Edição 213 | 26 Março 2007

“Existem múltiplas Américas Latinas”

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Na opinião de Luiz Eduardo Wanderley, “não existe uma América Latina, mas múltiplas, o que exige estudos concretos de situações concretas. Em cada época – colonização, independência, república, imperialismo e dependência, modernização capitalista – houve convergências e diferenças enormes na formação de cada povo, nas lutas políticas, nas elites, nas classes dominantes e dominadas, nos processos educativos e culturais, e assim por diante. Portanto, não se pode generalizar”.

Wanderley foi reitor da PUC-SP, é professor titular do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos da pós-graduação em ciências sociais dessa instituição.
É um dos organizadores das obras América Latina - Estado e reformas numa perspectiva comparada. São Paulo: Cortez Editora, 2003; A dimensão subnacional e as relações internacionais. São Paulo: EDUC/EDUNESP/EDUSC/Fapesp, 2004; e Governos subnacionais e sociedade civil: integração regional e Mercosul. São Paulo: EDUC/EDUNESP/FAPESP, 2005. Escreveu Educar para Transformar - Educação Popular, Igreja Católica e Política no Movimento de Educação de Base. Petrópolis: Vozes, 1984 e O que é Universidade. 3ª. ed. São Paulo: Britannica-Brasiliense, 1984. A entrevista que segue foi concedida por e-mail.

Wanderley graduou-se e Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), onde também cursou especialização em Dinâmica Populacional da Faculdade de Saúde Pública. Ele fez o doutorado em Ciências Sociais na USP, com a tese “Educar para transformar: educação popular, igreja católica e política no movimento de educação de base” (1961-1965). É pós-doutor pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, (EHESS), França, e livre docente pela USP.

IHU On-Line – Quais são as particularidades da questão social na América Latina?
Luiz Eduardo Wanderley - A questão social na América Latina se põe, no espaço e no tempo, diferentemente da realidade européia, na instituição da nacionalidade, da esfera estatal, da cidadania, da implantação do capitalismo. Portanto, apesar da importância da questão operária, ela deve ser datada e entendida de modo diferente. Ela emerge com a questão indígena, depois com o tema da formação nacional, e vai se desdobrando e se problematizando nas temáticas negra, rural, operária, da mulher, da exclusão, da violência etc. Ela se funda nos conteúdos e formas assimétricas assumidos pelas relações sociais, em suas múltiplas dimensões econômicas, políticas, culturais, religiosas, com acento na concentração de poder e de riqueza de classes e setores sociais dominantes e na pobreza generalizada de outras classes e setores sociais que constituem as maiorias populacionais dos países da América Latina, e cujos impactos alcançam todas as dimensões da vida societária, do cotidiano às determinações estruturais .
 
IHU On-Line - Como podemos entender toda essa movimentação latino-americana nos últimos anos? O que está por trás das ações dos movimentos sociais e da sociedade civil? Uma nova América Latina está se formando?
Luiz Eduardo Wanderley – Há múltiplas Américas Latinas, o que exige estudos concretos de situações concretas. Em cada época – colonização, independência, república, imperialismo e dependência, modernização capitalista – houve convergências e diferenças enormes na formação de cada povo, nas lutas políticas, nas elites, nas classes dominantes e dominadas, nos processos educativos e culturais, e assim por diante. Portanto, não se pode generalizar. Algumas situações que surgiram: impactos negativos da globalização neoliberal (desemprego estrutural, aumento da pobreza e das desigualdades sociais, privatizações etc.); resistências, mobilizações e práticas inovadoras de ONGs e movimentos sociais; crise dos partidos políticos e da democracia representativa (descrédito na política oficial, por exemplo). Irromperam, então, lutas de setores expressivos nos governos e em setores da sociedade civil, querendo mudanças. Mas existem discordâncias sobre os projetos de sociedade e sobre as estratégias, que se refletem nas lideranças e na militância. Os processos de integração regional no continente avançaram muito pouco.

IHU On-Line - Como o senhor define a relação entre os movimentos sociais e alguns governos sul-americanos que chegaram ao poder em boa medida pelo impulso que as lutas e protestos deram à cena política em seus países?
Luiz Eduardo Wanderley -
Na linha anterior, movimentos políticos e sociais, e membros de alguns partidos que chegaram ao poder, se uniram na busca de soluções. Algumas iniciativas são importantes: busca de identidade e de protagonismo (movimentos étnicos, indígena e negro, de gênero); movimentos pela paz, pelos direitos humanos, ecológicos; novas figuras políticas (por um lado, buscando afirmação e encaminhando ações de mudança; e por outro lado, correndo o risco de um novo tipo de populismo); iniciativas inovadoras (orçamento participativo, economia solidária, conselhos gestores etc.). Tudo está requerendo mudanças e medidas criativas e em profundidade nas instituições políticas, nos partidos, nas lideranças, nos meios de atuação, na gestão pública, nas políticas públicas. Portanto, os cenários políticos são complexos e não aceitam fórmulas fáceis.

IHU On-Line - Em recente visita a América Latina, o presidente Bush foi alvo de muitos protestos. Quais seriam os reais interesses de Bush na América Latina?
Luiz Eduardo Wanderley -
Na atual conjuntura, os blocos regionais (União Européia, Ásia, NAFTA etc.) estão se articulando. Na linha do “destino manifesto” e com a presente liderança da potência norte-americana, os Estados Unidos querem expandir seu domínio pelo mundo. A América Latina sempre foi entendida como um “quintal” do Império, mas no governo Bush ela ficou meio escondida. Alguns interesses são conhecidos: manter a pax americana na região; combater possíveis mudanças radicais no que eles entendem por democracia; combater o narcotráfico; prevenir surtos terroristas; garantir a aceitação e a realização do Consenso de Washington, entre outros. Com a política do governo Bush, com destaque para as guerras (Afeganistão, Iraque) e outras possíveis (Irã etc.), ele está em baixa na opinião pública de seu país e no mundo (com protestos generalizados). É claro que os setores de oposição ao Mercado e à sua política, na América Latina, também protestam e protestaram em sua visita. Seus objetivos nessa visita, além dos citados: o etanol como uma bandeira que agradou a mídia e setores expressivos das elites; o livre comércio (se possível, revitalizando a Alca de acordo com os interesses dos EUA; se não, a curto e médio prazos, fazendo Acordos bilaterais com cada país, no estilo Chile e Colômbia).

IHU On-Line - Podemos considerar três grandes “ondas” na América Latina: Bush lutando pela Alca, Lula lutando pelo Mercosul e Chávez lutando pela Alba. Em qual dessas “ondas” o senhor aposta? Para onde estamos caminhando?
Luiz Eduardo Wanderley -
Sobre o Bush já foi comentado. Lula buscou ampliar as relações externas do Brasil, com a China, a Índia, a África do Sul, e articular os países emergentes no G20. Na América Latina, houve a intenção de uma integração maior, no âmbito sul-americano. O Mercosul é um dos objetivos, com enormes dificuldades. A integração “bolivariana”, de Chavez, tem forte apelo pessoal do mesmo e finalidade de agregar os governos mais críticos aos EUA, utilizando o instrumento petróleo. Assim sendo, no momento o processo está fragmentado e dividido. É difícil prever o futuro.

IHU On-Line - Qual tem sido o papel da Igreja Católica enquanto resistência social e cultural na América Latina? Como isso se configura com a Igreja de hoje?
Luiz Eduardo Wanderley -
A Igreja Católica sempre teve um papel forte nas sociedades latino-americanas. No geral, historicamente, pendendo para uma posição conservadora. Basicamente, após as Conferências de Medellín, Puebla (em Santo Domingo menos), e pela presença de movimentos ligados à Teologia da Libertação, a chamada Igreja Popular passou a ter uma posição progressista, tanto de resistência, quanto de apoio e participação ativa em denúncias e proposições. Posição, no geral, combatida por setores influentes do Vaticano. Hoje, apesar das mudanças na teologia da libertação e de um certo refluxo nas posições políticas, essa corrente continua presente, nas pastorais sociais, no Grito dos Excluídos, nas CEBs, em certos grupos de teólogos e pastoralistas, (e na CPT e em documentos da CNBB, no Brasil).

IHU On-Line - O que faria parte de uma agenda alternativa para a América Latina? Quais caminhos ela deveria percorrer para garantir sua independência? A integração energética seria um caminho?
Luiz Eduardo Wanderley -
As alternativas macro são limitadas e de difícil concretização. No nível micro, elas são crescentes e em expansão. Algo já foi indicado, com a economia solidária, projetos de inclusão social, novas formas de gestão entre governos e sociedade civil. Ganham corpo propostas de uma globalização contra-hegemônica, que levará tempo. Um sinal de esperança e de construção de novas utopias surge com as redes e fóruns, com a bandeira de que “um outro mundo é possível”, com as manifestações coletivas em diversas partes do mundo contrárias ao neoliberalismo. As redes e fóruns asseguram a autonomia dos movimentos e setores participantes, e se descentralizam (nos planos local, nacional, regional, mundial). No campo teórico, são expressivas as discussões sobre teorias dissipativas, complexidade, holismo, cosmogonia, transdisciplionaridade, modernidade e pós-modernidade entre outras.

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