Edição 543 | 21 Outubro 2019

Uma vida no Chthuluceno

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Ricardo Machado

Fernando Silva e Silva analisa como a ficção científica, com seus limites e possibilidades, nos instiga a pensar os desafios do tempo presente e nutre nossa imaginação política

Não é possível haver uma literatura fora de uma dimensão política. A questão não se reduz, de forma alguma, a espectros políticos, mas, sim, a sua expressão em determinadas condições de produção e circulação. Na ficção científica não é diferente. “A ficção científica tem se tornado cada vez mais um gênero que abriga experimentações de todo tipo que alimentam nossa imaginação política”, aponta Fernando Silva e Silva, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

O termo Chthuluceno aparece, pela primeira vez, em um conto de H.P. Lovecraft e descreve um ser monstruoso com muitos tentáculos que vem do subterrâneo e que é capaz, com seus tentáculos, de se apropriar de tudo. Contemporaneamente, a antropologia e a filosofia também se valeram do conceito para pensar os atuais desafios ambientais. “Chthuluceno é um termo proposto, meio a sério, meio de brincadeira, pela filósofa estadunidense Donna Haraway. Ela emprega esse termo como uma maneira de complementar e desafiar o que está se tornando a narrativa vigente das mudanças climáticas: o Antropoceno”, explica Silva.

Nesse trânsito entre literatura e filosofia, arte e ciência, a ficção científica tem o poder de jogar outras luzes sobre aquilo que parece ser insolúvel. “Precisamos, portanto, elaborar um pensamento que leve em conta a Terra, seus habitantes e seu estado crítico de transição climática e, ao mesmo tempo, fundamente um projeto político consistente para a possibilidade de vida humana e não-humana no futuro”, propõe o entrevistado. “Apesar de seu tom um pouco sombrio, portanto, sobreviver no e pelo Chthuluceno tem a ver com cultivar afetos alegres que criem conexões e aumentem nossa habilidade coletiva de agir e de responder aos desafios atuais”, frisa.

Fernando Silva e Silva possui graduação em Licenciatura em Letras Francês pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e mestrado em Estudos da Linguagem pela mesma universidade. Atualmente é graduando (UFRGS) e doutorando (PUCRS) em Filosofia. Seus principais temas de pesquisa hoje são a filosofia ambiental, a história das ciências e da filosofia e as obras de Alfred N. Whitehead e Isabelle Stengers.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que pode a literatura em termos de imaginação política?
Fernando Silva e Silva – A literatura é sempre, de saída, política. Não apenas no que diz respeito àquilo que poderíamos chamar de seu “conteúdo” narrativo, mas também suas condições, sempre em transformação, de produção, circulação e leitura. Também devemos levar em conta, em cada recorte histórico, as linhagens formais e temáticas que os textos se reinvindicam, sua distribuição em gêneros mais ou menos socioculturalmente privilegiados e a conexão dessas obras com outras instituições coletivas. Dito isso, a literatura é sempre produto e produtora de imaginações e imaginários políticos em disputa e os efeitos de sua circulação são difíceis de prever de antemão.

Ultimamente, o conceito de cronotopo bakhtiniano , parte importante de sua poética histórica, tem me ajudado a cultivar outra forma de atenção e acredito que ele é bastante elucidativo neste caso. Um cronotopo é a cristalização de uma combinação específica de tempo, espaço e subjetividade que podemos encontrar tanto na literatura quanto no mundo. Nele, essas três categorias condicionam-se mutuamente e a transformação em uma delas engendra uma transformação generalizada. Dessa forma, o que o conceito nos sugere é que há conexões – visíveis e invisíveis, conscientes e inconscientes – entre certas espacialidades, temporalidades e subjetividades e que essas configurações são situadas e contingentes. Assim, diante de um certo espaço, como uma universidade, um parque, um subúrbio, o cronotopo nos convida sempre a colocar a questão de que temporalidades estão sugeridas naquela espacialidade, para que subjetividades ela está aberta. Isso nos permite ver com mais clareza os desdobramentos concretos de imaginações políticas, seja para defendê-las ou criticá-las.

A literatura, enquanto abertura especulativa, permite explicitar, consolidar, e o que é mais importante, inventar e jogar com tais cronotopos e seus elementos o que, em seguida, pode reorganizar esses cronotopos e elementos no mundo. Deleuze e Guattari dão frequentemente, entre outros, o exemplo do romance de cavalaria como um gênero em que se consolida o agenciamento de uma certa subjetividade, a do cavaleiro, marcada por sua relação com seu cavalo, o amor cortês e seus deveres vassalais com seu senhor e com deus, uma certa espacialidade, a ausência de lar senão a longuíssima estrada com paradas passageiras de respiro, amor ou aventura, e a temporalidade da conjunção amorosa e da salvação constantemente adiadas. Essas características são indissociáveis da configuração do feudalismo, mas ao mesmo tempo apontam para traços de sua dissolução. Devemos encarar com o mesmo olhar analítico os grandes gêneros ficcionais contemporâneos, sobretudo com atenção ao que eles perpetuam e o que buscam criar.

IHU On-Line – Nesse sentido, como a ficção científica nos ajuda a superar o deserto da imaginação, ultrapassando a ideia de que “não há alternativas” e propondo respostas possíveis às crises de nosso tempo?
Fernando Silva e Silva – O realismo se tornou o gênero – talvez fosse mais adequado falar em estrutura ou imagem do pensamento – predominante sobre toda outra forma de ficção a partir do século XIX. Dando preferência à narração em terceira pessoa, à linearidade, à língua padrão e a situações próximas ao senso comum do leitor, o realismo tem a pretensão de retratar o mundo tal qual ele se apresenta. Mesmo com a retomada e a multiplicação da experimentação formal e temática no início do século XX e a análise e crítica profundas do gênero e seus pressupostos, o realismo segue sendo amplamente considerado sinônimo de “literatura séria”, enquanto outras formas literárias são desdenhadas por serem “comerciais”, “escapistas” ou “de entretenimento”.

Retomando o que eu disse antes sobre o cronotopo, o realismo frequentemente limita sua criação às situações já dadas pelos cronotopos hegemônicos, isto é, os espaços, tempos e subjetividades situados no capitalismo, o patriarcado, o racismo e que favorecem sua manutenção. É evidente que mesmo a ficção não realista quase sempre toma para si tais limitações e as reproduz em suas páginas, ainda que em uma galáxia distante ou em uma terra mágica. No entanto, a ficção científica tem se tornado cada vez mais um gênero que abriga experimentações de todo tipo que alimentam nossa imaginação política.

Desde seus primórdios nas páginas baratas de revistas e livros populares de aventura – deixando de lado aqui a relação com gêneros clássicos anteriores –, a ficção científica possui um potencial de através da arte ficcional fazer emergir futuros latentes, sejam eles desejados ou temidos. No entanto, no mais das vezes o que se encontra são obras que reproduzem tropos da conquista do oeste e do colonialismo, mas agora no espaço. Mesmo textos que se mostram mais críticos, geralmente empregam uma alegoria para articular uma denúncia ao estado das coisas – podemos pensar em narrativas de H.G. Wells , por exemplo – mas não oferecem alternativas à imaginação. Desde os anos 1960 e 1970, todavia, em especial pela pena de mulheres, vêm surgindo narrativas que não apenas denunciam injustiças históricas, mas que tecem novas formas de produzir e combinar espaços, tempos e subjetividades, em especial, neste último, refazendo o que pode significar o gênero, a raça e mesmo a espécie humana.

IHU On-Line – Como pode a escrita sabotar as máquinas de subjetivação capitalista?
Fernando Silva e Silva – Sabotar uma maquinaria de maneira efetiva presume um conhecimento mínimo do encaixe e funcionamento de suas peças. Nesse entendimento, a literatura tem um poder duplo. Como descrevi em um trabalho recente com André Araujo, em uma primeira dimensão, ela pode nos revelar – a despeito de qualquer intenção do autor ou autora – esses encaixes fundamentais da máquina capitalista e suas vulnerabilidades. Em uma segunda dimensão, a própria maquinaria da ficção pode se acoplar, intervir, parasitar a maquinaria do capital, fazendo circular código infectado.

Concordo com os vários autores e autoras contemporâneos que apontam que o poder do capitalismo e do Estado (já quase indiferenciáveis) residem hoje antes de tudo nas infraestruturas. Portanto, as máquinas de subjetivação atuam ininterruptamente sobre – e especialmente através – os indivíduos sob o capital independente da influência direta das instituições conhecidas como aparelhos ideológicos do Estado. Sendo assim, a ação efetiva da ficção ocorrerá também infraestruturalmente.

Isto é, essa sabotagem se realizará através da disseminação de ficções que desloquem as perspectivas dominantes da propriedade privada, do heteropatriarcado, da supremacia branca e da relação dos humanos com não-humanos, a terra e o planeta. Podemos pensar, por exemplo, em Os despossuídos (São Paulo: Editora Aleph, 2017) de Ursula Le Guin que narra em capítulos alternados as experiências de seu protagonista anarquista, Shevek, em sua lua natal, uma sociedade anarquista, e no planeta natal de sua espécie, uma sociedade com desigualdades de classe e gênero. Shevek opera com uma espécie de prisma, que constantemente altera nossos modos de interpretar as sociedades postas em relação, fazendo saltar aos olhos as arbitrariedades da riqueza, da propriedade privada e do gênero sem representar, no entanto, Anarres, a sociedade anarquista, como uma utopia finalizada, estática e perfeita. O que o romance nos mostra, ativando outras maneiras de pensar, é que não há nada de evidente nas posições de classe ou nos papéis de gênero sem, porém, autodeclarar-se detentor da resposta aos deslocamentos provocados.

IHU On-Line – De onde vem esse termo, Chthuluceno?
Fernando Silva e Silva – Chthuluceno é um termo proposto, meio a sério, meio de brincadeira, pela filósofa estadunidense Donna Haraway . Ela emprega esse termo como uma maneira de complementar e desafiar o que está se tornando a narrativa vigente das mudanças climáticas: o Antropoceno. O Antropoceno – ou o Capitaloceno, nomenclatura que explicitaria com mais clareza os responsáveis pela destruição em curso – se situaria após o Holoceno, época que teria iniciado mais ou menos 12 mil anos atrás, ao fim da última era do gelo. O Chthuluceno, por outro lado, está relacionado ao longo e ininterrupto trabalho das agências tentaculares que constituem a Terra material e imageticamente. Isto é, trata-se dos fungos fixando nitrogênio ao solo, dos fitoplânctons produzindo oxigênio, das bactérias que abundam em todo ser multicelular, desempenhando as mais diversas funções; também se trata de deusas e criaturas anciãs como a Cobra Grande dos ameríndios do Norte e Nordeste do Brasil, a Pachamama andina e a Gaia grega. O que está em jogo no Chthuluceno, em seu mais profundo passado, em nosso presente e em um futuro por construir, é a capacidade de prestar atenção e dar significado a esses processos ctônicos (do grego khthónios, subterrâneo).

A relação do termo com a obra de H. P. Lovecraft e sua mitologia, encabeçada por seu próprio deus ancião, Cthulhu, é inevitável, ainda que a própria Haraway tente desfazer essa associação. Não só pela similaridade dos termos (temos apenas uma pequena diferença quanto à posição de um H), mas também pela ênfase nos tempos e espaços profundos, a imagem da tentacularidade etc. O desejo da filósofa de não ser vinculada a Lovecraft é perfeitamente razoável, considerando que o racismo e a misoginia são facilmente identificáveis em seus contos e eram traços do caráter do próprio autor. Tenho trabalhado, porém, junto com André Araujo, com a tese de que a ficção lovecraftiana nos oferece um mapa da retorcida geografia imaginária da supremacia branca e que, nesse sentido, há algo ali que podemos voltar contra ela.

IHU On-Line – Como o conto de Lovecraft, O chamado de Cthulhu, engendra um debate que ressoa na realidade contemporânea?
Fernando Silva e Silva – O chamado de Cthulhu (Porto Alegre: L&PM, 2017) é um ótimo exemplo do que apontei na resposta anterior. Considerado um dos melhores e mais importantes contos de Lovecraft, o texto está repleto de racismo. Nessa narrativa, diferentes pessoas relatam eventos estranhos e aterradores que aconteceram em diferentes lugares, mas que possuem em comum a imagem de um ser tentacular e o nome Cthulhu. Pelo que o texto deixa transparecer, os mais vulneráveis ao chamado desse deus ancião maligno são os de “sangue ruim e misturado”, os “praticantes de vudu”, os “esquimós”, enfim, não-brancos que o autor vê como inferiores. Ao final do conto, marinheiros libertam desavisadamente Cthulhu na cidade pesadelo R’lyeh, cuja arquitetura incompreensível de geometria não-euclideana desafia suas cognições. Os poucos marinheiros que sobrevivem ao encontro enlouquecem.

O que se revela para nós, em uma leitura pelo avesso, é a alterofobia inerente à supremacia branca e sua capacidade de agregar tudo aquilo que ameaça sua constituição, em nível social, político e cósmico. Sem dúvida, nos é hoje fácil reconhecer esse pavor difuso direcionado tanto aos sujeitos não-brancos, quanto às práticas espirituais de matriz africana e aos povos originários. O horror diante da possibilidade desse encontro não poder mais ser adiado, devido a esse chamado vindo das entranhas da terra que já não é possível ignorar, é capaz de distorcer o próprio espaçotempo.

IHU On-Line – Logo no início do conto, O chamado de Cthulhu, o narrador descreve: “As ciências, cada uma vagando em sua própria direção, até hoje não nos causaram muito mal, mas algum dia a junção dos conhecimentos dissociados vai descortinar panoramas tão assustadores da realidade...”. Associando a narrativa às sociedades tecnocientíficas, que aproximações podemos fazer com relação às consequências do Antropoceno?
Fernando Silva e Silva – Essa passagem, e o conto como um todo, sintetizam uma aguda característica do imaginário lovecraftiano: a fascinação e o horror causado pelas profundezas. O desejo de penetrá-las e o pavor da certeza da incapacidade de viver com as consequências. Esse imaginário, portanto, quando diante das ciências, expressa a mesma ambiguidade. Em vários contos de Lovecraft, encontramos o percurso de um homem em busca de conhecimento, seja profissional ou diletante, que, em seu anseio de conhecer mais, cruza uma fronteira invisível e se vê frente a frente com um horror inominável.

Apesar dessa estrutura parecer remeter a outras narrativas da hybris tecnológica do Homem – e poderíamos sem muitas dificuldades imaginar as mudanças climáticas como o rompimento de um limite invisível proibido e o acordar de um monstro incontrolável –, o que está em jogo para Lovecraft é uma certeza sobre o lugar cósmico de todas as coisas. O horror e o desprezo que pululam em seus contos e encontram perigos em todos os lugares indicam que a única existência segura e adequada é a de um homem branco na Nova Inglaterra que ignora qualquer chamado do Outro. Isto é, aqui, a tecnofobia torna-se também uma forma de proteção contra a alteridade (novamente, não precisamos ir muito longe para identificar essa atitude hoje).

Perceber esse componente tecnofóbico que pode estar presente no funcionamento da supremacia branca (ainda que haja também o inverso, a tecnofilia do transumanismo versão Vale do Silício) é importante para que estejamos atentos ao tipo de crítica que fazemos à ciência e à tecnologia e que tipos de aliança essas críticas suscitam. No contexto do Antropoceno, há todo um complexo tecnocientífico(militar) que precisa ser colocado em questão desde seus pressupostos coloniais e frequentemente teológicos, mas ao mesmo tempo devemos estar atentos às armadilhas da tecnofobia que assombra o discurso e a prática ecológica.

IHU On-Line – Em um exercício de filosofia especulativa, como poderíamos imaginar as Ontologias do Chthuluceno?
Fernando Silva e Silva – O Chthuluceno, como eu disse antes, tem a ver com a sobreposição e a coprodução de corpos, espaços, tempos e modos de vida. Com inspiração na autopoiese (do grego auto, próprio, e poiesis, criação ou produção) dos pensadores dos sistemas, fala-se aqui em simpoiese (do grego syn, junto) de modo a sublinhar o caráter coletivo de toda criação e organização e o fato de que não há sistemas, de fato, fechados em si. Falamos em uma sincronia, um compartilhamento da terra. Podemos pensar na elegante máxima de Haraway: “tudo está conectado a algo, nada está conectado a tudo”. Isto é, diferente do discurso ecológico do senso comum e do neoliberalismo globalizado, não se trata de mostrar que “tudo está conectado”, pois isso oculta a intrínseca localidade das conexões e seus diferentes graus de importância.

O discurso clássico da ontologia, que sobrevive até hoje, de que seria possível repertoriar os tipos e categorias de seres e seus modos de vir a ser ou mesmo de que seria possível desenhar um limite claro entre características ou zonas ontológicas tais como substância e acidente, natureza e cultura, fatos e valores etc. é inadequado para o projeto metafísico, social, político e cósmico do Chthuluceno. O que está em questão é a processualidade e a composição e recomposição de entidades que nunca estão fechadas em si, mas sempre encontrando novos companheiros de vida, livrando-se de antigos, conciliando corporalidades, espacialidades e temporalidades estrangeiras umas às outras.

IHU On-Line – A propósito, é possível haver filosofia em um mundo ferido?
Fernando Silva e Silva – Usei esta expressão “fazer filosofia em um planeta ferido” em alguns dos meus últimos trabalhos inspirado na coletânea Arts of living on a damaged planet (2017), organizada pela antropóloga Anna Tsing e outros pesquisadores. Penso não só que é possível, mas que é, na verdade, necessário. As mudanças climáticas são um fenômeno excessivamente grande para que sejam ignorados pelo pensamento filosófico, até mesmo porque vemos em todos os lugares seus efeitos ecológicos, econômicos, políticos e sociais.

O que se coloca como um desafio para essa reflexão urgente, no entanto, é o fato de que a filosofia Ocidental, desde certas linhagens gregas, nutre um pensamento centrado sobre a essência, a permanência e a identidade. Na modernidade, essa perspectiva se consolida com a fundação do próprio conceito de Natureza como algo inerte, imutável e alheio ao humano. A tarefa que se impõe, então, é enorme. Como diz Bruno Latour , as mudanças climáticas fizeram com que, de repente, bilhões de pessoas que andavam flutuando no espaço aterrissassem na Terra e lembrassem que habitam num planeta com propriedades e limites materiais. Precisamos, portanto, elaborar um pensamento que leve em conta a Terra, seus habitantes e seu estado crítico de transição climática e, ao mesmo tempo, fundamente um projeto político consistente para a possibilidade de vida humana e não-humana no futuro.

IHU On-Line – Como a arte pode nos inspirar a pensar novos caminhos políticos e novas formas de vida, enfim, outras ontologias?
Fernando Silva e Silva – Entendo a arte como ainda outra forma da ficção. Seu poder de invenção, estou pensando, por exemplo, na música ou nas artes visuais, e manipulação dos elementos do cronotopo vai além do conceitual e adentra no sensível. Isso porque sua busca criadora também passa por novas visualidades, audibilidades, tatilidades etc. Além disso, a arte como um todo, como nos ensinam Deleuze e Guattari, faz pensar os perceptos e afetos e, assim, abrem a subjetividade a outras percepções e afetividades possíveis.

Como disse antes sobre a ficção, no campo das artes também precisamos estar atentos às correntes e tendências que reiteram as condições fundamentais da dominação capitalista. Isso pode ocorrer através da repetição das formas de expressão majoritárias que atrofiam as capacidades de nossa atenção para outras expressividades, ou ainda, de maneira mais vil, através da captura e diluição de expressividades minoritárias e/ou radicais em produtos dóceis e inócuos.

E isso certamente não se trata apenas de, individualmente, ter “o gosto certo”. A questão não é rejeitar os grandes produtos comerciais e apreciar os produtos mais refinados ou as expressões que pareçam ser mais “autênticas”. Se trata antes disso da arte, da ficção, como um caminho de relacionalidade, como algo que funda subjetividades e une pessoas através de percepções e afetividades outras sem, no entanto, criar um nicho de mercado ou um público-alvo. Trata-se também de apoiar ou divulgar artistas que te digam algo hoje sobre hoje e sobre o futuro.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Fernando Silva e Silva – Queria apontar uma última questão sobre o Chthuluceno. Essa época, em sua forma presente, também é a percepção da escassez atual de refúgios tanto para humanos quanto não-humanos e da necessidade de cultivar novas relações, através de novas formas de atenção, de modo que possamos coletivamente viver e morrer bem em tempos difíceis. Há um compromisso ético com o florescimento e proteção de alianças estranhas e inéditas. Esse compromisso é assumido diante da realidade da dificuldade de nossa sobrevivência em nosso planeta em suas condições atuais. Ao mesmo tempo, é um compromisso que chama à responsabilidade aqueles que destruíram e destroem refúgios (ambientais, sociais, afetivos) e provocam a vida e a morte indignas de incontáveis seres. Apesar de seu tom um pouco sombrio, portanto, sobreviver no e pelo Chthuluceno tem a ver com cultivar afetos alegres que criem conexões e aumentem nossa habilidade coletiva de agir e de responder aos desafios atuais. ■

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