Edição 216 | 23 Abril 2007

“A gente ganha” o que faz na metragem”

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IHU Online

UM DEPOIMENTO DE CARLOS LEMOS, CORTADOR DE CANA, COM SEGUNDO GRAU COMPLETO

Milhares de migrantes, principalmente jovens, deixam suas cidades e vão em busca de oportunidades para retornar com uma renda extra. Carlos Lemos, 20 anos, é um deles. Há dois anos, o rapaz natural de Timbira, Maranhão, segue para São Paulo, a fim de trabalhar nos canaviais na cidade de Guariba, noroeste do estado. “Estou aqui por falta de oportunidade de empregos na nossa região e também por falta de investimentos do governo pra juventude”, disse, por telefone, à IHU On-Line. Quando não tem safra de cana, Carlos diz que retorna ao dia-a-dia normal da sua cidade de origem. “Lá a gente vai para lavoura na roça, no interior. Aí quando aparece algum serviço a gente trabalha como ajudante de pedreiro. Qualquer serviço que aparecer a gente faz”. Ele disse que foi para a cidade de Guariba com destino certo. “Você sabe que veio para cortar cana, mas chega aqui você tem que lutar para arranjar uma casa para você se hospedar, mercado pra comprar, geladeira para guardar alguma comida e água fria para você beber e tudo você vai comprando fiado, melhor dizendo assim, para pagar quando começar a trabalhar”. Atualmente, ele divide uma casa alugada com outros rapazes. “Eu estou na cidade, mas tem muita gente que vai para alojamentos das usinas. Os alojamentos são péssimos”, conta.

Dia-a-dia cortando cana

Trabalhando pelo segundo ano nos canaviais, Carlos diz que a vida de cortador de cana é desgastante e que tem que ter muito preparo físico para agüentar as jornadas de trabalho.  “A vida no campo é dura. Você acorda três e meia, quatro horas da manhã para preparar o almoço. Aí a gente toma café e às 5h já vai para o ponto pra pegar o ônibus para ir para lavoura. Quando chega na roça, a gente merenda um pouco do almoço antes de começar a trabalhar. Quando dá meio dia, a gente almoça. A tarde, só em casa a gente janta novamente”, descreve. Carlos trabalha oito horas de segunda a sábado e revela que há muita exigência nos canaviais. “A exigência é muito grande aqui. Você não pode fazer nada que compense para você tirar uma boa metragem a mais. Tem que cortar mais e seguir a regra deles: cana limpa, ponteiro bem aparado. Se você não cumprir as ordens deles, desobedecer acontece de você levar um gancho  e é descontado R$ 100,00 do seu salário”, aponta.

Mesmo com as dificuldades que encontra, Carlos assegura que trabalhar na lavoura é melhor do que ficar no Maranhão. “Compensa por um lado, porque na nossa cidade a geração de emprego é pouca. Renda, dinheiro para gente, quase nada. Aqui compensa que você vai ganhar o que você faz. Você tem que se esforçar. Mas se você se esforçar muito, tem o risco ter um ataque ou alguma coisa”. Segundo ele, nos últimos anos a situação melhorou um pouco porque eles adquiriram o direito a três descansos por dia. Além disso, ele conta que a fiscalização do Ministério Público tem aumentado nos últimos dias. “Às 9 horas você tem os 10 minutos de descanso. Meio-dia também já tem uma hora de descanso. E à tarde às 2 horas também tem 10 minutos. É um serviço muito puxado”, relata.

Em relação ao salário, Carlos diz que ganha por produção. “A gente ganha o que a gente faz na metragem. Eles colocam o preço na cana e dependendo o tanto de metros que você fizer, eles multiplicam vezes o metro e é o seu pagamento que vai sair por mês ou por quinzena”, conta. Ele explica que os valores por metro quadrado variam de acordo com o tipo de cana. Se a cana for fina, fraca, vai de dez a quinze centavos o metro. Se for uma cana mais pesada, mais forte, vai de 25 a 35 centavos o metro. A cana chega até 50 e 60 centavos. a até 50 e 60 centavos. Por mês, ele diz que ganha uma média de R$ 800,00 e que no fim do ano retorna pra casa com uma renda um pouco mais alta. “A gente leva para casa só o acerto no fim do ano e as parcelas do seguro. O que a gente leva mais de concreto é isso: cerca de R$ 2000,00, mais as parcelas, que variam de R$ 300,00 a R$ 600,00”.

Além dos problemas vivenciados no campo, Carlos ainda tem que driblar a saudade da família. Ele conta que liga para a mãe uma vez por semana, geralmente no domingo que é o dia de folga e diz que não pretende mais trabalhar como cortador de cana. “Eu tenho a expectativa de vida de estudar mais. Tenho o segundo grau completo. Terminei em 2004 e tenho a esperança de fazer cursos na área de computação que eu sempre tive vontade. Vou tentar ver o mercado de trabalho e fazer outros cursos profissionalizantes”.

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