Edição 545 | 18 Novembro 2019

Sob as lentes da Cultura Pop, as contradições e as desigualdades sociais

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João Vitor | Edição: Ricardo Machado

Thiago Soares, interessando em objetos de pesquisa voltados ao consumo popular, percebe as engrenagens das negociações culturais entre os centros hegemonizados e as periferias

Definir de forma sumária a Cultura Pop está longe de ser um exercício simples. Pensá-la a partir de noções já estabilizadas no âmbito dos estudos de Comunicação, pode oferecer uma maneira mais complexa de compreender o fenômeno. “Como conceito, Cultura Pop derivaria de uma intensificação do que se poderia chamar de Cultura de Massa (como pensaram autores da Escola de Frankfurt) ou de Cultura da Mídia (na leitura de autores dos Estudos Culturais), dentro de visões mais críticas (ideias de padronização, homogeneização, mercantilização e fetichismo de mercadoria) ou mais integradas (popularização da cultura, revisão de cânones elitistas, politização das estéticas populares)”, pondera o professor e pesquisador Thiago Soares, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“Não sou totalmente crítico, mas também não completamente entusiasta da Cultura Pop. Talvez, a postura de pesquisadores e acadêmicos sobre a Cultura Pop seja sempre de espreita, desconfiança e prudência. Reconhecendo que se trata de um lugar privilegiado para observar consensos culturais, mas também não se furtando a enxergar dissensos e controvérsias de artistas, produtos e público fã”, debate o professor. É a partir desse, digamos assim, enfrentamento com os objetos da Cultura Pop, que questões sociais de fundo emergem. “A ideia de colonialidade nos ajuda a reconhecer como a Cultura Pop assenta ideais de modernidade e globalização em países colonizados e como também faz realçar as desigualdades destes contextos. Um show de música pop com uma estrela internacional no Brasil, por exemplo, ressalta a desigualdade brasileira: quem pode pagar para entrar? Que cor tem as pessoas que estão dentro? Que marcadores sociais são acionados a partir destas lógicas de consumo? Acho estas perguntas mais potentes e inquietantes”, explica Soares.

Em um processo de construção cidadã baseada no consumo, mas também em sua dispersão, a utopia do fim dos grandes grupos de mídia nunca se realizou, o que é efeito, também, da plasticidade do capitalismo. “Com o processo de digitalização, de desintermediação e de liberdade de consumo se supôs que os conglomerados midiáticos iriam sucumbir. O que vemos é exatamente o contrário. A concentração do poder em poucos grupos (Google, Facebook, Netflix) e a ênfase em corporações que se espraiam e fagocitam outras”, afirma o entrevistado.

Thiago Soares é professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Autor dos livros “Música Pop en Cuba: Globalización, Territorios y Solidariedad Digital” (2018), “Ninguém é Perfeito e a Vida é Assim: A Música Brega em Pernambuco” (2017) e “A Estética do Videoclipe” (2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor compreende o conceito de Cultura Pop e, em que medida, essa perspectiva se articula em oposição a ideia de “experiência autêntica”?

Thiago Soares – Acho interessante esta pergunta porque sugere a Cultura Pop como conceito, algo que, em tese, ela não é. A Cultura Pop poderia ser definida como a produção de bens simbólicos e materiais ligados a indústrias do entretenimento, dentro de uma lógica global e cosmopolita, que se constrói a partir de padrões estéticos do mainstream. Em linhas gerais, a Cultura Pop deriva da formação de sistemas industriais da cultura, ou seja, estúdios de cinema e televisão, gravadoras, editoras, entre outras instâncias, que promovem o encontro entre a cultura e a economia voltada a públicos amplos e claramente definidos.

Como conceito, Cultura Pop derivaria de uma intensificação do que se poderia chamar de Cultura de Massa (como pensaram autores da Escola de Frankfurt) ou de Cultura da Mídia (na leitura de autores dos Estudos Culturais), dentro de visões mais críticas (ideias de padronização, homogeneização, mercantilização e fetichismo de mercadoria) ou mais integradas (popularização da cultura, revisão de cânones elitistas, politização das estéticas populares).

O termo é bastante desafiador na medida em que aparece muito conectado a uma perspectiva anglófila (o termo inglês “pop”) e também pelo legado da Pop Art, que embora tecesse críticas ao capitalismo, desenvolvia uma relação ambígua com os produtos oriundos do capital. O fato é que a Cultura Pop serve conceitualmente para pensarmos as encruzilhadas do capitalismo no campo da cultura: o que o agenciamento das indústrias do entretenimento fizeram com nossas sensibilidades estéticas? Não sou totalmente crítico, mas também não completamente entusiasta da Cultura Pop. Talvez, a postura de pesquisadores e acadêmicos sobre a Cultura Pop seja sempre de espreita, desconfiança e prudência. Reconhecendo que se trata de um lugar privilegiado para observar consensos culturais, mas também não se furtando a enxergar dissensos e controvérsias de artistas, produtos e público fã.

IHU On-Line – A Cultura Pop pode ser, em alguma medida, um mecanismo de descolonização? Em que sentido?

Thiago Soares – O “lugar de fala” (para usar um termo bastante usual atualmente) da Cultura Pop é a cultura global, centrada na anglofilia e na produção cultural dos Estados Unidos. No entanto, acho pouco instigante a tese de observar os produtos da cultura pop pela lente do “imperialismo” pura e simplesmente. De fato há um jogo de poder que se impõe, mas também há formas de ressignificação nos contextos de fruição que podem trazer leituras “bastardas” de produtos pop, como a maneira com que sujeitos nas Filipinas reinterpretam as divas pop norte-americanas com vestidos feitos de bananeiras e saltos de tijolos precários ou indianos que fazem a coreografia do videoclipe “Thriller” de Michael Jackson misturando com passos de dança de filmes musicais de Bollywood (a indústria de cinema de Mumbai, na Índia).

Essas ressignificações ocorrem e nos ajudam a mostrar a força das culturas e dos hibridismos. No entanto, mais recentemente tenho lido um autor peruano chamado Anibal Quijano , que fala sobre “colonialidade”, ou seja, sobre o sistema de pensamento, saberes e condutas que se formam nas dinâmicas coloniais. A ideia de colonialidade nos ajuda a reconhecer como a Cultura Pop assenta ideais de modernidade e globalização em países colonizados e como também faz realçar as desigualdades destes contextos. Um show de música pop com uma estrela internacional no Brasil, por exemplo, ressalta a desigualdade brasileira: quem pode pagar para entrar? Que cor tem as pessoas que estão dentro? Que marcadores sociais são acionados a partir destas lógicas de consumo? Acho estas perguntas mais potentes e inquietantes.

IHU On-Line – É possível apreender identidades locais a partir da Cultura Pop? De que forma?

Thiago Soares – A Cultura Pop pode ser um interessante mecanismo para realçar as desigualdades regionais em países colonizados. Por exemplo, no Brasil, lembro do contexto de aparição da cantora paraense Gaby Amarantos , que ficou famosa pela canção “Ex-Mai Love” e por representar a cena musical do tecnobrega do Pará no Brasil. Gaby era uma cantora de relativo sucesso no contexto paraense, mas desconhecida no Brasil. O gesto dela em direção a uma forma mais global e moderna de se colocar no mercado foi acionar a sua semelhança com a cantora norte-americana Beyoncé.

Gaby Amarantos gravou uma versão do hit “Single Ladies” que levou o nome “Hoje eu Tô Solteira” e ganhou ampla divulgação midiática inclusive chegando a se apresentar no programa Domingão do Faustão, da Rede Globo, sob a alcunha de “A Beyoncé do Pará”. Parece-me sintomático que a cantora tenha recorrido a imagem de Beyoncé para se afirmar como paraense e também como “nacional” ou “global”. Olhar este eposiódio pela lente da Cultura Pop mostra as diferenças e desigualdades do Brasil: como uma artista paraense faz para não ser lida apenas pela “chave” da figura folclórica ou exótica? Neste caso, Beyoncé funciona como uma forma de Gaby Amarantos negociar com as instâncias midiáticas localizadas no Rio de Janeiro e São Paulo, ou seja, as ideias de centro e margem são repensadas não apenas no tocante aos Estados Unidos, mas aos “centros” que existem no próprio contextos brasileiro.

IHU On-Line – De que maneira a constituição da música na Cultura Pop pode contribuir para o entendimento de dinâmicas culturais de nosso cotidiano?

Thiago Soares – A música na Cultura Pop é o lugar mais sintomático para entender as dinâmicas e ingerências da digitalização no consumo cultural. Foi na música que primeiro se baixou canções e álbuns inteiros, que se mostrou os impasses de uma produção cultural desintermediada, em que os modelos de negócio da indústria fonográfica foram primeiro questionados. A youtubização da cultura, por exemplo, começou com a música e a disseminação de videoclipes em plataformas de compartilhamento audiovisuais. É portanto no campo da produção musical que se desenvolveram os primeiros testes sobre consumo streaming que viria culminar com o nascimento de novos conglomerados de entretenimento ligados ao streaming como a Netflix, o Amazon Prime e a GloboPlay.

IHU On-Line – No seu atual projeto de pesquisa, o senhor trabalha a música brega do Brasil e a cumbia villera da Argentina e, entre suas hipóteses, há a de que moradores das periferias de metrópoles latino-americana reivindicam cidadanias. Gostaria que o senhor detalhasse essa perspectiva e explicasse como se dá essa busca por uma cidadania através de manifestações da cultura pop.

Thiago Soares – É impossível desvincular o consumo de Cultura Pop na América Latina e as dinâmicas culturais das periferias das metrópoles. Foi através da minha pesquisa sobre Cultura Pop que cheguei no consumo da música brega em Pernambuco primeiro porque vários artistas de música brega faziam versões (sem pagar direitos autorais) de músicas pop internacionais. Por exemplo, “Despacito”, sucesso de Luis Fonsi, virou “Necessito”, na voz da banda de brega Sedutora. “Let it Go”, canção da trilha do filme “Frozen – Uma Aventura Congelante”, virou “Nada Sou”. Os exemplos são muitos. Mas me parece que há uma tentativa de falar de questões locais com um “acento” global.

Estas canções parecem narrar a maneira precária e imperfeita como cidadãos das margens do mundo interpretam os cânones do pop. É destas imperfeições que percebemos as desigualdades do mundo e também como as formas de cidadania também são desiguais e precárias. Tanto no brega, no Brasil, quanto na cumbia villera, na Argentina, há uma forte presença da ostentação e de artistas se apresentarem perto a ícones do consumo, mostro vários exemplos no livro Ninguém é Perfeito e a Vida é Assim: A Música Brega em Pernambuco (Recife: Editora Carlos Gomes de Oliveira Filho, 2017). São indícios de uma cidadania que se faz no consumo e não nas bases da política formal, cidadanias parciais e precárias que colocam em risco e em crise as bases do entendimento do que é ser cidadão diante de crises econômicas promovendo a perigosa ideia de que tudo se resolve através da relação com o capital, com a iniciativa privada e com o empreendedorismo e que o Estado formal não importa.

IHU On-Line – Como, a partir da sua experiência de pesquisa da realidade cubana, a música pop pode se perfilar como um front para enfrentamentos políticos e midiáticos? E, especificamente no caso de Cuba, o que está em disputa e em que campos?

Thiago Soares – Entre os anos de 2015 e 2017, fiz pesquisa de consumo de música pop em Cuba, que resultou no livro Música Pop en Cuba: Globalización, Territorios y Solidariedad Digital (Barcelona: Editora UOC, 2018), em que debato como se dão as formas de escuta e comércio de música pop na ilha socialista que durante anos não permitiu o consumo destes produtos por serem “falados em inglês”. A minha premissa de pesquisa era compreender que, mesmo no lugar mais “fechado” aos produtos da Cultura Pop na América Latina, ainda assim havia vestígios e marcas desta produção na ilha. Seja através da circulação de bens (discos, filmes, etc) através de pessoas que viajavam e voltavam para a ilha, através da pirataria e também pelas redes digitais.

Ainda que haja todo este amplo consumo de produtos ligados à Cultura Pop em Cuba, há também a consciência formada em anos de socialismo que entende a importância do lugar do bem estar social no cotidiano da ilha. Minha pesquisa mostra que há uma disputa geracional em Cuba (jovens ávidos pelo consumo global, adultos e idosos conectados com os ideais da Revolução Cubana) em constante atrito que aponta para impasses no processo de modernização da ilha socialista. A Cultura Pop me ajuda a entender estas negociações e impasses geopolíticos também.

IHU On-Line – Além da música, que outros produtos da Cultura Pop da atualidade têm se mostrado potentes para promoção de resistências e reivindicações de uma identidade e direitos (ou cidadanias) locais?

Thiago Soares – A cultura dos seriados é atualmente a mais potente forma de geração de empatia e de sociabilidades na cultura contemporânea entre jovens. Amplas discussões sobre questões raciais, de gênero, da macropolítica e da micropolítica passam pelos seriados, que foram amplificados pela cultura streaming e pelo consumo audiovisual em mídias móveis. Os seriados pautam estilos de vida e colocam no cotidiano debates sobre suicídio e saúde mental (13 Reasons Why), sobre a presença da igreja e do Estado religioso na vida das mulheres (Handsmaid's Tale), sobre a política em sentido amplo (Years and Years), sobre os impasses raciais na sociabilidade jovem (Cara Gente Branca), entre outros temas. Os seriados formam redes de debates online e offline constituindo maneiras de se enxergar e enxergar o Outro através de uma lente que passa pela Cultura Pop.

IHU On-Line – Quais os desafios para se falar de resistência e ativismo político a partir de personagens da cultura pop, como a cantora Madona? Como apreender o que está por trás da performance e dos movimentos da indústria cultural?

Thiago Soares – Todo modelo de corpo, de comportamento e de estilo de vida que é ancorado pela Cultura Pop exclui uma série de outras expressões. No caso de Madonna , quando ela apareceu, nos anos 1980, com a pauta da liberação feminina e da sexualidade das adolescentes, certamente falava de seu lugar de mulher branca, loira e do norte dos Estados Unidos. Embora tenha posturas extremamente progressistas, como a defesa da liberdade da mulher, do aborto, a crítica aos governos republicanos nos EUA (de Reagan a Trump ), Madonna também reitera uma narrativa de vigilância sobre o corpo, de modelos de magreza e de empreendedora de si que se conecta com a cultura do consumo glorificada pelos Estados Unidos. Ou seja, como todos nós somos contraditórios, Madonna e os produtos da Cultura Pop também são. Não é possível olhá-los apenas como dispositivos conservadores ou progressistas. Eles são – muitas vezes – ambos. Porque querem negociar com amplas plateias e com contextos mais globais. Gosto de olhar as contradições destes produtos. É um exercício diário e fascinante.

IHU On-Line – Ainda hoje, num mundo global e hiperconectado, ainda faz sentido falar em indústria cultural? E essa indústria pode representar alguma ameaça às identidades locais?

Thiago Soares – Faz muito sentido falar em indústrias culturais sim. No plural. Indústrias que se conectam e formam redes de consumo e de negócios. Com o processo de digitalização, de desintermediação e de liberdade de consumo se supôs que os conglomerados midiáticos iriam sucumbir. O que vemos é exatamente o contrário. A concentração do poder em poucos grupos (Google, Facebook, Netflix) e a ênfase em corporações que se espraiam e fagocitam outras.

As disputas globais, no entanto, agora apresentam um novo cenário em que o Oriente aparece como uma força cultural e estética também impressionante na Cultura Pop. Seja na economia chinesa e na racionalidade japonesa, é a Coreia do Sul que parece dominar a cartilha cultural da Cultura Pop e se infiltra no cotidiano digital de sujeitos de todo mundo com a música Kpop, os seriados doramas e a cultura dos idols. A proposta da Cultura Pop ser uma plataforma do Estado sul coreano (que financia estudos e pesquisas nesta área, bem como tem políticas econômicas para a cultura) nos faz enxergar um protagonismo da cultura pop coreana e da economia chinesa no que está se chamando de um “Mundo Pós-Ocidental”. ■

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