Edição 545 | 18 Novembro 2019

Cultura Pop, a construção de uma rede de sentimentos

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Ricardo Machado

Simone Pereira de Sá discute a circulação das expressões afetivas nos ambientes digitais e fala sobre a importância de desnaturalizar valores canônicos de apreciação estética

Se antigamente a dimensão dos afetos estava restrita a relações pessoais, com a digitalização das relações sociais e dos produtos culturais o mundo mediado tecnologicamente oferece outros regimes de circulação dos afetos. “O ambiente das redes sociais parece incentivar e ampliar a visibilidade das expressões afetivas, a partir de um conjunto de ferramentas: botões de ‘likes’, ênfase na rede de amigos virtuais, playlists musicais ligadas ao gosto. Além disso, o ídolo muitas vezes está a um ‘clique’, bastando uma mensagem do fã para receber uma resposta”, destaca a professora e pesquisadora Simone Pereira de Sá, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

É nessa rede de relações, permeadas por conexões humanas e algorítmicas, que a Cultura Pop emerge como “lócus para a construção das identidades transnacionais e muitas vezes transversais”, pontua. “ A cultura pop pode ser pensada como uma ‘estrutura de sentimentos’ que permeia as identidades na modernidade, permitindo que se construam redes cosmopolitas de afetos que não dependem da comunidade local”, complmenta Simone.

Neste contexto, o trânsito entre objetos culturais é muito mais fluído desorganizando o esquema clássico de classificação entre o que é cultura hegemônica e periférica. “Me parece que o desafio mais importante é descontruir este ‘cânone’ e desnaturalizar os valores supostamente universais da apreciação estética. A partir daí, é possível construir uma agenda para identificar um conjunto de inovações sonoras, performáticas e de criatividade popular veiculadas pelas músicas periféricas”, sustenta.

Simone Pereira de Sá possui graduação em Ciências Sociais e doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. É professora titular da Universidade Federal Fluminense - UFF, no curso de Estudos de Mídia e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, onde coordena o Laboratório de Pesquisa em Culturas Urbanas e Tecnologias da Comunicação - LabCult. Foi professora visitante no Departamento de Música do King's College, London, no Reino Unido, e na McGill University, Montreal (2008), Canadá, com bolsa de pós-doutorado da CAPES.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem é o fã e como se dá seu ativismo em ambiente digital? Como os haters aparecem nesse cenário?

Simone Pereira de Sá – Fã é o consumidor dedicado a um artista ou produto cultural, que se distingue de outros consumidores a partir da intensidade com que utiliza seu tempo, dinheiro, conhecimento e trabalho voluntário em prol de seus ídolos e produtos. A partir do advento das redes sociais, os fãs ganham ferramentas que possibilitam formas inéditas de encontros com outros fãs nas comunidades virtuais através de redes de fandoms; e também formas de expressar seu afeto a partir de produtos tais como fanfictions, fanfilmes, fanzines e outros tipos de produção.

O ativismo de fãs se refere ao conjunto de manifestações e articulações dos fãs nas redes sociais, seja em relação ao próprio artista – defesa de uma ofensa que ele sofreu por parte de outro artista ou de um crítico –; seja em relação a causas sociais que este artista defende.

Por outro lado, os afetos negativos também ganham visibilidade; e a mesma comunidade que atrai os aficcionados por um produto, também atrai os indivíduos que o odeiam e que se juntam para falar mal, deslegitimar e criticar o artista e sua obra, denominados de haters.

IHU On-Line – Em que medida, nesse nosso tempo de revolução tecnológica e aprofundamento do mundo digital, os afetos tendem a ser reduzidos à polarização entre fãs e haters?

Simone Pereira de Sá – O ambiente das redes sociais parece incentivar e ampliar a visibilidade das expressões afetivas, a partir de um conjunto de ferramentas: botões de “likes”, ênfase na rede de amigos virtuais, playlists musicais ligadas ao gosto, tais como, por exemplo, listas de músicas “para namorar”, “para quando estou triste”, etc. Além disso, o ídolo muitas vezes está a um “clique”, bastando uma mensagem do fã para receber uma resposta.

Por fim, um conjunto de expressões nativas da cultura digital, tais como memes e vídeos virais, também exploram respostas afetivas tais como o humor. Este conjunto de ferramentas incentiva o engajamento imediato – a favor ou contra – e desta maneira, exacerba as polarizações entre fãs e haters, Assim, ainda que os afetos não devam ser reduzidos a esta polarização, me parece que esta faceta – ser a favor ou ser contra – é um elemento central das sociabilidades digitais.

IHU On-Line – Como o global e o local se articulam sob as lentes da Cultura Pop? Que identidades são construídas desde esses olhares?

Simone Pereira de Sá – O pesquisador Motti Regev vai usar o termo “cosmopolitismo estético” para se referir a segmentos de culturas locais que têm interesses por expressões globais. Pensada por este viés, a cultura pop é o lócus para a construção das identidades transnacionais e muitas vezes transversais. Um exemplo: um adolescente brasileiro, de uma pequena cidade nordestina, que descobre e passa a se identificar através das redes sociais um gênero tal como o k-pop, o pop coreano. Assim, a cultura pop pode ser pensada como uma “estrutura de sentimentos” que permeia as identidades na modernidade, permitindo que se construam redes cosmopolitas de afetos que não dependem da comunidade local.

IHU On-Line – No caso da música pop-periférica do Brasil, como se dão as construções das identidades locais e globais? E ainda, como as construções de identidades se articulam em formas de resistências?

Simone Pereira de Sá – Respondendo as duas questões juntas: Temos observado um intenso diálogo entre aspectos globais e locais nos gêneros musicais tais como o funk, o brega recifense e outros – que podem ser classificados dentro da alcunha de pop-periféricos. Tomemos o caso do funk. O gênero surge a partir do Miami Bass – gênero musical de música de pista popular na cidade de Miami. Porém, muito rapidamente, vai inserir letras e sonoridades locais, ligadas ao cotidiano das favelas e periferias da cidade do Rio de Janeiro e posteriormente, de outros lugares do Brasil. Assim, em nenhum momento as identidades locais são somente “cópias” das identidades globais. Elas negociam sentidos, buscando circular em redes globais, mas inserindo elementos locais que podem ser vistos como formas de resistência.

IHU On-Line – Quais os desafios para se apreender a música pop de periferia, para além do performático, da oposição ao “cult”, complexificando os sentidos e identidades que ela engendra?

Simone Pereira de Sá – Ao discutir música, acionamos uma discussão sobre gosto, valor e hierarquias culturais, nas quais alguns gêneros são mais valorizados que outros a partir de valores que foram construídas culturalmente. Então, me parece que o desafio mais importante é descontruir este “cânone” e desnaturalizar os valores supostamente universais da apreciação estética. A partir daí, é possível construir uma agenda para identificar um conjunto de inovações sonoras, performáticas e de criatividade popular veiculadas pelas músicas periféricas.

IHU On-Line – De que forma a cultura digital rearranja os gêneros musicais na Cultura Pop?

Simone Pereira de Sá – Um elemento central da cultura digital é a aproximação entre produtos culturais que vêm de origens distintas e que circulam e são apropriados por diferentes grupos e segmentos de consumo. No caso da música, temos observado que a cultura digital permite o encontro de gêneros que antes não se comunicavam. Seja em tom de deboche – tais como vídeos que juntam funk com indie rock – seja como influências mútuas , tal como playlists que juntam gêneros diversos; ou seja a partir de redes que compartilham videoclipes de diferentes origens, tais como o youtube, nossa aposta é que a cultura digital contribui para a aceleração das influências mutuas e para a hibridização dos gêneros, dando origem a novos arranjos que unem funk e brega (bregafunk) , funk e sertanejo (funknejo) numa rede que denominei de Rede de Música Pop Periférica Brasileira.

IHU On-Line – Quais os riscos de toda a multiplicidade e potência dos movimentos de Cultura Pop da periferia serem cooptados pela indústria cultural?

Simone Pereira de Sá – A lente da “cooptação” não me parece muito produtiva para observar estes fenômenos, uma vez que ela supõe que havia um produto autêntico que foi “apropriado” pela indústria somente para fins de mercado. Ao contrário, o que me parece mais produtivo na observação sobre a música pop-periférica é que a visibilidade do mercado mainstream é aproveitado pelos artistas para apresentarem narrativas e performances vindas da periferia para um público mais amplo. Então, pensar em como as narrativas disputam lugar na grande vitrine da indústria cultural me parece mais importante do que definir se este ou aquele produto foi cooptado pela indústria. Dito de outra maneira: os artistas podem ser “cooptados” mas também se utilizam dos mecanismos da indústria cultural para suas causas e visões de mundo, num jogo contínuo entre “cooptações” e resistências.

IHU On-Line – O samba, o rap e o funk são gêneros musicais que saem da margem da sociedade, como som de protesto, e tomam as regiões centrais. Como compreender esses processos?

Simone Pereira de Sá – Na resposta acima já abordei a questão. Me parece uma falsa questão pensar num som de protesto autêntico que vem das periferias para o centro. Um bom exemplo é o samba, que se tornou o que é – produto valorizado como expressão da identidade nacional – a partir de um conjunto de atores que vieram ao mesmo tempo da periferia e do “centro” tal como jornalistas, críticos musicais e parcelas do governo de Getúlio Vargas nos anos 1930/1940, conforme demonstram os trabalhos de Hermano Vianna e outros. ■

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