Edição 213 | 26 Março 2007

Perfil Popular - Rosane Marques

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Oriunda de Novo Hamburgo, Rosane Marques trabalha diretamente com os alunos, como motorista de sua empresa, Rosetur, que faz transporte universitário. Apegada à família, começou o negócio tendo em mente seus filhos. “Eu precisava trabalhar. Meu marido estava doente na época e eu fiquei com medo, caso acontecesse algo mais grave, de como eu iria sustentar os meus filhos.”

Transporte - Rosane queria crescer na vida e então voltou a estudar. Ela cursou História na Unisinos. “Enquanto eu estudava, eu queria trabalhar, mas para lecionar seria só com contratos temporários, com um salário baixo. Eu tinha um carro de passeio e resolvi vender e comprar uma besta, que, na época era outra, de doze lugares, e comecei a fazer transporte para a Universidade”. A motorista aprecia a profissão. “É bom. Não vou enriquecer, mas é um salário razoável, que me deixa mais tranqüila financeiramente.”

Susto – A saúde motivou Rosane a voltar a estudar. “Pensei que poderia ter câncer, e esse susto me animou a fazer o que quero. Quando esses problemas não são na nossa família, pensamos que nunca irão acontecer com a gente.” Mas tudo não passou de um susto. “Aproveitei a segunda chance que me foi dada.” Rosane prestou vestibular para História e passou. “Quando me formei, meu plano era dar aulas, mas como já tinha montado a empresa, achei mais conveniente continuar fazendo transportes. Não que eu não queira dar aulas, talvez no futuro.”

Família - Com a família sempre em mente, Rosane recorda a época em que conheceu o marido. “Conheci meu marido ainda quando cursava o Ensino Médio, há vinte e três anos. Não tive muitos namorados. Quando o conheci sabia que era a pessoa com quem eu iria me casar.” O casamento deu frutos. O casal tem dois filhos: um de dezenove e outro de catorze.

Dia-a-dia - Rosane tem um dia corrido, vivendo a rotina de quem tem muitas atividades e pouco tempo. Além do trabalho como motorista, Rosane ainda cuida dos filhos e da casa.  O mais velho, já encaminhado na carreira, trabalha com o pai em uma empresa da área da saúde e cursa, juntamente com pai, Administração Hospitalar, na Unisinos. “Meu marido vem dois dias por semana para ter aulas e, então, eu tenho folga. Também sou dona-de-casa, não tenho ninguém para me ajudar com as tarefas domésticas.” Rosane ainda encontra tempo para o filho mais novo. “Nos dias em que não trabalho à noite na besta, levo meu filho para a natação.”

Trabalho - A motorista já trabalhou na indústria calçadista, que tem seu centro na região de Campo Bom. “Hoje a indústria está decadente. Trabalhei onze anos em uma mesma empresa como costureira de calçados. Era um trabalho do qual eu gostava.” Mesmo com um trabalho estável, Rosane pensava no crescimento de sua carreira. “Apesar de satisfeita com o trabalho, tinha a vontade de crescer mais.”

Motorista - Rosane tem contado direto com alunos diariamente. “No meu trabalho tenho adolescentes e adultos. Com os mais novos, faço às vezes o trabalho de psicóloga. Ouço queixas sobre os pais e aconselho, pois às vezes já passei pela mesma situação.” Ela ressalva o quanto esse contato é importante. “Não sei se teria esse contato fazendo transporte para uma empresa.” Pela manhã, ela encontra alunos que estão na faixa etária dos seus filhos, e à noite são pessoas um pouco mais velhas. Apesar da rotina puxada, Rosane adora seu trabalho. “Excluindo o estresse da estrada, é tudo muito fácil.”

Crise - Preocupada com crise da indústria dos calçados, Rosane lembra dos amigos que saíram do país em busca de uma nova chance. “Muitos parentes e amigos foram para a China em busca de oportunidades. Se as indústrias não estão bem, todos a sua volta sofrem.”  Rosane explica que o setor do transporte também foi atingido pela crise. “O poder aquisitivo da população cai, e com isso as pessoas vão ‘cortando’ algumas coisas que são consideradas supérfluas na vida diária.” Ela confessa que a crise não a atingiu diretamente, mas lamenta pelos amigos. “Fico preocupada, pois acho que a situação não vai melhorar, pode até piorar.”

Tempo livre – Enquanto espera os alunos retornarem das aulas, Rosane não fica parada. No seu trabalho, apesar de escassas, as mulheres são unidas. “Eu e outras motoristas, costumamos caminhar no Complexo de Desporto e Lazer da Universidade. No final da semana, aproveitamos o tempo para fazer as unhas, crochê e tricô.”  

Amizade – Com uma das três mulheres motoristas no turno da manhã, Rosane constata o quanto é diferente a rotina dos homens da profissão. “Observei que as mulheres aproveitam melhor esse tempo, enquanto os homens dormem. Nunca ficamos paradas. Já temos um vínculo de amizade.”

Futuro-  Quanto ao futuro, Rosane se preocupa com os filhos. “Quero que meus filhos tenham uma vida razoável pelo menos. O que mais me preocupa é a situação financeira.” O diploma de Rosane também será aproveitado no futuro. Ela planeja lecionar História em uma escola municipal.

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