Edição 545 | 18 Novembro 2019

Ver para além do conhecido. Os desafios da pesquisa da Cultura Pop

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Ricardo Machado

Adriana Amaral discute a potência teórica e epistemológica dos estudos em Cultura Pop para a Comunicação e apresenta os desafios de investigar estes objetos

No campo da pesquisa em Comunicação, as investigações em torno da Cultura Pop têm movimentado profundas discussões em torno questões de fundo da contemporaneidade, tais como desigualdades sociais, de gênero e identitárias. “A cultura pop sobretudo a partir de suas relações com os ambientes e plataformas digitais é central para pensarmos o campo da comunicação. Embates como fãs e haters, resistências, questões de gênero, juventude, cultura material, interseccionalidade, políticas identitárias, relações sociais, relações de trabalho, práticas decoloniais, enfim uma série de questões contemporâneas e que aparecem no âmago dos estudos de mídias e comunicacionais podem ser pensados e visualizados de forma bastante enfática a partir das lógicas e da circulação da cultura pop”, descreve a professora e pesquisadora Adriana Amaral, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Contra o hermetismo de uma retórica acadêmica barroca, que se presta muito mais a esconder suas produções que fazê-las circular, os objetos de pesquisa na Cultura Pop trazem para o campo científico produtos que habitam o universo cotidiano de muitas pessoas. “Há também uma questão do uso da linguagem como instrumento de poder, quanto mais eu falo/escrevo de uma forma inacessível muitas vezes esse é um capital social acadêmico, do uso dos jargões ou de tratar de um objeto pouco conhecido como analisar um filme alternativo em oposição a um filme da Marvel”, pontua Adriana. “De qualquer forma, por outro lado, o exercício de se submeter a justificativas e críticas é mais do que saudável e funciona como um combustível para qualificar a pesquisa em cultura pop teórica e metodologicamente”, complementa.

No entanto, a pesquisa sobre Cultura Pop enfrenta certas dificuldades em superar o nível descritivo de seus objetos, sobretudo pela ilusão de pensar que está tratando de algo que está totalmente dado. “Essa dificuldade se dá porque apesar da cultura pop trazer um repertório de signos e um imaginário de um domínio aparentemente conhecido, na pesquisa é preciso explicar e delinear essas referências. Para mim isso só se dá a partir de um avanço epistemológico de construção de conhecimento e de experimentações metodológicas. Nesse ponto acredito que os estudos de comunicação e cultura pop ainda precisem avançar”, afirma.

Adriana Amaral é graduada em jornalismo, com mestrado e doutorado pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, com estágio de doutorado em Sociologia da Comunicação pelo Boston College, EUA. Além disso, realizou pós-doutorado em Mídia, Cultura e Comunicação pela University of Surrey, no Reino Unido. É professora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e pesquisadora do CNPq com Bolsa de Produtividade (PQ).

Entre suas publicações, destacamos Cultura pop digital brasileira: em busca de rastros político-identitários em redes (Revista EcoPós, V.19, n.3, 2016) e “De Westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital (Galáxia. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica. N. 29, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma a Cultura Pop expressa dimensões estéticas e éticas do nosso tempo?

Adriana Amaral – Acredito que a cultura pop por sua efemeridade e ao mesmo tempo longevidade é capaz de abarcar uma série de questionamentos e dimensões que borram os limites entre estéticas e éticas a partir de diversas culturas e sociedades. Me interessam os fenômenos de alta visibilidade e sua relação com nichos sejam de mercados, sejam subculturas, sejam no âmbito das interações e sociabilidades. Pensar criticamente a cultura pop para além dos binarismos de cooptação versus criatividade amplifica os debates para o entendimento dos produtos e dos sujeitos da cultura pop.

IHU On-Line – Qual a importância dos estudos de Cultura Pop para o campo da Comunicação, em particular, e para a ciência em sentido mais amplo?

Adriana Amaral – A cultura pop sobretudo a partir de suas relações com os ambientes e plataformas digitais é central para pensarmos o campo da comunicação. Embates como fãs e haters, resistências, questões de gênero, juventude, cultura material, interseccionalidade, políticas identitárias, relações sociais, relações de trabalho, práticas decoloniais, enfim uma série de questões contemporâneas e que aparecem no âmago dos estudos de mídias e comunicacionais podem ser pensados e visualizados de forma bastante enfática a partir das lógicas e da circulação da cultura pop. Essas lógicas não só pautam o debate como estão imbricadas em cenários mais amplos como aqueles relacionados ao jornalismo e às teorias clássicas da comunicação, entre outros.

A Comunicação é um campo de desvios, impurezas e estranhamentos e a cultura pop assume e traz ao debate todas essas contradições entre paixões, afetividades e subjetividades e a viralização de suas práticas que são culturais, materiais e comunicacionais desde sua origem mercadológica e amadora ao mesmo tempo. Em termos de ciência de forma mais ampla, acredito que as linguagens e as lógicas da cultura pop possam nos ajudar tanto a compreender a ciências a partir de conteúdos científicos por ela veiculados como na divulgação e popularização da ciência a partir do uso e da cooptação dessas gramáticas do pop para uma ampliação da forma como comunicamos as pesquisas que realizamos na universidade. Essa tem sido a minha bandeira nos últimos anos.

IHU On-Line – Qual o cenário das pesquisas voltadas à Cultura Pop no Brasil e no mundo?

Adriana Amaral – O cenário em termos de objetos de pesquisa e de temáticas é muito fértil. Quem há alguns anos imaginaria que uma HQ dos Vingadores com um beijo entre dois heróis fosse ser capa de um jornal como a Folha de São Paulo? – fato acontecido durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro por conta dos atos de censura à HQ do governador Crivella. A cultura pop tem estado e é parte do epicentro de um debate que é amplo, apenas para dar um exemplo nacional. A pesquisa nessa área tem crescido bastante no Brasil, até mesmo em áreas mais tradicionais que a comunicação como as Letras, História, Educação entre outras.

Lá fora, a questão tem sido objeto de pesquisa há um bom tempo. Os eventos acadêmicos temáticos têm crescido como por exemplo simpósios específicos para tratar de uma questão pontual como “Beyoncé e feminismo” ou “A repercussão da obra de Prince”, organizado por pesquisadoras como Kirsty Fairclough , do Reino Unido entre outras. Observo também que quem produz essas pesquisas mais críticas de alguma forma faz parte de alguma minoria como mulheres, imigrantes e membros da comunidade LGBTQI , por exemplo, apesar dos autores mais citados ainda serem homens nerds. De qualquer forma, observo de forma positiva inclusive o impacto dos estudos brasileiros no exterior.

IHU On-Line – Há preconceito em torno de pesquisas voltadas à Cultura Pop?

Adriana Amaral – A Academia é um lugar de poder, saber e também de exclusões e os campos estão sempre em conflito. Isso é chover no molhado. No entanto, a pesquisa em cultura pop sofre de um duplo preconceito: por parte de um discurso da sociedade, muitas vezes refletido na mídia de que tais assuntos são irrelevantes e menores por serem demasiadamente cotidianos ou porque seus atores sociais sentem que entendem melhor do tema do que os pesquisadores. Por outro lado, dentro da própria Academia e mesmo nas humanidades que são supostamente mais abertas há temas que tendem a ganhar dimensões e status “maiores do que outros”. Há também uma questão do uso da linguagem como instrumento de poder, quanto mais eu falo/escrevo de uma forma inacessível muitas vezes esse é um capital social acadêmico, do uso dos jargões ou de tratar de um objeto pouco conhecido como analisar um filme alternativo em oposição a um filme da Marvel. Também existe a questão dos fandoms de autores, porque em certa medida a Academia também opera numa lógica de defesa ferrenha de algumas de suas teorias e teóricos. De qualquer forma, por outro lado, o exercício de se submeter a justificativas e críticas é mais do que saudável e funciona como um combustível para qualificar a pesquisa em cultura pop teórica e metodologicamente.

IHU On-Line – Como se caracterizam estas investigações?

Adriana Amaral – Como eu falei antes, vejo que elas se caracterizam por um lado pelo encantamento com os objetos principalmente entre os pesquisadores mais jovens, na Iniciação Científica ou TCC e mestrado e por outro, avanços em termos de relações com outros campos de saberes no doutorado. Por exemplo para pensarmos noções como ativismo de fãs é preciso articular conhecimentos transdisciplinares, pensar conceitualmente sobre questões de participação política específicas e ao mesmo tempo investigar os códigos e signos da cultura de fãs, campos que tradicionalmente não se cruzariam em uma análise política mais dura ou culturalista. Creio também que a principal dificuldade é sair do nível descritivo e aprofundar a análise do material empírico. Essa dificuldade se dá porque apesar da cultura pop trazer um repertório de signos e um imaginário de um domínio aparentemente conhecido, na pesquisa é preciso explicar e delinear essas referências. Para mim isso só se dá a partir de um avanço epistemológico de construção de conhecimento e de experimentações metodológicas. Nesse ponto acredito que os estudos de comunicação e cultura pop ainda precisem avançar. Porém tenho visto jovens pesquisadores bastante empenhados em ampliar diálogos, em publicações de impacto etc.

IHU On-Line – Em um contexto de cortes de recursos de pesquisa, há um cenário de maior pressão em torno das pesquisas voltadas à Cultura Pop em relação a pesquisas de viés mais “utilitarista”?

Adriana Amaral – Acredito que sim, isso perpassa todas as humanidades e é uma discussão global. Muitos estudos de cultura pop podem também ter relações com questões mercadológicas de compreensão e propostas de entendimento desses mercados. Por outro lado, a dimensão crítica e de avanços em relação a uma sociedade mais plural não deve ser perdido. Tenho observado uma virada cada vez mais política – no sentido mais amplo – nesses estudos, bastante como uma reação a esse tipo de cobrança. Por outro lado, percebemos que quando temos pesquisadores envolvidos em projetos de mercado há um diferencial e uma preocupação maior com os sujeitos e com questões como representatividade de gênero, raça e outras questões sociais. Tenho alunos de mestrado e doutorado que prestam consultoria e essa tônica é central.

IHU On-Line – De que forma tem sido construídas proposições metodológicas de pesquisa científica a partir dos estudos de Cultura Pop?

Adriana Amaral – A pesquisa em Cultura Pop é um campo plural no qual há espaço para diversas proposições teórico-metodológicas. Embora haja uma certa predominância de vertentes dos Estudos Culturais, o campo, os temas e os objetos podem ser pensados por uma variação de abordagens que vão desde a etnografia à análise de conteúdo, discursos etc e também formulações multimétodos em combinações entre coletas on-line e off-line por exemplo.

Acredito que a experimentação e a mescla é o que pode funcionar de forma mais adequada dadas as características desses temas. No momento, minha pesquisa atual é pensar epistemologicamente como os estudos brasileiros sobre o tema podem nos ajudar a refletir de uma forma que avance em relação aos estudos anglo-saxões, europeus etc. Acredito que temos chaves de entendimentos de produtos transculturais – uma série produzida em outro país por exemplo e de que forma ela é ressignificada num país fora do eixo como o Brasil - que são complexas.

IHU On-Line – Deseja acrescentar?

Adriana Amaral – Indicaria o podcast Divã Pop, do Grupo de Pesquisa Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias - Cultpop no qual discutimos as pesquisas realizadas aqui na Unisinos e em outros programas de pós-graduação em comunicação. O programa pode ser acessado aqui. ■

Leia mais

- Indissociabilidade entre os mundos on e off-line. Entrevista especial com Adriana Amaral, publicada na revista IHU On-Line, nº 502, de 10-4-2017. 

- Perfil de Adriana Amaral, publicado na seção IHU Repórter, da revista IHU On-Line nº 359, de 2-5-2011.

- A superficialidade e as relações sociais na web. Entrevista especial com Adriana Amaral, publicada nas Notícias do Dia de 5-2-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Twitter: a nova via da revolução? Entrevista especial com Sandra Montardo, Pollyana Ferrari, Adriana Amaral e Matheus Lock dos Santos, publicada nas Notícias do Dia de 29-3-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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