Edição 546 | 16 Dezembro 2019

A Babel de Scorsese

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João Ladeira

“O ar de humor sombrio de O Irlandês se estende por boa parte do filme; mas a queda de seus últimos instantes conduz ao ponto mais perverso do diretor”, escreve João Ladeira sobre a mais recente obra de Martin Scorsese.

Eis a resenha.

Cena do filme

O Irlandês (The Irishman, 2019) encerra um ciclo para Martin Scorsese. Desde Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), seus “filmes de máfia” amadureceram junto com ele. Essa extensa jornada atravessou Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990) e Cassino (Casino, 1995), e a exploração de tantos temas derivava de uma mesma sensibilidade: o caminho que leva ao pecado e à perdição.

Pois tais filmes versavam sobre homens buscando um modo de viver nesse mundo da matéria, em histórias construídas por quem sabe sobre a existência do inferno. Em 1973, Scorsese nos mostrou um personagem errático diante da crueldade indispensável a essa viagem. Em 2019, ele se debruça sobre alguém que não tem dúvidas sobre a perversão.

Pois Frank Sheeran (Robert De Niro) talvez seja uma das criaturas mais impiedosas que já se filmou. Na Film Comment de outubro, Rodrigo Prieto, diretor de fotografia de O Irlandês, narrou as exigências de Scorsese sobre a objetividade das cenas de assassinato nesse filme. Tudo deveria parecer o que significava para o pistoleiro: apenas um ofício frio.

Especialistas sem espírito...
Mas o matador não é o verdadeiro demônio do filme. Esse lugar está reservado para a face do diabo estampada no rosto magro de Joe Pesci. Foi preciso o ator envelhecer para descolar-se da violência irracional de Nicky Santoro e Tommy DeVito, duas variações sobre o mesmo tema, tornando-se Russell Bufalino. Isso lhe deu a feição roída pelo tempo, cuja podridão conduz Sheeran.

Em vários momentos, entende-se perfeitamente que o pistoleiro é apenas seu garoto. Guiado por tantos anos, nada resta além de uma obediência meio cega, meio voluntária. Pois Sheeran vai morrer convencido da necessidade de nunca dizer a verdade, de levar consigo as instruções de todas as mortes, na sujeição a quem não está mais lá.

Tema semelhante já havia aparecido num filme de Scorsese completamente diferente, mais próximo a suas investigações religiosas. Pois Silêncio (Silence, 2016) apresentava o mesmo compromisso por uma ótica distinta. Garupe (Adam Driver) carregou sua fé consigo em absoluta mudez, mas seu ato era o engajamento de coragem que apenas a Graça consegue sustentar.

Sheeran se mantém calado pela servidão de escravo: na cadeia de comando do soldado, na burocracia do businessman do sindicalismo – tudo é sempre apenas obediência, no Exército ou nas ruas. Henry Hill (Ray Liotta) era tíbio o suficiente para se entregar às tentações que nunca cogitou em renunciar. Quando a decrepitude incentivada pela cocaína o faz quebrar a omertà, sente-se infeliz apenas por descobrir-se sem alma para novamente vender.

Tivesse algo mais a oferecer, Hill lutaria ainda pelo lugar que lhe concede o rispetto, a única coisa que importa. Mas o destino de Sheeran foi selado de modo mais dramático. Sua conversão plena foi na Missa Negra (Black Sabbath), quando ele e Bufalino comem o pão e bebem o vinho enquanto conversam em italiano. A mesma cena se repete na prisão, quando o pacto entre ambos é reconstruído.

... sensualistas sem coração
De onde vem tanta subserviência? Sheeran se revela o perfeito homem organizacional. Nesse seu inferno, mostra-se incapaz de outro envolvimento. Escolher um caminho requer engajamento, implica aceitar as consequências dos próprios atos devido exatamente à impossibilidade de compreender todos os desígnios, pois o vento sopra onde quer. Mas qual o destino de quem se mostra incapaz desse gesto?

O gângster do cânone oscilava entre a organização e a individualidade. Os personagens de Alma no Lodo (Little Caesar, 1931, de Mervyn LeRoy), Scarface (1932, de Howard Hawks) ou Fúria Sanguinária (White Heat, 1949, de Raoul Walsh) fracassam quando estão perto de triunfar, numa punição individual que desqualificava todo o crime. Diferentes desses antecessores, Sheeran sobrevive apenas porque foi tragado pela engrenagem.

Mas, ao contrário desse engajamento sobre seus próprios atos – escolhas tomadas por cada um em seu coração –, Sheeran pôde assassinar Jimmy Hoffa (Al Pacino) tão somente como quem cumpre as ordens de seu general. Quando a imagem de sua filha Peggy (Anna Paquin) opera como um fantasma shakespeariano que deveria servir como sua consciência, o efeito é absolutamente nulo.

Pois não há alma à qual se apelar. Para o homem, cada escolha, sempre cega, deveria ser um gesto de fé num mundo insondável, no qual um católico como Scorsese não ignora a existência de uma força superior. Isso animava seus personagens. Certos sobre a decadência do mundo, debatiam-se com isso, e os filmes serviam como um estudo sobre a secularidade da carne.

Para isso, a mística dos gângsteres serviu perfeitamente. Charlie (Harvey Keitel) sentia o chamado do crime, mas sofria com seus desvios morais, sempre pronto a se autoflagelar com o fogo. Se Hill caminhava um passo adiante nessa indiferença, Ace Rothstein (Robert De Niro) convivia com Las Vegas como uma Terra Prometida invertida, onde o jogo e a ganância tornavam tudo possível.

O erro do bookmaker foi não ter percebido que a vida lhe ofereceu dados viciados. Sua busca por amor e amizade, gestos tão puros, terminam num terrível fracasso. Mas, embora encerre sua jornada de volta ao ponto onde começou, o lance de Ace valeu a pena. Difícil dizer o mesmo de Sheeran, o homem vazio de um tempo que acreditou na consciência apenas para não perceber nela mais qualquer valor a defender. ■

 

Ficha técnica

Título original: The Irishman
Ano: 2019
Direção: Martin Scorsese
Gênero: Biografia | Policial | Thriller
Nacionalidade: Estados Unidos

Assista o trailer

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