Edição 547 | 05 Abril 2021

O impensável na literatura de Clarice Lispector

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Ricardo Machado

Para Evando Nascimento, as obras de Clarice Lispector trazem à baila temas sobre os quais a tradição europeia acabou negligenciando um debate mais profundo, tais como a relação entre o humano e o não humano

Pensar o impensado é tarefa que a literatura realizou sempre com mais liberdade e isso aparece com força na obra de Clarice Lispector. “Diria que literatura ou escrita pensante é aquela que permite pensar o impensado ou o impensável da chamada cultura ocidental. Há diversos aspectos que a tradição de origem europeia, sobretudo a filosofia, tratou pouco, tratou mal ou simplesmente ignorou, e que se encontram tematizados pela ficção de Clarice. Um desses temas seria, por exemplo, a relação entre o humano e o não humano”, pondera o professor, pesquisador e escritor Evando Nascimento, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“É a desestabilização do conceito humanista e antropocêntrico que leva a escrita segundo Clarice aos limites da tradição ocidental, já que outras culturas, como as ameríndias e as africanas, se conectam de modo especial e solidário com aquilo e aqueles que não somos, as alteridades vicinais”, complementa o entrevistado. Tal característica coloca Clarice no centro das grandes questões éticas e políticas de nosso tempo, que é a revalorização de todos os viventes. “Ao trazer à baila universos pouco ou maltratados, como são as formas de vida dos animais, das plantas e das coisas, a literatura de Clarice sem dúvida dá sua contribuição a esse processo descolonizador geral. Mas cabe analisar cada história, cada fragmento, cada anotação ou crônica da autora”, pondera.


 

Evando Nascimento é escritor, ensaísta, artista visual e professor universitário na Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. É graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia - UFBA e em Licenciatura em Literatura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, realizou mestrado em Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e doutorado em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. É autor de vários livros de ficção finalistas em prêmios internacionais, dos quais destacamos A desordem das inscrições (Contracantos – 7Letras, 2019), Cantos profanos (Rio de Janeiro: Globo/Biblioteca Azul, 2014), Cantos do mundo (Record, 2011) e Retrato desnatural: diários 2004 – 2007 (São Paulo: Record, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem é Clarice Lispector? O que define sua literatura?

Evando Nascimento – Essas duas perguntas são demasiado abrangentes, e é impossível dar uma resposta pontual. Quanto à identidade civil de Clarice Lispector, remeto às três biografias existentes: a de Nádia Gotlib (Clarice: uma vida que se conta [São Paulo: Edusp, 2013]), a de Teresa Monteiro (Eu sou uma pergunta[Rio de Janeiro: Rocco, 1999]) e a de Benjamin Moser (Clarice[São Paulo: Companhia das Letras, 2017]), com destaque para as duas primeiras.

Do mesmo modo, não há como definir em poucas palavras uma literatura tão complexa. Tudo o que posso dizer é o que significam para mim a autora e sua obra. Comecei a ler Clarice assim que entrei para a Universidade, em 1979. Minha primeira leitura foi A Legião estrangeira (Rio de Janeiro: Rocco, 1999), num curso de graduação com Evelina Hoisel. Foi alumbramento imediato. Entre tantas preciosidades, me fascinaram “Os desastres de Sofia”, “A legião estrangeira”, “A quinta história” e “O grande passeio”. As duas primeiras trazem a vivência do universo feminino infantil em contraste com o universo adulto masculino e feminino, e os inevitáveis choques que daí surgem. Já “A Quinta história” reescreve as Mil e uma noites por meio do gesto banal de matar baratas – no entanto, em Clarice, o mais banal cotidiano se torna uma experiência de encontro com a alteridade, no caso, a relação entre o humano e o inseto, o qual configura um certo “retorno do recalcado”. “O grande passeio” aborda a solidão e o ;abandono na velhice. Nessas e noutras histórias, as mulheres são protagonistas e/ou narradoras, porém sem jamais cair em clichês de feminilidade, ao contrário, reinventando o lugar delas no mundo.

IHU On-Line – O que é a “literatura pensante” de Clarice Lispector e como ela nos convida, com o perdão da redundância, a pensar nosso pensamento?

Evando Nascimento – “Literatura pensante” foi uma categoria que inventei por volta de 1992, quando estudava em Paris com Jacques Derrida e preparava minha tese de doutorado. No livro que se originou da tese, o Derrida e a literatura (São Paulo: ed. É Realizações, 1999), já explico em grande parte o sentido da expressão, que retomarei noutros ensaios. Em 2012, lancei o livro a que sua pergunta faz alusão, Clarice Lispector: uma literatura pensante (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012). A partir dessas referências, e de maneira bem resumida, diria que literatura ou escrita pensante é aquela que permite pensar o impensado ou o impensável da chamada cultura ocidental. Há diversos aspectos que a tradição de origem europeia, sobretudo a filosofia, tratou pouco, tratou mal ou simplesmente ignorou, e que se encontram tematizados pela ficção de Clarice. Um desses temas seria, por exemplo, a relação entre o humano e o não humano, em particular os animais e as plantas. Textos como Água viva Rio de Janeiro: Rocco, 2020), A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020), O ovo e a galinha, Cem anos de perdão, entre inúmeros outros, abrem novas perspectivas sobre essas nossas alteridades vicinais. No livro, dou mais ênfase aos animais, mas já trato também das plantas. Recentemente, escrevi alguns ensaios sobre “Clarice e as plantas” , o primeiro deles foi publicado na revista lusa Caliban, que se encontra on-line – os outros estão no prelo.

IHU On-Line – Na obra clariciana, os mundos surgem da fagulha do contato do Eu com o Outro. Como a alteridade é, em certo sentido, demiúrgica em sua obra?

Evando Nascimento – A palavra demiurgo remete etimologicamente para “do povo”, “público” e “aquele que produz”, “produtor” (demio e ourgos). Em grego, o dēmiourgós significava o artesão, o médico, o “artista”. O demiurgo era um fazedor. No sentido moderno, a palavra se refere ao criador, aquele que dá forma à matéria. Na ideologia romântica, todo artista, todo escritor, é um demiurgo, um pequeno Deus. Há diversas referências a Deus em Clarice, mas não se pode dizer que seja o Deus cristão ou o dos judeus. É antes um personagem a que o texto se refere como uma instância que transcende o comum. Em Um sopro de vida Rio de Janeiro: Rocco, 2020), desde o título, há a ideia de que o Autor é um demiurgo que se relaciona com Ângela Pralini, sua personagem. Todo o livro se organiza em torno dessa relação tensa entre o Eu-escritor e a Outra, o personagem-criador e a personagem-criatura, a qual também escreve. Ângela de algum modo vai muito além do universo masculino de seu criador – ela inclusive se relaciona com outros não humanos a que ainda não me referi: os objetos e as coisas em geral, dando-lhes plena existência, mais além da serventia como instrumentos ou utensílios para nós. E já que esta é uma entrevista por escrito, transcrevo um trecho do livro de Ângela: “E então eu respiro. E então eu tenho a liberdade de escrever sobre as coisas do mundo. Porque é óbvio que a coisa está urgentemente pedindo clemência por exagerarmos o seu uso. Mas se estamos numa época de mecanicismo, damos também o nosso grito espiritual”. Em seguida, a personagem-escritora assume a autobiografia de Clarice Lispector e refere outros textos, como A cidade sitiada, em que o tema dos objetos aparece. As coisas e os objetos constituem em relação a nós uma alteridade radical. E isso se faz segundo o que chamo de bioficção ou bioescrita, ou seja, a escrita de uma vida ficcionalizada.

IHU On-Line – De que maneira o feminino aparece em seus escritos e como isso nos ajuda a pensar questões de gênero?

Evando Nascimento – Já há uma tradição de leituras de Clarice relacionando sua obra ao feminino. Os trabalhos da escritora e teórica francesa Hélène Cixous , por exemplo, são uma referência. Chamo a atenção, no entanto, para o fato de não haver uma essência do feminino na ficção clariciana. Há situações que as narradoras e as personagens vivenciam e caracterizam o que se chamava até o início dos anos 2000 de “condição feminina”. Pois um dos efeitos poderosos de um livro como Água viva é o de romper com os clichês dessa condição: a narradora é uma artista-escritora que se entrega a uma experiência sensorial múltipla, a qual vai muito além do universo da dona de casa. Em contos como “Amor”, “Laços de família”, “A imitação da rosa”, entre outros, há um questionamento intensivo do aprisionamento das mulheres ao simples papel de esposa submissa.

Sou também fascinado por Joana, protagonista do primeiro livro de Clarice, Perto do coração selvagem (Rio de Janeiro: Rocco, 2019). É uma jovem rebelde, que eu não hesitaria em chamar de “protofeminista”. Não que o texto seja fruto de militância feminista, mas porque a personagem põe em questão as relações de gênero tradicionais. É o que chamo de “sensitiva”, aquela plantinha que se retrai como um animal quando tocada. Joana combina em si um duplo componente intelectual-questionador e sensível. O romance é uma das ficções mais sensoriais de nossa literatura e da literatura universal, mas também uma das mais reflexivas. Não por acaso, o livro sacudiu o arraial masculinista da crítica literária, quando foi lançado nos anos 1940. Todos os críticos de renome comentaram essa esplendorosa estreia, mas nem todos compreenderam...

Por essas e diversas outras razões, a ficção clariciana é muito libertadora, rompendo com dogmas ancestrais.

IHU On-Line – Como o humano é constituído por Clarice Lispector em sua literatura? Até que ponto sua obra propõe um olhar não antropocêntrico?

Evando Nascimento – Em praticamente toda a obra ficcional de Clarice, a categoria metafísica do Homem como gênero (masculino) e como espécie está em questão. Por razões do que o pensador franco-argelino Derrida chamou de falocentrismo ou falogocentrismo, a categoria Mulher em nossa cultura jamais poderia ser sinônimo de humanidade. Em diversas histórias de Laços de família, que é um livro de contos escrito nos anos 1950, publicado em 60, o lugar tradicional da mulher é posto em questão, tal como referi na resposta anterior. Isso libera o feminino para uma potência de reflexão que a meu ver atinge momentos de alta voltagem em Água viva, texto narrado e descrito por uma voz feminina, que estabelece um diálogo com possíveis leitores e leitoras mas também com um “tu” ausente. O fascinante nessa quase-novela é pôr em cena a vida das plantas (especialmente as flores) e dos animais, bem como a dos objetos.

Em Clarice, o humano só pode ser verdadeiramente pensado em sua perspectiva com o não humano. Exemplo disso é o personagem Martim, de A maçã no escuro, que, após uma travessia no “deserto”, se desconstrói como forma-Homem, vindo a ter um encontro-limite com as vacas no curral. Há uma animalidade do humano, e algo de humano no animal que aflora também nas histórias de Onde estivestes de noite. É a desestabilização do conceito humanista e antropocêntrico que leva a escrita segundo Clarice aos limites da tradição ocidental, já que outras culturas, como as ameríndias e as africanas, se conectam de modo especial e solidário com aquilo e aqueles que não somos, as alteridades vicinais.

Clarice redimensiona o humanismo sem incidir num anti-humanismo, nem propriamente no que se convencionou chamar, na passagem do século, de “pós-humano”. Vejo-a mais do lado do que nomeio como outro humanismo, que será o humanismo do outro e da outra, o qual já está vindo, e é reivindicado por grupos marginalizados em relação à cultura falocêntrica: as próprias mulheres, os afrodescendentes, os indígenas, os participantes dos grupos LGBTQIA+, os pobres em geral. Isso corresponde à “solidariedade dos viventes”, expressão utilizada por Derrida numa entrevista a mim concedida em 2001 para Folha de S. Paulo . Desenvolvo esta e outras ideias num livro que ora concluo intitulado O pensamento vegetal: por um outro humanismo, no qual há um longo capítulo sobre “Clarice e as plantas”, temática que referi anteriormente. Isso é o que, para mim, está em jogo doravante nessa segunda década do século XXI, em termos ético-políticos: uma revaloração de todos os viventes, pois todas as vidas importam e merecem ter seu valor reconhecido.

IHU On-Line – De que forma os animais são tratados na literatura de Clarice e o que isso traz de novidade em relação a como pensamos nossas formas de vida?

Evando Nascimento – Também é impossível sintetizar a resposta numa única formulação. Darei um exemplo, mas haveria muitos outros. “Tentação” é uma bela e curta narrativa de A legião estrangeira, que começa descrevendo uma menina ruiva “numa terra de morenos”, na rua, defronte ao ponto do bonde, sob sol escaldante e com soluço. Toda a atmosfera sugere intenso calor e desconforto, além de certa solidão da garotinha. Súbito aparece “a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú”, que é um bairro da Zona Norte do Rio, portanto não turístico. Quem dobra a esquina e subitamente se dá a ver é um basset, cão ruivo como a menina, acompanhado por sua dona, uma adulta. Há então um encontro de duas alteridades irmanadas: a garotinha e o cão. Inclusive a voz narrativa não hesita em igualá-los em sua “animalidade” comum: “Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos”. É um verdadeiro acontecimento, marcado por forte empatia ou até mesmo amor, no sentido clariciano. Como explico em diversos ensaios, o encontro com a alteridade possibilita uma intertroca de papéis. O verbo intertrocar comparece em A hora da estrela (Rio de Janeiro: Rocco, 2020), quando o narrador Rodrigo S.M. diz: “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um ruflar de tambor – no espelho aparece meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos”. A intertroca é uma experiência forte de amor para com a alteridade: sem haver uma metamorfose, ocupa-se provisoriamente o lugar do outro ou da outra, tem-se a experiência de se tornar outro/outra, e com isso ocorre uma alteração do próprio eu individual. Não por acaso o conto se chama “Tentação”, pois narra o processo de mútua sedução entre humano e animal, numa identificação amorosa que será interrompida por causa da “infância impossível” dela e da “natureza aprisionada” dele. Os dois se separam, mas a marca da intertroca humano-animal ficou, é indelével, como o verdadeiro amor.

IHU On-Line – Como todos esses atravessamentos, pelos quais se inscreve a literatura de Clarice Lispector, produz tensionamentos às formas coloniais de saber e abre novos horizontes?

Evando Nascimento – Há que se ter algum cuidado com a terminologia do decolonial ou, como prefiro, do descolonial, pois não vejo por que importar sem nenhuma adaptação uma terminologia de origem anglo-saxã, mas cuja etimologia é na verdade latina. Sem dúvida, grande parte da História global, e não somente no chamado Ocidente, se fez por meio de colonialismos. Há que se compreender a relação íntima entre cultura e colonização. Toda cultura é colonizadora, mesmo a mais pacífica, porque se estabelece num local para se desenvolver, e isso implica a exclusão de outras possibilidades culturais. O que na segunda metade do século XX se tornou objeto de grande questionamento foi a hegemonia das culturas de origem europeia, sobretudo da Europa ocidental, e dos Estados Unidos sobre o resto do mundo. Sendo assim, uma certa imago da masculinidade branca, falante de línguas europeias, se tornou alvo de toda espécie de críticas e desconstruções. Ao trazer à baila universos pouco ou maltratados, como são as formas de vida dos animais, das plantas e das coisas, a literatura de Clarice sem dúvida dá sua contribuição a esse processo descolonizador geral. Mas cabe analisar cada história, cada fragmento, cada anotação ou crônica da autora. É muito ruim vincular uma produção extremamente complexa a uma única significação, seja ela tão decisiva quanto a dos novos “anticolonialismos”. Os horizontes só se abrem quando se leem atentamente as histórias e a História, levando em conta os detalhes textuais e contextuais.

IHU On-Line – Como a literatura de Clarice expressa o bem e o mal? Parece-lhe que, em certo sentido, ela privilegia o debate sobre o mal em sua obra?

Evando Nascimento – Sumariamente, eu diria que, como leitora de Nietzsche que ela também foi (uma das epígrafes de Um sopro de vida é dele), sua obra se situa mais além do bem e do mal. Isso está muito claro já em Joana, a qual comete uma série de transgressões que a qualificariam como maligna, tal como a tia a vê. E no entanto, para mim, como leitor, ela é uma personagem de grande liberdade. O mesmo acontece com Martim, que aparentemente teria praticado um crime, mas nem por isso se qualifica como “bandido”. São “malignidades” encenadas, justamente para pôr em dúvida nossos valores morais. É nesse contexto que uma outra ética aflora, a ética do radicalmente Outro. Remeto para A paixão segundo G.H., mas também para esse livro crucial e pouco compreendido que é A via crucis do corpo.

IHU On-Line – Clarice Lispector é uma escritora que desperta paixões antagônicas. Há quem veja em sua literatura um classicismo. Até que ponto críticas como esta são pertinentes?

Evando Nascimento – Não sei a que críticas exatamente você se refere, então não posso comentá-las de forma direta. Classicismo é um termo demasiado amplo...somente posso comentar que, ao longo da obra, há oscilações entre linguagens mais experimentais e linguagens menos experimentais, sem nunca cair em banalidades inócuas. É o que eu chamaria de “os estilos de Clarice Lispector”, que são vários, e por isso mesmo a oposição clássico/não clássico pouco resolve. Um texto como o citado “Tentação” parece muito “clássico” na forma, mas o modo de enunciação e a experiência relatada são completamente inusitados, “estranhos” até, no sentido do Unheimliche freudiano. Já “O ovo e a galinha”, A paixão segundo G.H. e Água viva são experimentos radicais de linguagem, que geram grande desconforto em muitos leitores. Aliás, para os que não admiram propriamente a obra clariciana, existe um verdadeiro clichê: em geral, essas pessoas apreciam muito os contos, que consideram primorosos, mas desqualificam os romances... Para mim, elas pouco compreenderam da proposta ficcional e existencial da autora e fazem uma leitura rasa.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Evando Nascimento – Considero que agora neste século a obra de Clarice está sendo de fato descoberta, ao deixar de ser cultuada apenas por especialistas e admiradores. As novas traduções para o inglês e para o espanhol, bem como para o francês e diversas outras línguas, têm dado a visibilidade internacional que lhe faltava. Eu mesmo tive dois ensaios publicados em edições argentinas de A legião estrangeira e de Água viva, pela Corregidor. Faz quatro anos, participei de uma banca de doutorado na Université de Paris VIII, escrita por uma italiana. No ano do Centenário, fiz diversas intervenções e pude testemunhar uma multiplicidade de eventos, que vão se desdobrar em publicações, aqui e lá fora. Só este ano, sairão ensaios meus numa coletânea organizada por Yudith Rosenbaum, da USP, outra por Júlio Diniz da PUC-Rio, além do catálogo de uma exposição no Instituto Moreira Salles de São Paulo, por Eucanaã Ferraz e Verônica Stigger . Isso dá grande alento porque as celebrações não ficarão limitadas à efeméride do ano passado. A tendência é haver cada vez mais desdobramentos. Essa obra tem muito porvir!

Para concluir, uma observação pessoal: minha relação com Clarice é de grande liberdade. Não me considero seu seguidor, menos ainda um epígono. Falo agora como escritor: nenhum de meus críticos leitores sinalizou qualquer subserviência em relação à ficção clariciana. Ocorre o que chamo de confluência em vez de “influência”. As “águas” claricianas confluem para o que faço, me alimento delas, mas elas também necessitam de meu “curso” para continuarem existindo. Se não houver leitores, nenhuma obra se sustenta, por isso mesmo não há subserviência – ambos ganham, no caso, autora-inventora e autor-leitor. As questões do humano e do não humano, que leio em Clarice, se encontram também noutros autores que me são caros, como Borges , Rilke , Guimarães Rosa , Drummond e Kafka . Assim, são muitos “rios” confluentes, todos de grande importância para o escritor que sou, Clarice sem dúvida está entre os mais “caudalosos”. É o que nomeio também como “estética da emulação”. Emular, em sentido contemporâneo, não é imitar nem copiar, é transformar o legado da outra e do outro, dando-lhes novas configurações. Nas ficções ou nos ensaios interpretativos, é isso que procuro fazer, sempre.

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