vida, quando você pensa no que vai fazer, o que pensa consigo mesma, como funciona. O que constatamos é que há pouquíssimas ocasiões em que o que você diz a si própria, pensa consigo própria, parece um argumento. É verdade que muitas vezes, mesmo se não diz nada a si mesma, nem se pensa, podemos reconstruir um argumento a partir de algo que você disse e do que você pensou no passado.

Constatamos que: 1) há muito poucos argumentos como pensamentos que levem à ação; 2) tentar reconstruir o que a gente pensou ou disse em forma de argumento distorce o pensamento real. Mesmo assim, haverá algum arrazoado, algo como pensamento antes de agir. Quando Grice e eu dávamos seminários, e quando ele dava seminários por conta própria, era muito freqüente as pessoas nos seminários saírem para jantar em seguida. Mas nem sempre. Então um dos exemplos na minha palestra na verdade é tomado do momento após o seminário, quando eu poderia dizer a Paul para irmos a Omise, pois eu estava querendo jantar hoje à noite, após o seminário, e Omise é bom. Bem, isto é um pouco de pensamento, que me induzia a ir a Omise e eu o sugiria a outras pessoas. Mas seria uma distorção – isto eu preciso argumentar – representar isto em forma de argumento, com premissas que suportam uma conclusão, no sentido de que, se as premissas forem verdadeiras e o raciocínio for sólido, a conclusão será verdadeira, ou de que podemos modificá-lo no caso de argumentos práticos.

Transição de pensamento” 

Grice cunhou uma expressão para a forma de pensar que leva à ação, mas que não está em forma de argumento prático, e não deveria ser reconstruído dessa forma. Ele a chamou de "transição de pensamento". Eu discuti essa questão e meus colegas perguntaram se existem transições de pensamento que não levem à ação, mas levem a um juízo, a uma proposição descritiva. Ou que levem à crença, em vez de ação. Pensando sobre isto – não é algo que Grice e eu fizemos [em conjunto], mas eu o fiz. Penso que a resposta é sim. E o exemplo que apresentei (há muitos exemplos) é que, ao me mudar de um apartamento para outro, olho para minha enorme poltrona e digo que isto é tão mais pesado que uma cadeira normal; serão necessários dois homens para levantá-la. Eu afirmo que seriam necessários dois homens para levantá-la – isto é resultado do meu pensamento "É tão mais pesado que uma cadeira normal". No entanto, seria errado representar meu pensamento como um argumento. Este é um assunto muito técnico, preciso expor o argumento e usar a lógica para dizer por que não representar meu pensamento como um argumento. Ou no âmbito muito abstrato: uma laboratorista a olhar uma lâmina pelo microscópio poderá pensar e dizer: "Estas células parecem anormais; penso que a leucemia do indivíduo não está mais em remissão". Isto é raciocínio, ou pensamento, que eu chamaria, citando Grice, de transição de pensamento. Mas seria um erro colocá-lo em forma de argumento. A pesquisadora, a laboratorista não tem uma premissa do tipo: “Eu sou uma especialista”. Ao invés, ela se fia em sua experiência, em vez de justificar, argumentar, dar razões para concluir que o paciente não está mais em remissão. Então se deveria entender seu raciocínio como transição de pensamento, não como argumento prático. Mas não posso embasar essa afirmação ou prová-la para você sem entrar em muitos detalhes, eu só posso dar-lhe exemplos.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição