Edição 213 | 26 Março 2007

A emersão de um novo tipo de ação política na América Latina

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IHU Online

Edson Antoni estudou as relações entre o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Sobre esses dois movimentos e sobre a América Latina, ele concedeu uma entrevista por e-mail para a IHU On-Line.

Edson possui graduação e mestrado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo sua dissertação o título “Os novos movimentos sociais latino-americanos: o EZLN e o MST”. Tem experiência na área de História, com ênfase em História da América. Na entrevista, Antoni fala do surgimento de “novos movimentos sociais”, que são movimentos “responsáveis, entre outros, por um processo de revalorização da ação política e ressignificação de alguns conceitos clássicos de democracia, participação política, justiça social, entre outros”.
Eis a íntegra da entrevista concedida por e-mail:

IHU On-Line - Qual a dinâmica social que move a América Latina de hoje?
Edson Antoni -
O atual contexto político-social latino-americano pode ser compreendido a partir de uma dupla perspectiva: se por um lado, apresenta-se como o resultado de um processo de redemocratização (de restabelecimento de direitos), por outro, demonstra claramente os limites e o descrédito com o próprio modelo democrático. A ação de governos autoritários durante os anos 1960-1980 foi significativa na estruturação das forças políticas contemporâneas, uma vez que foram responsáveis, em seu tempo, pelo enfraquecimento estrutural dos canais clássicos de participação política. A retomada da atividade político-partidária, que inicialmente fora muito comemorada, acabou por denunciar, muito brevemente, a fragilidade organizacional e ideológica dos novos partidos. A grande expectativa gerada a partir da superação dos governos militares, progressivamente, cedeu espaço para um sentimento de frustração, à medida que os projetos políticos colocados em prática não atendiam as necessidades básicas da população. Os governos que se sucedem não conseguem apresentar alternativas viáveis a fim de superar os graves problemas sociais existentes.

É, pois, dentro deste contexto, que vemos emergir um tipo novo de ação política. Ação esta conduzida por aquilo que podemos definir como “novos movimentos sociais”. Longe de representarem os clássicos canais de participação política, como organizações sindicais, partidos políticos ou grupos guerrilheiros (característicos das décadas de 60-70), estes “novos movimentos” apresentam uma nova pauta de reivindicações e um novo tipo de atuação junto à sociedade civil e frente ao poder político instituído. São movimentos responsáveis, entre outros, por um processo de revalorização da ação política e ressignificação de alguns conceitos clássicos de democracia, participação política, justiça social, entre outros.

IHU On-Line - Qual sua opinião sobre a relação entre os movimentos sociais/ sociedade civil e os governos latino-americanos?
Edson Antoni -
Estes “novos movimentos” têm buscado se apresentar como novos e legítimos interlocutores da sociedade civil. Querem representar uma alternativa ao tradicional e desgastado sistema político. A ação destes movimentos busca construir, junto ao conjunto da sociedade, uma nova relação identitária. Como encontramos expresso em um comunicado feito pelo Subcomandante Marcos : “Somos ya producto de ustedes, de su palabra y de su aliento. Hoy ya no hay más el ‘ustedes’ y el ‘nosotros’. Somos los mismos”. O que tais movimentos buscam é a constituição de uma grande frente de luta e reivindicações, afastando-se das antigas lideranças personalistas ou mesmo das vanguardas revolucionárias.

Em sua Quinta Declaración de la Selva Lacandona, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) convoca a sociedade como um todo para que participe ativamente do movimento que propunha uma grande transformação social, política e econômica. “Es la hora de los campesinos, de los obreros, de los maestros, de los estudiantes, de los profesionistas, de los religiosos y religiosas consecuentes, de los periodistas, de los colonos, de los pequeños comerciantes, de los deudores, de los artistas, de los intelectuales, de los discapacitados, de los seropositivos, de los homosexuales, de las lesbianas, de los hombres, de las mujeres, de los niños, (...). Las llamamos a que, junto a los pueblos índios y a nosotros, luchemos contra la guerra y por el reconocimiento de los derechos indígenas, por la transición a la democracia, (...) por uma sociedad tolerante y incluyente (...). 

A busca da construção desta legitimidade por parte dos movimentos não é, contudo, um fenômeno tranqüilo. A ação repressiva dos governos, em muitos casos, surge como uma alternativa de intimidação aos movimentos, bem como de manutenção do monopólio do espaço político. Percebemos, a partir destes enfrentamentos, o embate não só físico, mas de duas distintas concepções de ação política.

IHU On-Line - Qual seria o papel de Chávez na América Latina? Com que olhos você vê o “socialismo do século XXI” proposto por ele?
Edson Antoni -
Com relação à ação de Hugo Chávez no contexto político latino-americano, acredito que esta deverá ser pensada dentro de um outro contexto de análise. O exemplo de Chávez afasta-se dos chamados “novos movimentos sociais” uma vez que, no meu entendimento, este pauta suas ações a partir de um conjunto de práticas e pressupostos teóricos politicamente tradicionais. Não podemos negar que sua figura política, dentro do continente, vem ganhando cada vez mais destaque. Contudo, acredito que uma reflexão mais profunda acerca deste governo nos aproximaria de um fenômeno político que vem sendo definido como o “novo populismo” latino-americano.

IHU On-Line - Que paralelos podemos traçar entre o Exército Zapatista de Libertação Nacional e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra?
Edson Antoni -
A pesquisa que venho desenvolvendo propõe, justamente, um estudo comparativo entre o EZLN e o MST. Longe de buscar forçar qualquer tipo de situação, a fim de aproximar os dois movimentos, acredito que o estudo comparativo deva levar em consideração, além das similaridades entre os movimentos, as suas peculiaridades. Assim, trabalhamos com um conjunto bastante grande de informações. De um modo geral, poderíamos afirmar que o principal elo de ligação entre o EZLN e o MST está, justamente, no fato de que ambos, dentro de suas especificidades históricas e nacionais, são representantes dos chamados “novos movimentos sociais”. Atuam junto à sociedade civil, por meio de novos canais participativos, a fim de constituir uma nova alternativa política.    

IHU On-Line - Qual a particularidade do MST enquanto movimento social brasileiro e latino-americano? Qual é a novidade e os limites dele? O que de mais importante ele trouxe e traz para a movimentação social latino-americana?
Edson Antoni -
Com relação às novidades propostas pelo MST, acredito que podemos citar, entre outras, a formação de coletivos dirigentes (afastando-se das lideranças personalistas) e a redefinição de participação política, a partir do incentivo à atuação do conjunto de todos os membros da comunidade. Acredito já ser um papel de destaque do movimento manter viva a luta pela reforma agrária no país. Contudo, o incentivo à mobilização da sociedade civil, a partir de seus diferentes setores, confere ao MST (e a todos os novos movimentos sociais) a sua principal identidade e contribuição política.

IHU On-Line - Qual sua opinião sobre o subcomandante Marcos? Qual sua importância para o EZLN, para o México e para a América Latina?
Edson Antoni -
Com relação à figura do Subcomandante Marcos, acredito que possamos caracterizá-lo como uma das maiores lideranças políticas do México e, por que não dizer, da América Latina. Certamente o universo de comparação da atuação de Marcos não pode ser analisado a partir de referências tradicionais de atuação política. Marcos não chegará à condição de grande estadista (estaria negando as suas próprias crenças), todavia o seu transito político, em diferentes níveis da sociedade mexicana e latino-americana, o coloca como um importante referencial. Além de propor, desde o surgimento do movimento zapatista, em 1994, uma nova forma de fazer política do ponto de vista teórico-conceitual, a ação de Marcos contribuiu também para a transformação das práticas políticas das comunidades indígenas. O movimento indígena mexicano possui uma longa trajetória de subordinação e de insucessos. As relações clientelísticas, impostas por partidos políticos ou outras organizações sociais, impunham à comunidade indígena uma condição de subserviência. O surgimento do EZLN e a visibilidade conquistada pelo movimento (muito influenciada pela figura de lideranças como a do Subcomandante Marcos) levou o movimento indígena mexicano para um novo nível de atuação. As questões anteriormente pertinentes s comunidades indígenas agora foram transformadas em questões de importância nacional.

IHU On-Line - Como você define a Outra Campanha e a sua postura na época das eleições? Seria um exemplo de movimentação social para os demais grupos latino-americanos?
Edson Antoni -
Com relação à chamada “Outra Campanha” acredito que esta possa ser compreendida, antes de mais nada, como uma grande representação de uma nova forma de fazer política. Cabe neste momento uma ressalva: o abstencionismo não garantirá o surgimento de um novo governo. Antes, sim, demonstra uma nova forma de mobilização social. A campanha iniciada poderá servir como uma espécie de grande plebiscito, uma forma de representação da aceitação, por diferentes setores da sociedade, das propostas de mudanças estruturais defendidas pelos novos movimentos sociais. O grande valor da “Outra Campanha” está associado, muito mais, à mobilização social que propõe e que conquistou do que à não participação eleitoral. O caráter simbólico de negar os tradicionais e desacreditados canais de participação política pode ser uma outra forma de representação da “Outra Campanha”, que poderá servir como exemplo de atuação para outras regiões do continente.     

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