Edição 544 | 04 Novembro 2019

Um letramento tecnomidiático contra a cegueira da tecnorreligião

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João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado

Paulo César Castro debate as potencialidades tecnológicas da Revolução 4.0 e propõe uma formação cidadã capaz de devolver aos humanos a consciência sobre suas ações no mundo digital

O badalado escritor e professor Yuval Harari formulou a ideia de “dataísmo” para descrever uma espécie de “tecnorreligião que tem nos dados o seu objeto de adoração e para a qual o homem é visto como limitado, pois, dos volumosos fluxos de dados, não é mais capaz de obter as devidas informações, conhecimentos ou mesmo sabedoria, de modo a colocá-las a serviço da inteligência”, conforme explica o professor doutor Paulo César Castro, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Dentre as tantas consequências da religiosidade oriunda dos dados, uma das mais recorrentes é certa naturalização, entre aspas, da interferência dos algoritmos na vida cotidiana. “Passamos a considerar normal quando o algoritmo do Facebook mostra em nossos news feed apenas postagens de ‘amigos’ com as mesmas afinidades que as nossas, enclausurando-nos em verdadeiras bolhas ideológicas”, aponta.

De outro lado, porém, para que não caiamos em uma perspectiva tecnofóbica, é importante reconhecer os avanços provocados pelo desenvolvimento tecnológico, no que diz respeito à possibilidade de comunicação e de acesso à informação. “Desde que foi aberta à exploração comercial e teve ampliado seu uso para além das instituições militares e das universidades, a internet foi vista como um espaço potencial de exercício da liberdade. Essa esperança aumentou mais ainda com o advento da web 2.0, com as redes sociais online e com os dispositivos móveis. O uso de tais recursos resultou em momentos importantes, de maior ou menor monta, para a atuação política cidadã em vários lugares no mundo, e a internet ainda se configura como a ferramenta capaz de dar voz a segmentos sociais que nunca tiveram, no modelo dos meios de comunicação de massa, a chance de se manifestar”, pondera.

Entretanto, com o avanço exponencial das notícias falsificadas e da circulação massiva de desinformação, a formação cidadã exige, também, um letramento tecnomidiático, sem o qual nos tornamos presas fáceis dos dispositivos digitais. “O momento, portanto, exige uma formação cidadã, crítica, a respeito das potencialidades mas também dos riscos a que estamos expostos quando nossos dados são capturados por tecnologias digitais cujo funcionamento só é possível com os algoritmos”, complementa.

Paulo César Castro é professor Associado da Escola de Comunicação da UFRJ, onde ministra disciplinas para os cursos de Jornalismo e Produção Editorial e coordena o Programa de Educação Tutorial - PET. É também vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação - PPGCI do IBICT/ECO/UFRJ e um dos diretores do Centro Internacional de Semiótica e Comunicação - Ciseco.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Podemos afirmar que vivemos uma revolução no que diz respeito a avanços tecnológicos e científicos? Por quê? Como o senhor compreende o conceito de Revolução 4.0?

Paulo César Castro – Certamente. É uma revolução cujas consequências, a meu ver, estão se fazendo notar muito mais rapidamente e cujos alcance e consequências são mais globais do que todas as outras anteriores. Na base dessa revolução está o que o historiador israelense Yuval Harari chama de “duas marés científicas”: uma baseada na biologia de Charles Darwin e outra nos algoritmos eletrônicos do matemático inglês Alan Turing . A partir delas, ele formula o que chama de “dataísmo”, nome para uma tecnorreligião que tem nos dados o seu objeto de adoração e para a qual o homem é visto como limitado, pois, dos volumosos fluxos de dados, não é mais capaz de obter as devidas informações, conhecimentos ou mesmo sabedoria, de modo a colocá-las a serviço da inteligência. Ainda que não devamos tomar a internet como a única causa para as profundas transformações por que estamos passando atualmente, podemos listá-la na relação de tecnologias de comunicação e transmissão de informações que, a exemplo da escrita e da imprensa, tiveram efeito cataclísmico sobre a sociedade.

Se, no século XV, foi o alemão Johannes Gutenberg o responsável pelo aperfeiçoamento da tecnologia que ajudou a abalar as tradições e instituições medievais, marco importante (mas não apenas ele) da passagem à Modernidade, mais de 500 anos depois foi a vez de Timothy Berners-Lee . Com a criação da World Wide Web, o inglês deu a sua contribuição para que a internet se transformasse no que é hoje, e sobre cujas consequências temos, e ainda teremos, muito a analisar, pesquisar, estudar. Desde a invenção dos tipos móveis e do prelo, em 1439, até a sua disseminação, na forma de oficinas de impressores, por todos os centros municipais importantes da Europa por volta de 1500, indo até o início da Reforma Protestante de Lutero em 1517, se passaram quase oito séculos. Hoje, os abalos sísmicos causados pela internet, desde que deixou os laboratórios militares e foi tornada pública, acontecem em menos da metade do tempo, em níveis mundiais.

No bojo dessas transformações, certamente que não ficaram de fora a produção industrial e as relações que dela advêm. A história mostra que as revoluções industriais têm seus eixos baseados na busca, pelos capitalistas, da eficácia produtiva (produzir mais com menos) e, consequentemente, do maior lucro possível. Substituir a produção manual por processos mecanizados tem sido a tônica que orienta a indústria desde que à força humana ou à tração animal foram associadas forças motrizes advindas do vapor, da eletricidade e da eletrônica. Se nas três primeiras revoluções a força física do homem é que foi substituída, principalmente nas operações repetitivas, na Quarta Revolução Industrial (ou também Indústria 4.0, Revolução 4.0), o objetivo é suplantar também a capacidade cognitiva. O que ainda restava de especificamente humano – a faculdade do pensamento para, assim, levar à tomada de decisões baseada em informações – é transferido para as máquinas, na busca da automatização total das fábricas e, em consequência, na diminuição máxima do custo representado pela mão de obra humana. Nesse novo cenário, as máquinas são combinadas com big data, inteligência artificial, nanotecnologia, neurotecnologia, biotecnologia, resultando em robôs, drones e outros autômatos, para, de modo “inteligente”, exercerem a capacidade de tomar decisões descentralizadas e de cooperar entre elas e com os poucos humanos que ainda restarem nas fábricas. Não por acaso há previsões de que, até 2030, com a adoção mais rápida da automação pelas empresas, 800 milhões de humanos serão substituídos por robôs em todo o mundo. Dados do Fórum Econômico Mundial, organização que reúne o crème de la crème do capitalismo mundial, demonstram a crescente substituição do homem nas atividades produtivas dentro das companhias: se, em 2018, o total de horas em tarefas desempenhadas pelos humanos era de 71%, frente a 29% pelas máquinas, esse número cairá para 58% até 2022. E mesmo atividades que até agora permanecem amplamente humanas – como comunicação e interação; coordenação, desenvolvimento, gerenciamento e assessoramento; bem como raciocínio e tomada de decisão – terão a participação das máquinas ampliada no mesmo período em aproximadamente 10%.

Nessas relações de produção capitalista, em que a força de trabalho está sendo dividida entre humanos e máquinas, uma série de questões vêm à tona – assim como nas desenvolvidas e analisadas por Marx no século XIX. Aos que só veem dados positivos no cenário da Indústria 4.0, apostando que profissões emergentes compensarão os postos de trabalho já, ou a serem, perdidos, ficam algumas poucas perguntas: se a característica que distingue o humano da máquina poderá não ser a mais importante na escolha para uma vaga de emprego, qual será então a qualificação fundamental de homens e mulheres no mercado de trabalho do século XXI? Quais são as políticas efetivas de governos e empresas para formar, desde já, os trabalhadores, inclusive como cidadãos, para as competências que os novos tempos demandarão? Acontecerá mais uma vez a busca desenfreada pelo lucro máximo a qualquer custo, às expensas da exploração de humanos vistos como limitados e descartáveis? Mas sem a capacidade de consumo dos humanos, como esse modelo capitalista se sustentará? Sob o dataísmo harariano, quem ocupará os postos hierárquicos principais, de mando, da nova religião, e quem posará como rebanho?

IHU On-Line – Estamos numa “era de algoritmização da vida”? Por quê? Quais as consequências?

Paulo César Castro – O filósofo francês Éric Sadin tem um livro chamado La vie algorithmique ([A vida algorítmica] Le Kremlin Bicêtre: Echappée, 2015), no qual trata de um aspecto fundamental do cenário permeado pelas tecnologias digitais em que vivemos cada vez mais mergulhados: a de que os dispositivos que usamos nas nossas mais banais atividades cotidianas, bem como em outras de muito maior complexidade, são quase todos baseados na combinação de algoritmos e dados. O autor diz que a humanidade produz somente em dois dias uma quantidade de informação que não produziu em dois milhões de anos. E o volume de dados dobra a cada 18 meses, gerados por indivíduos (deliberada ou passivamente), empresas privadas, instituições governamentais e não-governamentais e mesmo por outros organismos, máquinas e objetos. Sobre esse big data, armazenado em bilhões de repositórios, agem algoritmos cuja ação é ampliada pela capacidade de processamento cada vez mais veloz dos hardwares. Dessa combinação, o resultado para nós, pessoas físicas, e para as instituições têm sido, por um lado, a automatização de processos e atividades, com a redução do tempo e de recursos financeiros.

Por outro lado, crescentemente temos delegado aos algoritmos ações que antes estavam nas mãos de indivíduos e instituições, como identificações, avaliações, classificações, ordenações e hierarquizações de pessoas, lugares, objetos, serviços e ideias. Como consequência, estes novos gatekeepers têm dividido espaço com outros tradicionais atores especializados, mas ganhando terreno progressivamente, em um trabalho cultural importantíssimo, resultando dele, muitas vezes, conselhos, sugestões, recomendações ou admoestações individualizadas. Até mesmo decisões têm sido tomadas por esses dispositivos sem a intervenção ou a supervisão humana. Embaladas numa aura de eficiência e objetividade, atributos da racionalidade matemática que está por trás dos algoritmos, tais operações têm sido, pelo senso comum, muito pouco questionadas. Assim, passamos a considerar normal quando o algoritmo do Facebook mostra em nossos news feed apenas postagens de “amigos” com as mesmas afinidades que as nossas, enclausurando-nos em verdadeiras bolhas ideológicas. Ou ainda, preocupados com os riscos de preconceitos e enviesamentos humanos, os substituímos pela “eficácia”, “rigor”, “confiabilidade” e “imparcialidade” dos sistemas automatizados, e acabamos não vendo – ou só descobrindo mais tarde – que, na verdade, os algoritmos podem adotar prejulgamentos tanto quanto qualquer pessoa. Um bom exemplo disso é o caso da ferramenta que a Amazon usava para selecionar candidatos a emprego. Em 2015, a empresa descobriu que o sistema tinha um viés contra as mulheres, dando preferência, na sua caça aos talentos, por candidatos do sexo masculino. Ainda que a gigante tecnológica tenha anunciado o fim do programa de recrutamento com machine learning, muitas grandes empresas têm investido em processos automatizados na hora de contratar seus funcionários.

Mas a complacência com os algoritmos não se restringe apenas ao público geral. Até mesmo a imprensa, muitas vezes, tem apenas exaltado, acriticamente, os feitos da inteligência artificial. E os usuários, encantados com os produtos e serviços gratuitos que empresas como Google e Facebook lhes fornecem, não percebem adequadamente como têm estado a serviço delas ao produzir o principal insumo de seus modelos de negócio e que as transformou em corporações mastodônticas globais: dados. Mesmo para aquelas empresas cujos serviços e produtos são cobrados, como Apple, Netflix e Amazon, os usuários continuam a ser verdadeiras engrenagens do capitalismo informacional do qual essas e outras várias empresas são exemplares perfeitos. Por fim, eu diria que estamos cada vez mais imersos em uma cultura algorítmica, pois nossas ações do dia a dia – relacionadas ao trabalho, tarefas domésticas, relações sociais, política, comunicação, educação, entretenimento, consumo, saúde, viagens, segurança, entre muitas outras – têm sido crescentemente mediadas, aumentadas, produzidas e reguladas por dispositivos digitais operando sob os métodos de algoritmos empresariais e governamentais. Com isso, novas racionalidades, conhecimentos, protocolos, regras, saberes e, consequentemente, novos poderes estão ganhando protagonismo, seja para desmontar lógicas vigentes ou para reiterá-las, embalados em verdadeiras caixas-pretas às quais a sociedade não tem qualquer acesso.

IHU On-Line – Como o processo de midiatização tem impactado os processos sociais? De que ordem passam a ser as relações humanas mediadas por máquinas?

Paulo César Castro – Muitas são as dimensões e vários são os fenômenos pelos quais as tecnologias de comunicação e de transmissão de informações têm transformado as relações culturais e sociais, seja numa perspectiva histórica de longo prazo como propõe Eliseo Verón , desde a primeira tecnologia que aboliu a presença de emissores e receptores sob o mesmo espaço físico e tempo para que houvesse comunicação, ou por uma visão de menor prazo de Stig Hjarvard, que considera, especialmente a partir dos últimos anos do século XX, o que chama de novas mídias (como a internet e os telefones celulares) em contraposição aos meios de comunicação de massa. Em ambos os casos, as lógicas das mídias – tomadas como uma instituição semi-independente pelo protagonismo que assumiram – passam a ser elementos institucionalizados e estruturantes das interações dos atores individuais, dos coletivos (agrupamentos identitários de atores individuais articulados sob diferentes ordenamentos organizacionais da sociedade, como “cidadãos”, “consumidores”, “internautas” etc.) e das instituições. Um bom exemplo de midiatização recente são as estratégias midiáticas acionadas pela Operação Lava Jato, como forma de visibilização das ações de combate à corrupção e a consequente busca de apoio junto à opinião pública, realizadas pelas instituições judiciárias ou mesmo pelos atores individuais (juízes, procuradores, policiais).

No que diz respeito mais especificamente aos atores individuais, vivemos sob um ethos cada vez mais participativo, com o qual se consolida crescentemente o chamado para estarmos o tempo todo online, através, por exemplo, dos perfis nas redes sociais online ou do uso de dispositivos digitais, a partir dos quais são capturados todos os tipos de informação sobre nós. Os que estão integrados ao novo ethos, armados com seus dispositivos digitais, têm seus dados processados por algoritmos que, como resultado, prometem livrá-los dos spams, informá-los que estão caminhando pouco e que precisam se exercitar, indicar-lhes o melhor caminho para fugir dos engarrafamentos ou alçá-los ao olimpo dos digital influencers.

IHU On-Line – Ainda nos primórdios da internet, comemoram-se as possibilidades de construções colaborativas, abertas e sempre em constante atualização. Em que medida a Revolução 4.0, e especialmente a tecnologia tão avançada de algoritmos, tem frustrado essa expectativa?

Paulo César Castro – O quadro tecnológico atual pode ser medido pela capacidade de atualização constante de diferentes cenários, já que a coleta, tratamento e processamento dos dados são atividades realizadas concomitantemente e em tempo real. Uma exemplificação dessa situação pode ser vista com o funcionamento do aplicativo Waze, que dá dicas sobre a situação do trânsito e das condições das ruas a partir da colaboração dos seus usuários. Apenas com o aplicativo ligado em seus dispositivos, os usuários concedem os dados para que o algoritmo calcule a velocidade média dos carros, meça o tempo entre uma via e outra e aprenda o sentido das ruas, colaborando para que outros motoristas fujam de engarrafamentos e gastem o menor tempo entre um ponto e outro. Os usuários podem ser mais ativos publicando informações sobre acidentes, buracos, bloqueios, blitze e outras intempéries.

Não acho que a Revolução 4.0 frustre, ou deva frustrar, a expectativa das construções colaborativas, até porque depende delas para que realmente seja eficaz em sua proposta, devendo ser guiada por princípios como os colocados em prática pelo Waze. Ou seja, para tomar decisões, as máquinas precisam de vastos conjuntos de dados, de preferência em tempo real, para que sejam feitos os ajustes com a rapidez que a necessidade requerer. Na medida em que empresários, governantes e representantes de outras instituições atuarem para que os projetos de empresas inteligentes sejam colaborativos e abertos à participação da maior quantidade de atores, principalmente dos trabalhadores, penso que maiores serão as chances de sucesso, inclusive de correção dos vieses e erros em que os algoritmos venham a incorrer, para prejuízo da sociedade. Se a quarta revolução tem entre seus pilares a Internet das Coisas, esta é, por si só, uma tecnologia na qual a ideia de colaboração, entre os objetos, é fundamental.

IHU On-Line – Que nexos são possíveis de estabelecer entre o público e o privado numa sociedade em rede?

Paulo César Castro – As tecnologias digitais que propiciaram as sociabilidades em rede foram as mesmas que acentuaram o curto-circuito entre o público e o privado. Já não é mais tão fácil saber onde começa uma esfera e termina a outra, a exemplo dos seus contornos que começaram a ser mais bem demarcados na passagem do século XVIII para o XIX, como apontou Richard Sennett . O ethos participativo que é uma das características do momento atual parece demandar uma exposição constante do privado como marca distintiva da ocupação dos espaços online. A intimidade, que, no século XIX, era guardada nos espaços da casa, passa a ser exibida como trunfo no ambiente público das redes, seja por puro diletantismo, manifestação política ou com fins comerciais. Em todas essas e outras possíveis razões, o aplauso público do privado é medido com likes, compartilhamentos, comentários... Até mesmo o trabalho, historicamente exercido no espaço público das instituições governamentais e empresariais, foi impactado pelas possibilidades produtivas criadas por ferramentas e aplicativos digitais. O home office é a expressão que demonstra como o trabalho tem voltado cada vez mais a ser praticado nos lares. O oposto disso, mas que reforça ainda mais a confusão atual entre público e privado, são as situações em que, para o ambiente de trabalho, são levadas as atividades de lazer e de entretenimento que, antes, eram exercidas nos momentos de privacidade.

IHU On-Line – Como os conceitos de liberdade e controle se relacionam no ciberespaço hoje?

Paulo César Castro – Desde que foi aberta à exploração comercial e teve ampliado seu uso para além das instituições militares e das universidades, a internet foi vista como um espaço potencial de exercício da liberdade. Essa esperança aumentou mais ainda com o advento da web 2.0, com as redes sociais online e com os dispositivos móveis. O uso de tais recursos resultou em momentos importantes, de maior ou menor monta, para a atuação política cidadã em vários lugares no mundo, e a internet ainda se configura como a ferramenta capaz de dar voz a segmentos sociais que nunca tiveram, no modelo dos meios de comunicação de massa, a chance de se manifestar. Entretanto, essa mesma potencialidade de expressão, até incentivada, tem sido crescentemente capturada por projetos de controle, seja por empresas ou governos. Um bom exemplo é o sistema de pontuação de crédito que o governo chinês pretende implementar, até 2020, para toda sua população. Quando em funcionamento, cada cidadão do país será rastreado e classificado a partir de suas impressões digitais e outras características biométricas, suas compras, passatempos, deslocamentos, uso de redes sociais, numa combinação de dados de fontes públicas, mas também privadas, o que resultará em um escore de crédito social individual. Esse é um dos projetos de controle mais totalitários de que já tomei conhecimento nos últimos tempos, ainda que, evidentemente, existam muitos outros de menor porte em funcionamento sem que a sociedade seja avisada.

IHU On-Line – Quais os desafios para se compreender o que significa controle e vigilância nas redes? Por que o mercado de dados passa a ser um verdadeiro tesouro em nosso tempo?

Paulo César Castro – O controle e a disciplina dependem fundamentalmente da vigilância, e os dispositivos digitais que usamos têm sido explorados com esses objetivos, de natureza comercial ou política. É a partir deles que geramos os dados que, armazenados e processados por diferentes algoritmos, vão dizer quem somos, quais as nossas reputações, se somos perigosos ou inofensivos, se merecemos ou não o financiamento pedido – e sob qual taxa de juros –, se seremos ou não aceitos pela seguradora de saúde. Nesse cenário, portanto, os dados são, sim, um verdadeiro tesouro. E à medida que as várias bases de dados sobre nós forem cruzadas pelos diferentes atores empresarias e estatais, maior será o controle e a vigilância. Convido a um exercício de reflexão sobre o que pode ser dito a nosso respeito, como seremos classificados e ranqueados, quando dados oriundos do uso cotidiano de nossos celulares e computadores, das informações que fornecemos quando fazemos um cadastro, em busca de descontos, e compramos em farmácias, postos de combustíveis, hortifrútis, são cruzados com dados em programas de milhagem, planos de saúde, seguros de automóveis, redes sociais e com as nossas informações guardadas pelos órgãos públicos. É assustador pensar que todas as nossas mínimas ações cotidianas estão sendo rastreadas e podem vir a ser usadas para nos controlar.

IHU On-Line – Quem são, ou o que são, os agentes que capturam dados nas redes?

Paulo César Castro – Os agentes são todas as empresas com as quais mantemos qualquer tipo de relação, seja através de uma conta de e-mail, um perfil de rede social, a assinatura de um serviço digital, mas também quando fazemos uma consulta em um mecanismo de busca, quando usamos um aplicativo, um game. Quando compramos um celular, um computador, um e-reader, uma smart tv – e não vai demorar muito, com a Internet das Coisas, quando adquirirmos qualquer produto –, não realizamos mais apenas uma mera transação comercial cuja consequência mais banal é levar o produto para casa; na verdade, estabelecemos um vínculo com as empresas, cujos termos de uso geralmente não lemos, no qual está implícito – ou mesmo explícito – que, dali em diante, alimentaremos com nossos dados as bases delas. Há situações em que, mesmo que não queiramos ser monitorados pelo produto que compramos, as opções são draconianas: ou nos submetemos ou não usamos – como é o caso do sistema operacional Windows. Devemos tentar fugir dessa vigilância orwelliana, mas estamos cada vez mais fadados a não conseguir.

IHU On-Line – De que formas as novas tecnologias e as operações em rede têm ressignificado as relações em clássicos campos como o da Educação e da Saúde? E em quais outros campos se percebe maior transformação?

Paulo César Castro – O alcance das tecnologias digitais está tão espraiado que será difícil encontrar um setor da vida cotidiana que não tenha sido impactado por elas. O que podemos considerar é qual está mais ou menos afetado. No que diz respeito aos campos da Educação e da Saúde, a dificuldade será avaliar a partir de qual aspecto eles foram mais transformados. Os casos da educação a distância e da telemedicina podem ser tomados como os exemplos mais visíveis da aplicação das tecnologias digitais sobre os dois campos, mas por causa delas também têm sido transformadas as relações entre professores e alunos, médicos e pacientes, entre instituições educacionais e de saúde com os profissionais e com a sociedade. A partir das informações disponíveis na web, os alunos e os pacientes não são mais os mesmos na sala de aula e no consultório e, evidentemente, o mesmo pode se dizer dos profissionais das duas áreas.

IHU On-Line – Que relação há entre as chamadas fake news e o controle e vigilância sobre o comportamento de usuários na internet?

Paulo César Castro – O que chamamos hoje de fake news não é um fenômeno novo; o que há de diferente é o seu impacto, já que as possibilidades de circulação de informações falsas, fabricadas, deturpadas ou cujos relatos ou dados não se apoiam em fatos reais realmente é muito maior. Informações falsas sobre possíveis malefícios das vacinas, que se transformam em verdadeiras campanhas antivacina, de teor geralmente sensacionalista, têm sido uma das faces mais preocupantes desse fenômeno que Claire Wardle e Hossein Derakhshan chamam de desordem informacional, no relatório para o Council of Europe. O campo da política tem sido também um dos mais impactados pelas campanhas deliberadas de desinformação, inclusive sendo usadas como estratégia de governantes, que, no geral, usam a expressão fake news para desqualificar o trabalho da imprensa.

O controle e a vigilância de usuários na internet, através de algoritmos, podem ser instrumentos importantes da eficácia das falsas informações, na medida em que, com o conhecimento detalhado do comportamento dos internautas, é possível dirigir a eles as mensagens que mais possam reforçar seus medos, insatisfações ou posições políticas extremadas e orientar suas decisões para os não declarados objetivos de alienação, polarização, construção de bolhas ideológicas e de câmaras de eco. A meu ver, há um bem pensado projeto político de extrema direita com proposta de alcance mundial, para eleição de dirigentes de vários países – ainda que baseado na revalorização do nacionalismo como forma de crítica à globalização e ao multilateralismo, na renovação do apego aos valores conservadores cristãos, dos discursos contrários às minorias, entre outros aspectos –, que tem como tática fundamental a desinformação. Um dos principais ideólogos desse projeto é o americano Steve Bannon , que foi coordenador de marketing da campanha eleitoral de Donald Trump , diretor do site de extrema direita Breitbart e membro do conselho da Cambridge Analytica , consultoria acusada de usar indevidamente os dados de milhares de usuários do Facebook para enviar a eles fake news e, assim, interferir nas eleições americanas de 2016.

IHU On-Line – Houve um tempo em que a informação era fundamental para a formação cidadã. Podemos considerar que, hoje, além da informação, a formação cidadã depende de conhecimento sobre as lógicas das tecnologias de nosso tempo?

Paulo César Castro – Sem dúvida nenhuma. Eu diria que representará quase que uma nova alfabetização. Se a maioria das pessoas diz não se importar com o uso de seus dados pelas empresas ou pelos governos é porque ainda não se conscientizou sobre como estão sendo exploradas. Claro que eles podem ser utilizados de modo a nos proporcionar ganhos positivos, facilidades no dia a dia, maior participação do debate público, mas podem também estar a serviço de projetos de poderes políticos e econômicos escusos, em que o controle e a vigilância poderão ser exercidos por empresas e Estados com objetivos totalitários, seja para aniquilar os adversários comerciais e nos impor seus produtos e serviços, ou, como pretende o governo chinês, para manter um olhar sempre atento sobre seus cidadãos e, assim, dominá-los.

Há cerca de duas semanas, o governo Bolsonaro editou o decreto 10.046, no qual está previsto o compartilhamento de informações pessoais de todos os brasileiros pelos órgãos da administração pública federal, inclusive biométricos e genéticos. Pode ser uma boa iniciativa, caso não precisemos mais de tantos documentos para provar quem somos quando tivermos que nos identificar aos órgãos estatais. O problema é que o projeto não prevê como o cidadão será informado quando seus dados forem compartilhados e com quais objetivos, e inclusive não leva em conta devidamente a Lei Geral de Proteção de Dados aprovada em 2018. O momento, portanto, exige uma formação cidadã, crítica, a respeito das potencialidades mas também dos riscos a que estamos expostos quando nossos dados são capturados por tecnologias digitais cujo funcionamento só é possível com os algoritmos. Dentro dessas verdadeiras caixas-pretas, como os chama Frank Pasquale, é que estão embutidas as lógicas capitalistas e de poder político, econômico e cultural que pretendem nos capturar. ■

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