Edição 543 | 21 Outubro 2019

O bárbaro tecnizado é a possibilidade humana de olhar para um futuro próspero

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

Éder Silveira discute a obra de Mário de Andrade, ressaltando as intuições do movimento modernista no Brasil e resgata conceitos importantes para pensarmos a contemporaneidade

Pensar o Modernismo Brasileiro como um movimento linear, pacífico e homogêneo é um equívoco enorme. Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o professor doutor Éder Silveira salienta que “coexistiram, no seio do que convencionamos chamar de modernismo brasileiro, fortes tendências nacionalistas, de pendor bastante romântico até, além de profundamente reacionário e uma compreensão mais cosmopolita, mais atenta ao que acontecia na literatura europeia e latino-americana”, esclarece Silveira. “Na, por assim dizer, ‘fase heroica’ do modernismo, que vai até o final da década de 1920, Mário de Andrade estava mais próximo da segunda tendência, ainda que fosse evidente em seus trabalhos um interesse de pesquisa etnográfica. Se Macunaíma conseguiu fundir o interesse no folclore brasileiro com um rigor formal que lembra em muito os esforços das vanguardas, depois de Macunaíma Mário passa a se afastar deste registro vanguardista e se aproximar mais e mais da pesquisa etnográfica. Não seria exagero dizer que Macunaíma foi o ápice e a despedida de um certo conjunto de preocupações, especialmente formais”, complementa.

Um longo, complexo e tecnológico fio conecta Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Davi Kopenawa, o líder yanomami autor de uma das principais obras de etnologia na contemporaneidade. “Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago, fala do ‘bárbaro tecnizado’, em parte respondendo ao pretenso líder do modernismo, Graça Aranha, que defende nosso caráter bárbaro, no entanto com viés passadista. Bárbaros do passado que teima em permanecer. Oswald afirmava que somos os bárbaros tecnizados, dominamos a técnica do ocidente mas nos assumimos como o novo, que aponta para o futuro”, ressalta o entrevistado. “A queda do Céu. Palavras de um xamã yanomami está entre os livros mais importantes que foram publicados no Brasil, em décadas. Sim, não é um exagero dizer que Kopenawa é nosso bárbaro tecnizado, uma vez que no livro ele aponta soluções para problemas que são problemas de toda a humanidade, desde uma cosmovisão, a um só tempo, ameríndia e ocidental. Kopenawa nos oferece um caminho para sairmos da armadilha que criamos para nós mesmos. Um projeto político e civilizatório. Oxalá A Queda do Céu seja a obra mestra da Revolução Caraíba e que se ouça a voz do homem equatorial”, sustenta.

Éder da Silveira é doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, com estágio de Pós-doutorado realizado junto ao Departamento de História da Universidade de São Paulo – USP. É autor de A cura da raça: eugenia e higienismo no pensamento médico sul-riograndense nas primeiras décadas do século XX UPF, 2005, de Tupi or not tupi. Nação e nacionalidade em José de Alencar e Oswald de Andrade (Edipucrs, 2010) e "Oswald ponta de lança e outros ensaios" (Bestiário, 2016). É professor na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – UFCSPA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significou a publicação de Macunaíma em termos políticos e culturais na ocasião de seu lançamento?
Éder Silveira – Macunaíma (São Paulo: Ubu Editora, 2017) teve a mesma sorte de muitas das grandes obras do modernismo brasileiro: uma recepção crítica que podemos até considerar numerosa frente ao número de leitores que a obra conseguiu atrair. Foram cerca de 13 resenhas desde a sua publicação, em julho de 1928, até dezembro do mesmo ano. Os grandes nomes do modernismo na literatura, como Mário de Andrade , Oswald de Andrade e outros tantos, estavam habituados a números bastante modestos. Macunaíma teve uma tiragem de apenas 800 exemplares, em brochura simples. Só veio a ser republicado em 1937, em uma edição bastante alterada pelo autor, com apenas 1 mil exemplares impressos. Se compararmos com os números impressionantes de autores que vendiam muito, como por exemplo Monteiro Lobato , teremos a dimensão do que procuro destacar. Há um visível descompasso entre o impacto que a obra teve entre a, digamos, elite letrada e o universo de leitores. O verdadeiro reconhecimento crítico de Macunaíma, aliado à atração de um maior público leitor da obra, viria somente cerca de uma década depois da morte do autor, com a publicação de Roteiro de Macunaíma (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979), de M. Cavalcanti Proença e das obras completas de Mário de Andrade. Ou seja, uma canonização um tanto tardia de uma obra clássica.

IHU On-Line – Em linhas gerais, quais são as compreensões de Mário de Andrade a respeito das noções de estética e cultura brasileira e como se configura seu vanguardismo?
Éder Silveira – Há uma transição no pensamento de Mário de Andrade que é bastante importante para compreendermos o seu entendimento de alguns conceitos centrais do modernismo. Coexistiram, no seio do que convencionamos chamar de modernismo brasileiro, fortes tendências nacionalistas, de pendor bastante romântico até, além de profundamente reacionário (os movimentos Anta e Verdeamarelo) e uma compreensão mais cosmopolita, mais atenta ao que acontecia na literatura europeia e latino-americana. Na, por assim dizer, “fase heroica” do modernismo, que vai até o final da década de 1920, Mário de Andrade estava mais próximo da segunda tendência, ainda que fosse evidente em seus trabalhos um interesse de pesquisa etnográfica. Se Macunaíma conseguiu fundir o interesse no folclore brasileiro com um rigor formal que lembra em muito os esforços das vanguardas, depois de Macunaíma Mário passa a se afastar deste registro vanguardista e se aproximar mais e mais da pesquisa etnográfica. Não seria exagero dizer que Macunaíma foi o ápice e a despedida de um certo conjunto de preocupações, especialmente formais.

IHU On-Line – O que o distanciamento de Mário de Andrade em relação ao núcleo do Modernismo Brasileiro, em especial a Oswald, que passa a atacá-lo na Revista de Antropofagia, impactou em sua literatura? Por que houve esse desentendimento?
Éder Silveira – A relação entre os Andrades, duplos complementares do modernismo brasileiro, pode ser lida de inúmeras maneiras, ainda que costume se sobressair uma tentativa de transformar o embate dos autores em um roteiro de melodrama. Havia, desde o início da aventura modernista, uma tensão entre vários dos autores que estavam reunidos em torno deste esforço de renovação estética. No final dos anos 1920, os interesses de Oswald de Andrade se voltavam, cada vez mais, para a política e para a radicalização estética em sua obra. Ele acreditava que o esforço de Mário de Andrade em mergulhar no folclore brasileiro acabava resvalando em certo passadismo. Mário, que no final das contas desejava ser um maître à penser (o número de cartas e de comentários aos jovens autores que buscavam seus conselhos é um bom indicativo disto), sentia-se acuado pelas críticas de Oswald e pela posição que ele buscava assumir. Macunaíma, obra composta com zelo por Mário, foi a gota d’água. A recepção amarga da obra pela Revista de Antropofagia, cujo tom foi dado por Oswald, sepultou a amizade de ambos e, com isso, o seu diálogo.

IHU On-Line – Como podemos entender o sentido da expressão bárbaro tecnizado, formulada por Oswald de Andrade, outro autor do Modernismo Brasileiro? Como essa ideia se expressa na literatura de Mário de Andrade, em especial em Macunaíma?
Éder Silveira – Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago, fala do “bárbaro tecnizado”, em parte respondendo ao pretenso líder do modernismo, Graça Aranha , que defende nosso caráter bárbaro, no entanto com viés passadista. Bárbaros do passado que teima em permanecer. Oswald afirmava que somos os bárbaros tecnizados, dominamos a técnica do ocidente mas nos assumimos como o novo, que aponta para o futuro. Era dada a hora do homem equatorial falar, como teria dito Oswald em outro texto. Com esse movimento, o autor está afirmando que não devemos nada ao ocidente, somos a matriz cultural do novo. Este aforisma remete a autores como Keyserling , que esteve no Brasil e cuja obra O mundo que nasce, de 1927, influenciou tanto a Oswald quanto a Mário. Ambos partilhavam, nesta época, inúmeras leituras, como Keyserling, Freud e James Frazer , portanto há inúmeros diálogos possíveis entre Macunaíma e o Manifesto Antropófago.

IHU On-Line – Fazendo um salto enorme, em que sentido poderíamos compreender Davi Kopenawa, autor de A queda do céu, como nosso bárbaro tecnizado?
Éder Silveira – A queda do Céu. Palavras de um xamã yanomami (São Paulo: Companhia das Letras, 2015) está entre os livros mais importantes que foram publicados no Brasil, em décadas. Sim, não é um exagero dizer que Kopenawa é nosso bárbaro tecnizado, uma vez que no livro ele aponta soluções para problemas que são problemas de toda a humanidade, desde uma cosmovisão, a um só tempo, ameríndia e ocidental. Não se trata de um “índio” falando de problemas de “índio”, por assim dizer. As respostas que ele oferece em sua obra tratam de problemas que são problemas da humanidade, como a relação do homem com a natureza, com a tecnologia e com a ciência. Kopenawa nos oferece um caminho para sairmos da armadilha que criamos para nós mesmos. Um projeto político e civilizatório. Oxalá A Queda do Céu seja a obra mestra da Revolução Caraíba e que se ouça a voz do homem equatorial.

IHU On-Line – Retomando Mário de Andrade, qual a importância do autor na construção de uma outra noção de nacionalidade, fora do esquema patriótico, via de regra conservador e elitista?
Éder Silveira – Desde a década de 1920, a obra de Mário de Andrade se consolida sobre um tripé, qual seja, o popular, o internacional e o folclórico-nacional. No seu tempo, muitos autores tiveram a preocupação com o estudo do folclore e da cultura popular, sendo inclusive mais profundos do que Mário neste tema, tomo como exemplo maior Câmara Cascudo . Agora, o que é diferente e, portanto, marcante na interpretação do autor de Macunaíma é essa tentativa constante de elaborar uma síntese, uma mediação entre aquilo que de mais novo e por vezes dissonante se produzia fora do país (a correspondência e as redes de amigos que mantinham a biblioteca de Mário de Andrade sempre atualizada são um capítulo a parte em sua biografia), com o mergulho no Brasil e na brasilidade. Além das bastante lembradas viagens a Minas Gerais e da descoberta do Barroco Mineiro, precisamos ter em vista a “Missão de pesquisas folclóricas”, empreendida por Mário na década de 1930. Acompanhado de uma equipe, os registros musicais, poéticos e em vídeo trazidos por ele, por si só, deveriam garantir um lugar no panteão dos nossos maiores pesquisadores. E isso foi apenas uma parte do esforço ciclópico de Mário em abarcar a brasilidade. ■

Últimas edições

  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição