Edição 213 | 26 Março 2007

Um neonacionalismo popular na América Latina

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IHU Online

Para a historiadora Cláudia Wasserman, docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), “os governos de esquerda latino-americanos atuais chegaram ao poder impulsionados, em grande medida, pelos movimentos sociais camponeses e de trabalhadores urbanos”. E complementa: “Os intelectuais latino-americanos não têm conseguido dar respostas aos problemas atuais e nem interpretar o que vem ocorrendo”. As declarações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Wasserman é graduada em História pela UFRGS, com especialização em História pela mesma instituição. É mestre em História pela UFRGS com a dissertação “A Revolução Mexicana” (1910-1940): um caso de hegemonia burguesa na América Latina. Doutorou-se em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro com a tese “A questão nacional na América Latina no começo do século XX: Brasil, Argentina e México”. Escreveu as obras História Contemporânea da América Latina (1900-1930). Porto Alegre: EDUFRGS, 1992; História da América Latina: do descobrimento a 1900. Porto Alegre: EDUFRGS, 1996; Palavra de Presidente. Porto Alegre: EDUFRGS, 2002; e Ditaduras Militares na América Latina. Porto Alegre: EDUFRGS, 2004.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre a relação entre os movimentos sociais e alguns governos sul-americanos que chegaram ao poder, em boa medida, pelo impulso que as lutas e protestos deram à cena política em seus países?
Claudia Wasserman -
Acho justamente que os governos de esquerda latino-americanos atuais chegaram ao poder impulsionados, em grande medida, pelos movimentos sociais camponeses e de trabalhadores urbanos, mas também puderam reorganizar tanto partidos quanto movimentos autônomos, depois de passado o período das ditaduras militares, o qual havia deixado um desastroso saldo no campo das esquerdas. Ao chegar ao poder, no entanto, os políticos de esquerda, comprometidos com os seus partidos e com outros das alianças que lhes levaram ao poder, não podem e não devem tornar-se reféns dos movimentos sociais. Esses últimos continuam reivindicando e a negociação entre eles e o governo vai nos informar o rumo dessas esquerdas no poder na América Latina.
 
IHU On-Line - Como a senhora caracteriza os movimentos sociais na América Latina? Para onde caminham e quais as suas principais reivindicações?
Claudia Wasserman -
Os movimentos sociais latino-americanos atuais, desde meados dos anos 1990, conseguiram unir as reivindicações indígenas milenares, tradicionais, hoje identificadas como camponesas, com as tradições dos movimentos inspirados na revolução socialista. A ausência dos partidos comunistas deixou órfãos os movimentos sociais latino-americanos, que, por outro lado, tiveram que se organizar a partir de suas próprias especificidades. Nessa medida é que hoje o problema da terra, da preservação de cultivos tradicionais, da preservação ambiental e do respeito às diferenças estão muito mais em evidência do que as demandas trabalhistas propriamente ditas.
 
IHU On-Line - Quais são os eixos do debate intelectual na América Latina atual?
Claudia Wasserman -
Alguém disse sabiamente que a América Latina tem andado com os pés, sem a cabeça. O que significa dizer que os intelectuais latino-americanos não têm conseguido dar respostas aos problemas atuais e nem interpretar o que vem ocorrendo, porque as mudanças são muito evidentes. Eu, particularmente, acho que os intelectuais têm tido pouco espaço na mídia. A instantaneidade da informação faz com que os meios de comunicação deleguem aos jornalistas a tarefa de analisar o presente, o que o torna superficial. Mas, felizmente, há muitos intelectuais pensando o momento atual, e suas principais discussões são justamente a respeito da ascensão dos movimentos de esquerda, os efeitos do neoliberalismo nas economias latino-americanas, o problema da integração e a questão do desenvolvimento, que parece continuar como o principal eixo articulador de todas as preocupações contemporâneas.

IHU On-Line - Como a globalização interfere nas ações dos movimentos sociais atuais latino-americanos?
Claudia Wasserman -
Acho que a globalização não é uma via de mão única. O processo que supõe a mundialização do capitalismo e a padronização dos mercados consumidores, e que pretende apoderar-se da informação mundial, também favorece as comunicações entre os diferentes movimentos anti-sistêmicos mundiais, permitindo que conheçam suas especificidades, suas demandas comuns e que possam unificar algumas lutas e também defender a alteridade cultural existente no planeta.

 

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