Edição | 05 Abril 2021

Os caminhos enigmáticos de busca mística em Clarice Lispector

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Ricardo Machado

Faustino Teixeira apresenta a obra da escritora radicada no Brasil perscrutando suas dimensões místicas

Clarice Lispector é, sobretudo, uma escritora que fez do enigma sua literatura. É nesse intrincado mas profundo mundo de inteligibilidade literária que sua experiência mística emerge. “A linguagem mística brota viva de uma experiência particular, que é única e intraduzível. Abre um espaço novo, sem o qual o seu protagonista não pode mais viver”, pontua Faustino Teixeira em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Em Clarice, fica evidenciada uma imagem bastante spinozana de Deus, em que, dizia ela, “encontrava uma confirmação de sua própria rejeição do ‘Deus humanizado das religiões’ (...). ‘A ideia de um Deus consciente é terrivelmente insatisfatória’”. O entrevistado recorda que a escritora “vive uma ânsia por ‘estados de graça’” e, como ela mesma descrevia, “nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia das pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve”.

Na entrevista a seguir, Faustino perscruta com delicadeza e argúcia a mística de uma das escritoras do século XX mais aclamadas e conhecidas. “É uma literatura carregada de atmosfera mística. A presença da mística revela-se significativa no precioso romance Perto do coração selvagem, no qual pressentimos uma forte presença do filósofo Spinoza”, frisa.


 

Faustino Teixeira possui graduação em Ciências das Religiões pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, graduação em Filosofia pela UFJF, mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente é professor convidado da UFJF, no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, depois de sua aposentadoria como professor titular na mesma Universidade, em 2017. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Sistemática, atuando principalmente nos seguintes temas: religiões, pluralismo religioso, diálogo inter-religioso, catolicismo e mística.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que a literatura, em geral, tem a nos ensinar em termos de mística?

Faustino Teixeira – Esse foi um tema que abordei em prefácio num precioso livro publicado pela editora Mauad, em fevereiro de 2018, com organização de Jimmy Sudário Cabral e Maria Clara Lucchetti Bingemer. Ali tratei da questão e retomo aqui alguns dos pontos que destaquei. O título do prefácio era: O mistério e a palavra.

Mesmo reconhecendo a incapacidade da linguagem em comunicar a intensidade da experiência, os místicos e poetas sabem que ela é tudo o que possuem para aproximar-se desse objetivo impossível. É na dinâmica da palavra e em seu potencial criativo que ocorre o “movimento enigmático” de ruptura de fronteiras, de resistência à opacidade do tempo, de abertura, ainda que limitada, às cores vibrantes e sutis do Real. Como tão bem sinaliza Pablo Neruda, “algo canta entre estas palavras fugazes”. Ou também o grande místico persa, Rûmî:

“Enlaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!”

Um leito comum irmana a mística e a poesia: a experiência amorosa, o enamoramento das pequenas grandes coisas e a atenção aos sinais do cotidiano.

Contrariando ao que se pensa, a densidade da experiência amorosa não destaca o místico de seu tempo, mas provoca um “desaforado amor pelo todo” . No ápice da união, é toda a beleza do mundo que readquire senso e valor, agora de forma mais ampla e profunda. Com base em reflexão sobre João da Cruz , María Zambrano sublinha que não ocorre um abandono da realidade, mas um adentrar-se nela, em sua viva espessura, com outra perspectiva e foco. E complementa: “Não é o nada, o vazio, o que aguarda a alma em sua saída; nem a morte, mas a poesia que abriga todas as coisas com sua inteireza presença” .

De forma semelhante ao que ocorre na linguagem mística, a poesia adentra-se na espessura do Real, suscitando a “redescoberta da novidade perene da vida nas pequenas/grandes coisas do dia a dia” .

Um claro exemplo pode ser visto nos trechos do poema Eu vi uma rosa, de Manuel Bandeira:


“Eu vi uma rosa
- Uma rosa branca -
Sozinha no galho.
No galho? Sozinha
No jardim, na rua. (...)

A graça essencial,
Mistério inefável
- Sobrenatural -
Da vida e do mundo,
Estava ali na rosa
Sozinha no galho”.

A peculiaridade da focalização poética faculta uma intensidade única, capaz de desvendar na “estreiteza do finito, a extensão do infinito”. Segundo José Paulo Paes, “a visão poética isola aqui um pormenor do mundo para o rever com uma intensidade tal que nele se engolfa por inteiro, esquecida da natureza circundante, agora excessiva ante a plenitude da rosa” .

A linguagem poética tem esse dom de “iluminar a linguagem de todos os dias” e desocultar ali um significado aberto e novo: “As cores próprias da vida se adensam, dançam e se desprendem em redor da visão que se elabora” . Tem igualmente o potencial de rememorar a presença do aberto e ilimitado que margeia o mundo impermanente.

A poesia traz consigo o dom de ouvir o “canto das coisas”. Na busca incessante de “significar o máximo com o mínimo”, ela recorre a “todos os recursos expressivos disponíveis do idioma” . Em muitos casos, a sede de alcançar a experiência provoca uma “afirmação sintaticamente improvável”. Não se satisfazendo com o “mundo da frase pronunciada”, o poeta ousa mais, reiventando formas de expressão capazes de corresponder à sua ilimitada ânsia de superação. O caso de Rimbaud é sugestivo, em seu mergulho no desconhecido para trazer o novo:

“Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco, I rubro, O azul, U verde. – Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de inventar um verbo poético acessível, algum dia, a todos os sentidos. (...) Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens” .

Como sublinha Ivo Barroso, “ler a poesia de Rimbaud é se dar conta de um incêndio estilístico, em que esse aventureiro do verbo vai queimando as pontes por onde passou, evoluindo ou mudando de rumo quase a cada verso, numa busca ou numa fuga em direção ao Insabido, ao Transcendente, ao Nada” . Esta poesia é um dos melhores exemplos para poder entender a ousadia da linguagem mística. Há uma sede intensa no coração do poeta, que parte “com amor infinito” e a “alma acesa” em busca de “afetos e rumores novos”.

A linguagem mística brota viva de uma experiência particular, que é única e intraduzível. Abre um espaço novo, sem o qual o seu protagonista não pode mais viver: “uma necessidade nele se eleva, sob o sinal de uma música, de uma palavra ou de uma visão vinda de outros lugares” . Mesmo assim, o místico busca comunicar essa experiência incontida na alma.

No prólogo do Cântico Espiritual, João da Cruz assinala a impossibilidade de explicar com clareza, por meio de palavras, as “expressões amorosas da inteligência mística”. Daí a razão de se empregar “estranhas figuras” para esboçar ou acenar algo vivido na experiência. Para o olhar desatento e comum, tais expressões soam como “dislates” ou disparates, mas na verdade traduzem um saber que é fruto do amor .

A ousadia e audácia da linguagem mística vêm justificadas por Michel de Certeau , que reconhece a singularidade de uma licença para usar termos particulares e fora de comum. E isto ocorre em razão dessa linguagem tratar de coisas sublimes, sagradas e secretas, que tocam mais de perto a experiência que a especulação.

A linguagem mística traduz uma “manipulação técnica das palavras”. Trata-se de uma prática de “destacamento”, em que a língua vem “desnaturada”, perdendo sua função de imitação das coisas. As palavras são “atormentadas” para poderem dizer o que literalmente não conseguem . A linguagem é frágil para poder alojar o que se vive. Como indica Angel Valente, “o místico situa-se, paradoxalmente, entre o silêncio e a loquacidade”:

“A experiência do místico é uma experiência absoluta, mas pertence, porém, de algum modo, ao mundo da mediação. Entre o silêncio e a palavra, este vazio intersticial, de que fala Lílian Silburn (Le vide, le rien, l´abîme), não pode ser reduzido nem ao silêncio nem à palavra e é exigido por ambos. Identificação com o vazio indizível, a experiência do místico aloja-se na linguagem forçando-o a dizer o indizível enquanto tal” .

O recurso ao símbolo aparece como exigência da linguagem mística, na medida em que favorece um “abismo de intuições” e fidelidade à profundidade da experiência.

O místico é alguém que vive um “tumulto” interior em razão da presença iluminadora de algo não natural, que o envolve e abrasa . Em decorrência dessa visita interior, ele passa a viver desassossegado, buscando romper a crisálida de seu ensimesmamento em direção ao mistério maior que o convoca. Não há como seguir vivendo da mesma forma: há que “atravessar os umbrais da vida”. Nada pode fixá-lo, nada pode matar sua implacável sede, senão o Mistério que o habita. Um mistério, porém, cuja fragrância encontra-se presente em toda a criação, daí seu amor universal.

IHU On-Line – Particularmente, como a literatura de Clarice Lispector nos inspira misticamente?

Faustino Teixeira – É uma literatura carregada de atmosfera mística. Como diz Benjamin Moser , no que considero sua melhor biografia , “O fato mais notável acerca da região de onde veio Clarice Lispector não fosse a pobreza nem a opressão, mas sua elétrica relação com o divino. Isolados e pobres, os judeus de Podólia eram frequentemente abalados por ondas milenaristas” . Naquele lugar se gestou “toda uma galáxia de santos-místicos, cada um deles uma espantosa individualidade” .

A presença da mística revela-se significativa no precioso romance Perto do coração selvagem, no qual pressentimos uma forte presença do filósofo Spinoza . Certamente ela tinha lido Spinoza e gostado muito. Buscava, na ocasião, “um amor intelectual de Deus”, que excluía misticismo ou adoração. Dali vem seu amor profundo à natureza e aos animais: uma busca de “reintegração e continuidade”.

Um tema que foi desenvolvido com felicidade por Maria Esther Maciel . A autora cita, em particular o conto “O búfalo”, que aborda o encontro de uma mulher com um búfalo no zoológico para “adoecer” . Como indica a autora, “o olhar do búfalo leva, dessa forma, ao limite abissal do humano, como se a desvelasse, colocando-a em situação de perda e vertigem” . A resposta não é satisfatória: “Do que sabem os animais sobre os humanos ninguém sabe, mas tudo se imagina” .

Em rica seleção de textos escolhidos por Roberto Corrêa dos Santos, As palavras , ele retoma uma linda passagem tomada do romance A paixão segundo G.H.:

“Como se uma mulher tranquila tivesse simplesmente sendo chamada e tranquilamente largasse o bordado na cadeira, se erguesse, e sem uma palavra – abandonando sua vida, renegando bordado, amor e alma já feita – sem uma palavra essa mulher se pusesse calmamente de quatro, começasse a engatinhar e a se arrastar com olhos brilhantes e tranquilos: é que a vida anterior a reclamara, e ela fora” .

Clarice será sempre muito reticente quanto ao “Deus consciente das religiões, mas apenas porque ela ansiava tão desesperadamente pela perfeição e convicção que Spinoza, ele também, rejeitara como algo impossível” . Fica forte nela a marca spinozista do “Deus sive natura” (Deus, isto é, a natureza). Em Spinoza Clarice “encontrava uma confirmação de sua própria rejeição do ‘Deus humanizado das religiões’ (...). ‘A ideia de um Deus consciente é terrivelmente insatisfatória’, ela escreveu .

Certa vez ela foi presenteada com a obra Imitação de Cristo. Disse que leu “com um ardor de burra, sem bem entender, mas visava o perdão de Deus. Na sua visão, ‘quem imitasse Cristo estaria perdido – perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo’ – o Deus humanizado – ‘era a pior sensação’” .

O livro certeiro para entrar nessa complexa questão é o complexo A Maçã no escuro, em que aparece a questão decisiva da redenção pelo pecado. Como diz Benjamin Moser, “a loucura em A maçã no escuro é uma ferramenta positiva de conhecimento, não um meio de destruição” . E há na reflexão de Clarice nessa obra uma presença marcante do Lobo da Estepe, de Hermann Hesse . Esse livro exerceu sobre ela um verdadeiro “choque” inspiracional.

IHU On-Line – Como fica a questão do mal na obra literária de Clarice Lispector?

Faustino Teixeira – Essa é uma questão fundamental mas pouco abordada nos trabalhos sobre a escritora. Em geral é um tema dedicado pelos psicanalistas. O livro que trata disso de forma excelente é o de Yudith Rosenbaum . Ela é psicóloga, conhecida por seus trabalhos sobre Clarice Lispector, Manuel Bandeira e Guimarães Rosa . O livro que cito sobre o tema é: Metamorfoses do mal. Uma leitura de Clarice Lispector (São Paulo: Edusp/Fapespe, 1999).

O prefácio de seu livro, bem didático, foi escrito por Vilma Arêas, com o título sugestivo: Geografia perversa. A questão abordada por Yudith envolve o reencontro de Clarice com uma “subjetividade em crise”. Alguns contos servem de inspiração profunda para o tratamento do tema como “Obsessão” de A Bela e a Fera. Também o conto “A imitação da rosa” e “A quinta história”. E claro, o último capítulo de Paixão segundo G.H. Sublinha Vilma:

“A interpretação de A paixão segundo G.H., entendido como uma ‘epopeia negativa’, na medida em que a protagonista, abandonando a organização humana, se constrói inversamente a Ulisses, que privilegia a identidade de si mesmo. Mesmo no instante em que se encontram, Ulisses como ‘ninguém’, anulando-se para a autopreservação, e G.H. que ‘também assassina sua pessoa’, o movimento de ambos sinaliza caminhos opostos” .

IHU On-Line – O silêncio na narrativa de Clarice Lispector é um elemento simbólico crucial. Como tal característica nos convida a pensar nisso como um diálogo com Deus?

Faustino Teixeira – Para falar desse tema tão fundamental para a mística, chamo aqui a atenção para o conto O Lustre. Foi um livro difícil de encontrar uma editora para publicação, por ser considerado seu livro “mais estranho e mais difícil”. O livro vem movido por “intensidade glacial”. É quando a poeta “chega perto como nunca de espelhar em sua prosa a experiência real de escrever, que é feita de calmarias, tédio e fastio, pontuados apenas ocasionalmente por momentos de clímax e alegrias” .

Na visão de uma de suas grandes biógrafas e amiga, os olhos de Clarice são olhos que “perscrutam todos os mistérios da vida” . Como indicou Moser, “se a linguagem humana, curvada sob o peso da sintaxe reflexiva e dos significados padronizados, não é capaz de dar cabo sequer de uma experiência tão trivial, que utilidade ela pode ter para descrever algo maior?” Há sempre em Clarice um referencial de memória: “A descoberta do nome sagrado, sinônimo de Deus, era a meta mais elevada dos místicos judeus” .

Ela vive uma ânsia por “estados de graça”. Sublinha que “nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia das pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve” . Nesses estados especiais as descobertas “são indizíveis e incomunicáveis”, daí Clarice preferir nesses momentos manter-se “sentada, quieta, silenciosa”.

São estados que não se buscam, mas que se diafanizam. Eles vêm como “algo” espontâneo. E Clarice sente um temor reverencial. Diz que não é bom que venha tantas vezes, pois poderia se habituar à felicidade, e isto não é bom. E se viesse mais a miúdo diz que abusaria: “Passaria a querer viver permanentemente em graça. E isto representaria uma fuga imperdoável ao destino simplesmente humano, que é feito de luta e sofrimento e perplexidade e alegrias menores” .

IHU On-Line – Como está sendo o Curso Livre – Todas as crônicas de Clarice Lispector?

Faustino Teixeira – Minha paixão pela literatura vem de tenra idade. Na minha casa paterna havia dois cômodos de biblioteca, com farta literatura. Meu pai, Mozart Teixeira, era médico, mas sua paixão maior era a filosofia e a literatura. Comprava tudo. Em certo período da vida fui tocado de amores por Graciliano Ramos , e os livros São Bernardo (Rio de Janeiro: Record, 2019) e Vidas Secas (Rio de Janeiro: Record, 2019) foram dos mais impactantes em minha vida.

Depois veio Clarice, e esse amor desabrochou. Depois de minha aposentadoria na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde dediquei-me a três grandes temas, Teologia das Religiões, Diálogo Inter-religioso e Mística Comparada das Religiões, pude então ampliar o olhar abraçando os territórios da Antropologia e agora a Literatura.

Tenho comprado uma imensa quantidade de livros na área de Literatura. Dei três cursos sobre o Grande Sertão: Veredas (São Paulo: Companhia das Letras, 2017), e estou escrevendo um livro breve voltado à temática mística que envolve esse precioso livro. Depois de meu transplante de medula, ocorrido em junho de 2020, adotei como lema: “O que recebi como dom, retribuo como serviço”.

Decidi então dar cursos gratuitos e livres para ajudar as pessoas a conhecerem as coisas bonitas da literatura. Daí minha alegria de poder dedicar-me ao curso sobre as Crônicas de Clarice, que será uma alegre parceria entre o Paz e Bem, do amigo querido Mauro Lopes, e do IHU, cujo diretor, Inácio Neutzling, é amigo de antiga data. Fizemos juntos o Mestrado em Teologia na PUC-RJ e o Doutorado em Roma. Depois disso a amizade irradiou-se de forma bonita, e agora sou colaborador constante do IHU, que tem uma equipe de trabalho altamente profissional e de gabarito, com todo o apoio da Unisinos. Considero esse trabalho do IHU uma das coisas mais importantes que ocorre hoje no Brasil.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Faustino Teixeira – Gostaria de ao menos mencionar o lugar e a presença de suas irmãs em sua vida. Sobretudo nos momentos mais sombrios de depressão de Clarice Lispector, quando viveu no exterior, particularmente na Suíça, em Berna. Ali, naquele desterro, a presença de suas irmãs foi muito importante.

Clarice sempre menciona a imensa saudade que tinha delas. Vale a leitura do precioso livro Correspondências (Rio de Janeiro: Rocco, 2002). São singulares suas cartas a Lúcio Cardoso e Fernando Sabino , amigos queridos, e a outros queridos. Diz em sua correspondência para Elisa e Tania, suas irmãs, que as ama muito. Em carta de 01 de janeiro de 1948, dirigida de Berna à sua irmã Tania Kaufmann:

“Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros (...). Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de mulher de cinquenta anos. Tudo isso você não vai nem sentir, queira Deus. Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então...

Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagine que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único modo de viver.

Eu tenho tanto medo de acontecer com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer.

Se é que uma vida morna será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim”.

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