Edição 213 | 26 Março 2007

Nação Sul-americana vive hoje uma conjuntura excepcional

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IHU Online

O jornalista argentino Horacio Verbitsky conversou por e-mail com a IHU On-Line. Verbitsky falou do papel da Venezuela na integração energética latino-americana, da cobertura dos jornais argentinos sobre essa integração e, no final, soltou a seguinte pérola com relação aos laços brasileiros e argentinos: “Não sei o que estamos esperando para formar uma única seleção de futebol”.

Verbitsky, colunista político do jornal argentino Página 12, é autor de livros importantes para o conhecimento da história recente do país vizinho, como O vôo. Porto Alegre: Globo, 1995 sobre os desaparecidos políticos durante a ditadura, e o recém-lançado El Silencio. Ed. Sudamericana, 2005,  que investiga a cumplicidade da Igreja Católica argentina com a ditadura.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a integração energética da América do Sul?
Horacio Verbitsky -
Este é um setor no qual a concepção venezuelana de intercâmbio pode ter um papel decisivo, como se verifica na relação com a Argentina, que adquire combustível e vende alimentos e produtos manufaturados. Ao mesmo tempo, a divisão do megaduto do sul em trechos menores o torna mais viável.

IHU On-Line - O senhor pensa que Lula pode ser o líder da América Latina? Caso contrário, quem poderia ocupar este papel?
Horacio Verbitsky -
Não creio que tenha sentido colocar a questão em termos de lideranças pessoais. Sem dúvida, as dimensões geográficas e econômicas do Brasil lhe asseguram um lugar preponderante, sempre que sua condução mantenha a prioridade assinalada pelo atual governo no espaço sul-americano, sem que isso implique desdenhar as relações com outras regiões do mundo, tanto políticas como econômicas. O comportamento de Lula tem sido impecável em relação à Bolívia, quando Evo Morales intensificou suas medidas nacionalizadoras e enviou tropas militares a ocuparem as instalações das empresas, entre elas a Petrobras. Nesse momento, Lula resistiu às pressões patrioteiras da direita brasileira e atuou com a serenidade de um irmão mais velho.

IHU On-Line - Como o senhor percebe o futuro para a América Latina?
Horacio Verbitsky -
A incipiente Nação Sul-americana vive hoje uma conjuntura excepcional, que não se produziu por acaso, senão como conseqüência do fracasso do modelo neoliberal aplicado nas décadas anteriores, o qual aprofundou a desigualdade e lançou centenas de milhões de pessoas no desespero, ao mesmo tempo em que deslegitimou o sistema democrático realmente existente. Por certo, isto se dá de modo distinto em cada país, porém Lula, Kirchner, Chávez, Bachelet, Correa, Evo e Tabaré são filhos da mesma crise sistêmica e da mesma fartura popular, o que permite uma dose razoável de otimismo.

A proposta estadunidense da Alca tende a cristalizar um modelo de desenvolvimento assimétrico e, por isso, foi rechaçada pelas nações do MERCOSUL. O Brasil é o principal, mas não o único defensor de um modelo de integração mais parecido ao que seguiram os países da Europa desde meados do século passado e que culminou na criação da moeda comum, o euro. Isso implica trabalhosas negociações, produto por produto, de modo que os benefícios cheguem a todos os integrantes da associação, e não só aos mais poderosos. O Fundo de Estabilização Regional, o mecanismo de salvaguardas e compensações para os países com atrasos relativos, são alguns dos mecanismos existentes nesse caminho. A proposta venezuelana, em troca, tem alguns ares de familiaridade com o antigo sistema do Comecon, do intercâmbio compensado de bens, com negociações pontuais. A Argentina move-se, assim, num processo semelhante ao do Brasil e da Venezuela, dado que não existem contradições insolúveis, e sim questões de acento e ritmo. A única incompatibilidade nítida é com a Alca, a qual, inclusive, os Estados Unidos começaram a substituir por acordos bilaterais com determinados países. É preciso estar muito atento à situação do Uruguai, o elo débil da cadeia sul-americana, sobre o qual se concentra a pressão dos interessados extra-regionais em quebrar o MERCOSUL e a incipiente Nação Sul-americana.

IHU On-Line - De que modo o senhor percebe as relações entre o Brasil e a Argentina hoje?
Horacio Verbitsky -
Elas são o principal fundamento deste otimismo. Os receios e as hipóteses de conflito cederam lugar à complementação e à cooperação. Isto é muito evidente hoje, dada a afinidade entre Lula e Kirchner, mas é importante destacar que começou antes e que prosseguirá depois deles, porque é um processo profundo que envolve ambas as sociedades. Não sei o que estamos esperando para formar uma única seleção de futebol. 

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