Edição 547 | 05 Abril 2021

Escrever como missão, uma literatura em direção à mística

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Ricardo Machado

Maria Clara Bingemer perscruta os encontros com Deus e com a espiritualidade nas obras de Clarice Lispector

Muitas são as dimensões da literatura que nos conectam com a mística, sobretudo quando estamos diante de obras como a de Clarice Lispector, cuja escrita é assumida como missão. “Clarice faz em suas obras uma jornada de autoconhecimento e de conhecimento do outro. Esse é seu tema, seu assunto, seu interesse. Não sendo uma pessoa religiosa, no entanto a presença de Deus é uma constante em muitos de seus escritos, direta ou indiretamente”, pondera a professora e pesquisadora Maria Clara Bingemer, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Compreendendo a experiência mística como uma relação com o mistério divino, a entrevistada ressalta ser possível “afirmar que Clarice narra em seus romances verdadeiras experiências místicas. Suas personagens não recuam diante de nada na ânsia de chegar ao mais profundo de sua condição humana e à comunhão com o outro”.
“O Deus que se revela na obra de Clarice está mais perto do Deus de Israel do que do Deus do Cristianismo. É o Totalmente Outro que se revela mas mantém sua majestade e sua diferença para com o ser humano que, no entanto, o deseja e o busca”, complementa.


 

Maria Clara Lucchetti Bingemer possui graduação em Comunicação Social e mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e doutorado em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana - PUG. É professora na PUC-Rio. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Sistemática, atuando principalmente nos seguintes temas: Deus, alteridade, mulher, violência e espiritualidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para você, quem foi Clarice Lispector?

Maria Clara Bingemer – Para mim foi certamente uma das maiores escritoras brasileiras, talvez a maior, incluídos aí homens e mulheres. Sua escrita jorra sobre o papel, é vida pura, vida que sai das entranhas. Ela mesma de certa forma diz que sua escrita é salvífica. Ela a quis primeiro salvífica para outros, concretamente para sua mãe, que era profundamente doente. Sua biografia escrita por Benjamin Moser narra um episódio terrível que se passou com sua mãe quando ela ainda não era nascida. A mãe adoeceu profundamente depois disso. E lhe disseram que a gravidez poderia curá-la da doença. Foi então que Clarice foi concebida, com essa missão de salvar a vida da mãe. Não conseguiu fazê-lo. Mania Lispector faleceu com Clarice ainda nos seus jovens anos. Mas enquanto pôde conviver com ela, Clarice criava histórias para contar-lhe. Depois de sua morte, continua a escrever, muito por salvar-se a si mesma. E sua escrita acaba tendo realmente esse poder de salvação para muitos dos seus leitores. E para ela também, tal como testemunha em vários de seus livros, quando diz: “esse livro é mais do que eu...” e outras afirmações assim. Por isso para mim Clarice é alguém que é uma escritora talentosíssima, mas a quem o ofício de escritor é dado e assumido como missão.

IHU On-Line – O que significa a obra literária de Clarice Lispector?

Maria Clara Bingemer – Clarice tem um significado importantíssimo para as letras brasileiras. Não só para dentro do território nacional, em termos do público brasileiro. Hoje ela é estudada em muitíssimos países e seus livros traduzidos em vários idiomas. Sua escrita transcendeu os limites da língua e das fronteiras físicas e atingiu outras latitudes, levando sentido e inspiração a outras culturas. Isso me parece que radica em sua obra literária profundamente humana, mergulha no fundo da condição humana e aí encontra sua inspiração mais autêntica e genuína. Clarice faz em suas obras uma jornada de autoconhecimento e de conhecimento do outro. Esse é seu tema, seu assunto, seu interesse. E isso nela acontece de uma maneira especialmente intensa, fazendo com que sua produção literária seja algo que não deixa de chegar a nenhum leitor. Qualquer um, qualquer uma, poderá sentir-se identificado com o que jorra das entranhas inspiradas da escritora. Daí a enorme importância que tem hoje como sempre e talvez mais que nunca, quando a humanidade está em debate com sua condição, procurando sua verdadeira identidade, questionada sobre o real sentido de seu ser e estar no mundo.

IHU On-Line – Clarice tem sua obra revisitada agora desde a teologia. Como se dá essa descoberta? E que chaves à teologia seus escritos revelam?

Maria Clara Bingemer – Clarice é judia de origem e isso é uma marca indelével em sua escrita, ainda que não assumida explicitamente por ela. Vários testemunhos recentes de amigos próximos e pessoas que a conheceram bem relatam como ela rejeitava essa identificação de judia. Insistia em que era brasileira. No entanto, é impossível não ver, sobretudo, em seus escritos como sua judeidade está presente. Como muitos outros judeus em diáspora, Clarice viveu em um país de cultura cristã, predominantemente católica. Enquanto foi casada com Maury Gurgel Valente , que era diplomata, viajou e viveu em outros países, também convivendo com a cultura dos mesmos, cristã em geral. Não sendo uma pessoa religiosa, no entanto a presença de Deus é uma constante em muitos de seus escritos, direta ou indiretamente. E quem conhece teologia percebe aí os contornos dessa presença divina, Alteridade Maior e Transcendente com quem ela dialoga, que segura sua mão e a leva a descobrir coisas maiores que ela mesma. Por exemplo em A Paixão segundo G.H., é bem claro esse itinerário conduzido por Outro que no final a faz entrar em comunhão com o ínfimo da matéria e aí experimentar a adoração. Já em seu último romance, A hora da estrela, a descoberta dessa Alteridade se dá no outro carente, vulnerável, no pobre, personalizado na moça nordestina que vive oprimida na cidade grande.

Clarice se aproxima com esse escrito das melhores intuições da Teologia latino-americana, concretamente a Teologia da Libertação, no sentido de encontrar sua origem no encontro com o Senhor no rosto do pobre. Citamos essas duas obras, mas há muitas mais incidências de chaves teológicas na obra clariciana. E hoje há bons estudos sobretudo sobre suas raízes judaicas presentes e latentes na escrita dessa que não sabia definir claramente sua pertença de fé.

IHU On-Line – É possível dizer que a literatura de Clarice Lispector é mística?

Maria Clara Bingemer – Penso que isso é indiscutível se se entende mística como conhecimento de Deus por experiência. Entendo por experiência mística a experiência de relação íntima e intensa com o mistério divino, que leva ao conhecimento do mesmo por revelação. Os processos da experiência mística tendem à união de amor entre o místico/a e Deus .

A partir disso, creio poder-se afirmar que Clarice narra em seus romances verdadeiras experiências místicas. Suas personagens não recuam diante de nada na ânsia de chegar ao mais profundo de sua condição humana e à comunhão com o outro. E nesse itinerário encontram ou são acompanhadas por essa Alteridade Maior que se faz presente sem dizer o nome, que emudece a linguagem, abrindo o espaço silencioso para a adoração.

Nesta peregrinação ao fundo de si mesma e ao encontro do outro, está latente o desejo da experiência e do conhecimento de Deus. E as experiências de Clarice vão acontecer em toda a sua pessoa, integrando corporeidade, inteligência e sensibilidade. Assim, sua escrita dará testemunho desta experiência vital ou mesmo da nostalgia da mesma e muito especialmente do Totalmente Outro que lhe permite experimentar e ser experimentada e afetada.

IHU On-Line – Em que sentido a obra clariciana exprime uma certa mística? De que ordem é esta mística?

Maria Clara Bingemer – Seguindo o que acabo de dizer acima, a obra clariciana sim exprime uma certa mística. Nélida Piñon , grande amiga da escritora, afirma que Clarice é uma mística errática, sem filiação institucional precisa, sem uma religião determinada. Mas afirma que é uma mística. E toda a obra da escritora está perpassada por esse desejo maior, essa dinâmica de contínua autotranscendência que caracteriza o ser humano segundo a teologia. Assim, embora a mística que se encontra na literatura de Clarice não possa ser identificada com esta ou aquela religião, inegavelmente se pode nela reconhecer suas raízes judaicas e outros traços que se encontram presentes inclusive em outras tradições, como a compaixão, a misericórdia, a humildade, a kenosis ou abaixamento, a comunhão com o diferente e até mesmo com o que é ou parece inferior, a alegria sem razão nenhuma, totalmente gratuita, que é dom não pedido nem merecido.

As personagens de Clarice fazem uma experiência mística, de união com o mistério, seja descendo ao fundo do criado como condição de comunhão, seja na compaixão que olha o outro em sua dor, em uma alteridade que só na morte encontrará sua libertação. A nosso ver, pode-se perceber a presença do mistério de Deus na experiência vital e na obra literária de Clarice, acenando para a condição constitutiva do ser humano como ser em contínua autotranscendência.

IHU On-Line – Em que obras, particularmente, esta dimensão mística de sua literatura aparece de forma mais evidenciada?

Maria Clara Bingemer – Eu diria que em todas, mas muito especialmente na Paixão segundo G.H. quando a escritora descreve o itinerário kenótico da personagem que sai de sua zona de conforto para ir para baixo. Ali recebe a revelação luminosa sobre sua pessoa mesma, assim também como sobre o mundo, sobre o outro, sobre a futilidade de sua vida, sobre o sentido da vida humana, sobre a necessidade de ir ao mais ínfimo para ali comungar e entrar em contato com a matéria a fim de encontrar a transcendência. O itinerário da personagem G.H. termina na adoração, que é a linguagem do silêncio que louva, que crê, que espera, e que é indizível e inefável. Não pode ser dito com palavras humanas.

Também na Hora da Estrela aparece uma dimensão mística mais horizontal, mais engajada, na compaixão que suscita no narrador – Clarice – o drama da pobreza e da opressão vividos por uma moça nordestina, Macabéa. Macabéa é nome bíblico, hebraico, remete aos Macabeus, movimento judeu de libertação, que gerou mártires. A vida de Macabéa é um martírio, um testemunho, que denuncia a desigualdade injusta da sociedade e aponta os pobres e humilhados como os privilegiados de Deus. A forma como Clarice descreve a vida “de menos” e o corpo “cariado” da moça vão desembocar na narrativa de sua morte que é para o olhar teológico narrativa absolutamente pascal. E há toda uma mística por trás da narrativa que se encontra com o melhor da tradição judaico-cristã, onde fé e justiça andam de mãos dadas.

IHU On-Line – Que Deus se revela na obra de Clarice? Como ela ultrapassa as tentações de um Deus banalizante em direção a um Deus místico?

Maria Clara Bingemer – O Deus que se revela na obra de Clarice está mais perto do Deus de Israel do que do Deus do Cristianismo. É o Totalmente Outro que se revela mas mantém sua majestade e sua diferença para com o ser humano que, no entanto, o deseja e o busca. Mas esse Deus vem ao encontro do desejo humano e abre as portas de um mergulho existencial mais profundo, propicia uma saída da banalidade das coisas e oferece ao ser humano um encontro em profundidade consigo mesmo e com o outro.

De acordo com a mística bíblica, o Deus de Clarice se dá pela mediação do encontro consigo mesmo e pelas relações humanas que revelam a cada um o que é e dizem da identidade própria e do outro. Assim o Deus que se revela na obra de Clarice não passa pelas mediações religiosas mais canônicas, das religiões institucionais, mas acontece no fundo mais profundo da vida humana: na relação amorosa, na tomada de consciência sobre o sentido da vida, no mergulho kenótico existencial até o mais baixo da realidade, na pobreza e vulnerabilidadae do outro que, qual epifania, se manifesta questionando o ego.

Clarice ao longo de sua obra deixa transparecer essa busca e esse encontro incessante com esse Deus, que às vezes tenta expressar na linguagem, muitas vezes sem consegui-lo. Como tão bem expressou a escritora em outra obra, Água Viva: “Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Faltam as palavras. Mas recuso-me a inventar novas: as que existem já devem dizer o que se consegue dizer e o que é proibido. E o que é proibido eu adivinho. Se houver força. Atrás do pensamento não há palavras: é-se. Minha pintura não tem palavras: fica atrás do pensamento. Nesse terreno do é-se sou puro êxtase cristalino. É-se. Sou-me. Tu te és.”

Ou ainda em carta a Lúcio Cardoso: “Deus me chama a si quando eu necessito dele... É que eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde está sua fonte”.

IHU On-Line – Em sentido mais amplo, como a literatura pode ser um exercício de ascese espiritual?

Maria Clara Bingemer – Como toda arte – e aqui falamos de arte da palavra – a literatura encontra sua fonte na inspiração. E o artista é chamado a responder a essa inspiração que ele não sabe de onde vem, mas apenas que vem. Por isso a teologia e a literatura têm afinidades evidentes. Ambas dependem dessa inspiração. E ambas demandam uma ascese, ou seja, um exercício espiritual para que cheguem a acontecer.

O trabalho artístico e o teológico exigem dedicação, purificação, disciplina, humildade, abertura e sobretudo escuta, que se dá no silêncio e na atenção ao outro, ao mundo, ao mistério. Então a literatura é sem dúvida e pode ser sempre mais um exercício não só de ascese, mas de experiência espiritual às vezes dolorosa, mas também gozosa.

IHU On-Line – O que é e como podemos compreender o significado de teopoética?

Maria Clara Bingemer – Uma das características do ser humano, uma das “constantes” que aparece em sua identidade constitutiva é o dom de passar além do sensorial e aceder ao espiritual. E aqui entendemos por “espiritual” tudo aquilo que direta ou indiretamente se encontra conectado com o espírito, com a dimensão humana que passa além dos cinco sentidos. Está incluída aí a estética sob as suas diversas formas. E também a religião.

O Espírito informa e conforma a corporeidade e faz com que o ser humano seja o terreno fértil e propício para que a Palavra – que não tem origem manipulável e direta, mas vem de uma não origem, de mais longe do que um palpável começo – encontre morada e acolhida. Para falar deste mistério, conceitos e enunciados são importantes e pertinentes, mas os místicos e poetas de todos os tempos nos dizem que há mais possibilidades, sempre abertas, de propor o discurso teológico. Há maneiras de falar de Deus mais poéticas, evocativas, empatizantes, performativas, implicantes, esperançadas... que movem mais o leitor que a simples “passividade” assimilativa...

A teologia se entende como discurso sobre Deus, mas não é tanto chamada a falar “sobre” a espiritualidade, mas a ser ela mesma um “discurso espiritual”. Teologia e espiritualidade não podem dissociar-se sob pena de desvertebrar a primeira e banalizar a segunda. A teologia deve ser uma aventura espiritual concreta. Não somente “teopoética” mas “teo-práxis”. Mais precisamente ainda, uma “teo-poiética”.

Há, portanto, momentos e situações em que para entrar em contato com o Mistério que o habita sob a forma de desejo e sede, o ser humano recorre à linguagem poética para fazê-lo. Se ainda restam dúvidas, basta voltar-se para a Bíblia. Ali podem ser encontrados diversos gêneros literários e o poético, o estético, o hínico, a invocação, o louvor, nos vêm ao encontro em cada linha e em cada letra. É novamente Ricoeur que nos vai advertir que através de todos estes gêneros e estilos, que são como um bordado multicor e complexo, passa um fio mais espesso, que e como uma medula vertebral, carregando uma revelação misteriosa e próxima: a revelação do mistério divino, personagem central do texto, “coisa” do texto. E por trás do texto e dos gêneros – profético, narrativo, prescritivo, sapiencial ou hínico – palpita a experiência de Alguém que se esconde e se mostra através da palavra, da música, do canto. Alguém que é mais que palavra, que é pessoa que se deixa experimentar como mistério de encontro e amor.

Por isso, a importância da Teopoética, que aproxima e cruza teologia e poesia, teologia e literatura, teologia e estética de um modo geral. Diante da suspeita de que a estética seja alienante, pode-se sustentar que muitas vezes é a leitura de uma obra literária, a experiência da recitação de um poema, o ouvir de uma música, o ritmo de uma celebração os que provocam a experiência espiritual que, por sua vez, gera a teologia.

O teólogo aí é o poeta da Palavra de Deus, seu bardo, seu cantor, que “não escolhe seu cantar, mas canta o mundo que vê”, que “louva o que é para ser louvado” e se cala, cala-se a vida, porque a vida é todo um canto. E se o cantor do Mistério silenciar, morrem de espanto a esperança, a luz e a alegria. Os pobres ficam sozinhos, pois já não têm quem fale por eles.

O desgaste das fórmulas, o envelhecimento das rubricas, a rigidez dos documentos, tudo isso conclama a novas formas, novos poemas, nova teopoética que seja ao mesmo tempo teopoiética. E a teologia cristã é chamada, com a ajuda da “nuvem de testemunhas” que iluminam estes mais de 2000 anos de estrada, a “dar razão “desta esperança partindo dos êxtases dos místicos, da beleza das liturgias, da inspiração da poesia, da vitalidade da literatura, do dom divino da música. Em suma, das maravilhas que o Espírito de Deus cria e recria sem cessar na carne e no espírito humanos.

O teólogo, portanto, está longe de ser um repetidor de formulações dogmáticas, mas é chamado mais que nunca a ser um hermeneuta da experiência do divino na sua fé e em diálogo com outras religiões e outras áreas de saber; um poeta da sede de Deus e da fonte de água viva que a sacia.

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