Edição 543 | 21 Outubro 2019

A realidade multifacetada dos Brasis na Literatura

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Ricardo Machado

Luís Augusto Fischer traça um panorama das vertentes históricas que marcaram a literatura produzida no país

Pensar as formações literárias em nosso país em perspectiva histórica implica considerar, ao menos, duas grandes vertentes, aquela produzida no litoral, mais ligada ao regime da plantation, e aquela produzida no Brasil profundo. Enquanto a literatura mais litorânea expressa, “nas letras impressas, basicamente o ponto de vista dos luso-brasileiros e (...) nas letras cantadas, na canção, o ponto de vista dos afro-brasileiros”, a outra, a produzida no Brasil profundo “tem a ver com o mundo interior, o mundo do sertão”, em que “se criou uma literatura excepcionalmente interessante, derivada em maior ou menor grau da experiência ameríndia, dos caboclos, dos caipiras, dos gaúchos, dos sertanejos nordestinos”. As definições entre aspas são do professor doutor e escritor Luís Augusto Fischer, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Mas pensar esses dois grandes eixos, nem de longe significa reduzir a multiplicidade que caracteriza a produção literária no Brasil. Fischer destaca um movimento literário mais recente que está ligado ao norte do país. “Talvez haja uma terceira formação, ainda se preparando para alçar voo propriamente literário, que seria a da Amazônia. Imaginação e palavra não faltam a esse mundo, há muitíssimas gerações, na forma de histórias, de sonhos, de relatos”, argumenta. Há ainda um outro recorte possível. “E nem falamos de outro recorte possível, o de gênero — mulheres passaram a reivindicar a singularidade de sua dicção há duas gerações, e agora essa outra família de textos é reconhecível. Fica entre parênteses essa lembrança”, complementa.

Luís Augusto Fischer é doutor, mestre e graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, onde leciona. É autor de vários livros, entre eles Inteligência com dor – Nelson Rodrigues ensaísta (Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2009), Machado e Borges – e outros ensaios sobre Machado de Assis (Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2008) e Dicionário de porto-alegrês (Porto Alegre: L&PM Editores, 2000). Fez a edição anotada de Contos gauchescos e Lendas do Sul (Porto Alegre: L&PM Editores, 2012), de Simões Lopes Neto, e de Antônio Chimango (Caxias do Sul: Editora Belas Letras, 2016), de Amaro Juvenal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Ao observar a literatura brasileira em perspectiva histórica, que brasis podem ser encontrados?
Luís Augusto Fischer – A pergunta tem um pressuposto meio capcioso, talvez contraditório, porque opõe “literatura brasileira” a “brasis”, o que evidencia uma tensão que tem tudo a ver com o teor da pergunta — afinal, teríamos uma coisa una chamada “literatura brasileira” ou teríamos, quase ao contrário, várias literaturas correspondentes a vários “brasis”? Mas respondendo de sangue doce, sem intenção polêmica, é claro que se pode afirmar que há muitas formações culturais, tanto algumas de recorte geográfico, quanto outras de recorte étnico, cada uma das quais pode ser lida segundo certa homogeneidade interna. Por um lado e por outro, se evidencia a artificialidade da concepção unitarista, linear, exclusivista de uma hipotética “literatura brasileira” homogênea, que não existe, salvo nas descrições historiográficas triviais, como aquelas dos programas de ensino e dos vestibulares das gerações passadas e que ainda hoje mantêm certa força de permanência. De fato, se há mesmo algo que seja comum a toda a produção literária feita no território brasileiro, esse ponto em comum é a língua portuguesa — e mesmo assim ela não é exatamente uma coisa só, e nem é verdade que apenas em português se pode produzir literatura no território do Brasil, bastando reconhecer o plurilinguismo efetivamente existente, se prestarmos atenção às várias línguas indígenas ainda vivas.

Entre parênteses: a pergunta e esta resposta giram em torno de um eixo cada dia menos firme, que é o eixo que estruturou o nacionalismo moderno, que tem uns 250 anos de vida, no máximo. Para a constituição, validação e consolidação da identidade nacional é que se inventou esse eixo, que por vários motivos está girando em falso, ou girando com folgas, neste nosso tempo. Matéria para outra conversa.

Voltando ao ponto: não vamos aqui falar das literaturas ou das formações regionais no Brasil, porque isso parece polêmica velha (embora não seja); falemos do que se poderia chamar de diferentes formações étnico-históricas, algo assim, existentes no território brasileiro, que se expressam em português, ou em alguma das variantes do português brasileiro.

Pensando por aí, temos ao menos duas grandes formações literárias no Brasil — uma, a mais evidente e conhecida, é a literatura produzida no âmbito do litoral, quer dizer, das cidades de algum modo ligadas ao regime da “plantation”, que expressam, nas letras impressas, basicamente o ponto de vista dos luso-brasileiros (de Salvador, de Ouro Preto, do Rio, do Recife, um pouco de Porto Alegre ou Curitiba e outras cidades semelhantes etc.), e que também expressam, nas letras cantadas, na canção (que evidentemente é uma forma literária, ou ao menos também literária), o ponto de vista dos afro-brasileiros (nas mesmas cidades e regiões).

A outra grande formação literária brasileira tem a ver com o mundo interior, o mundo do sertão — não só o sertão seco do Nordeste, mas de todo o território que não esteve diretamente ocupado por alguma das culturas da plantation (cana de açúcar e café, basicamente), portanto toda a parte do território brasileiro excetuado o litoral e a floresta amazônica. Neste mundo também se criou uma literatura excepcionalmente interessante, derivada em maior ou menor grau da experiência ameríndia, dos caboclos, dos caipiras, dos gaúchos, dos sertanejos nordestinos. É a literatura cujo ponto mais alto está em Guimarães Rosa ou em certo Graciliano Ramos , mas também, antes, nos contistas “regionais”, como Afonso Arinos e Simões Lopes Neto . É uma literatura fortemente derivada da tradição oral, dos causos, das lendas, que nascem e florescem na fronteira entre a visão de mundo ameríndia e a visão de mundo dos luso-brasileiros pobres que inventaram o mundo interior, com uma porção menor de herança poética e narrativa dos afro-brasileiros.

Talvez haja uma terceira formação, ainda se preparando para alçar voo propriamente literário, que seria a da Amazônia. Imaginação e palavra não faltam a esse mundo, há muitíssimas gerações, na forma de histórias, de sonhos, de relatos.

(E nem falamos de outro recorte possível, o de gênero — mulheres passaram a reivindicar a singularidade de sua dicção há duas gerações, e agora essa outra família de textos é reconhecível. Fica entre parênteses essa lembrança.)

IHU On-Line – Como o sertanejo, compreendido como aqueles sujeitos que vivem fora da faixa litorânea, recontam a história do Brasil por meio da literatura de ficção?
Luís Augusto Fischer – Essa gente viveu sem letras escritas até poucas gerações atrás, mas viveu como vivem os seres humanos em geral — se contando histórias para melhor entender o mundo, para suportarem-se uns aos outros, para sonharem. Já no século XIX, com Alencar , Taunay e outros, ficou claro que esse mundo interior tinha matéria-prima relevante para saber como era o país e a nação, assim como tinha palavra oral. O que os letrados urbanos fizeram, de lá para cá, foi escrever essa tradição, recriando-a, com maior ou menor qualidade e amplitude. Dá para dizer, acompanhando muitos antropólogos, que para esse povo a ideia de “Brasil” era, em grande parte das vezes, uma mera abstração, uma palavra desencarnada, e que portanto não existe para eles um problema chamado “Brasil”, quer dizer, o “Brasil” não era nem de longe uma preocupação para eles, ao contrário do que ocorria nas cidades, especialmente no Rio de Janeiro do século XIX, capital do novo país, que por isso mesmo se sentia no compromisso de enunciar, também na literatura, os contornos dessa experiência nova de independência. Quer dizer, o tema da busca da identidade nacional, a busca por definir “Brasil”, foi uma verdadeira luta explícita entre os letrados do Rio (e de algumas outras cidades), mas não uma questão de vida para os homens e mulheres do grande sertão brasileiro, de sul a norte, de leste a oeste. Eles simplesmente viviam e sonhavam e contavam histórias — mas com o tempo essa matéria toda vai alcançar a letra escrita (e a letra gravada da canção, também), de forma que a ideia de “Brasil”, antes desenhada apenas nas cidades litorâneas, passou a ganhar também o enunciado dessa outra gente. Quando os letrados citadinos olharam com preconceito urbanocêntrico para essa realidade, a chamaram (e ainda a chamam), ou a condenaram, de “regionalista”, termo que rebaixa o objeto a que se refere por sugerir que ela se opõe a outra coisa, a outra dimensão, que se chama talvez “universal”, ou “cosmopolita”, ou “nacional”. Mas quando outros letrados, tanto nascidos na região da “plantation” quanto oriundos do mesmo sertão, se puseram a dar a palavra para este mundo interiorano adequadamente, ficou claro que dali também brotaria literatura, arte, de grande valor. Nesse processo se pode ver, com o curso dos anos, que “Brasil” deixou de ser o que era e passou a ser, nas melhores interpretações (ainda meio raras), uma realidade multifacetada.

IHU On-Line – De que forma a literatura, por exemplo, de Guimarães Rosa, especialmente Grande Sertão: Veredas, traz à baila um Brasil que tende a ser sistematicamente esquecido pelo Estado e mesmo pela literatura?
Luís Augusto Fischer – Basicamente dando a palavra a um homem (imaginado) daquele mundo, e encontrando uma forma narrativa potente (mescla de contador de causo, memorialista e pecador se confessando) e uma linguagem adequada (fala de sertanejo transfigurada artisticamente). Guimarães Rosa nos dá a ver, e a sentir, o ponto de vista de quem é de lá de dentro, que vem de lá de onde o Estado quase não chega, nem mesmo para fazer valer a lei elementar.

IHU On-Line – Qual a importância de se pensar e escrever o Brasil para além da experiência urbana focada nas classes médias e nas regiões centralizadas?
Luís Augusto Fischer – Para dar apenas uma razão: porque esse mundo interior, o mundo do sertão, o mundo que era o do fio do bigode, o mundo da palavra falada e sem escrita, o mundo a cavalo ou a barco, é de uma imensa riqueza, capaz de transformar para melhor nossa vida, pelos ensinamentos que oferece e que podem nos livrar de uns quantos impasses civilizatórios.

IHU On-Line – Há, desde a década de 1990, uma série de produções textuais, de ficção e não-ficção, de autores indígenas. Como o senhor percebe esse movimento de crescimento da literatura ameríndia no contexto nacional? Quais seus significados culturais e políticos?
Luís Augusto Fischer – Creio que em pouco tempo, uma geração a mais talvez, teremos coisa nova em qualidade superior. O que temos agora, se não me falha a percepção, é ótima literatura mas ainda focada, basicamente, aos públicos infantis (mais) e adolescentes (menos). Não é pouco, mas ainda não é tudo. Precisamos deixar o tempo fazer seu serviço, oferecendo aos escritores as condições para que na literatura, em suas várias formas, apareça algo tão sublime quanto, por exemplo, o extraordinário caso de A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), esse monumento que é antropológico mas também memorialístico e algo literário também (tomando esta última adjetivação em seu sentido clássico ocidental, quer dizer, literário como ficcional e poético). Ao mesmo tempo, é preciso mudar nosso ponto de vista sobre o que já existe em matéria de literatura feita sobre o mundo indígena, o mundo ameríndio. Para isso, há uma lição magnífica do livro da Lúcia Sá intitulado Literaturas da floresta - Textos amazônicos e cultura latino-americana (Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012), que resolve um problema antigo — ela mostra que escritores não-índios que escreveram sobre o mundo indígena (de Alencar em diante no Brasil, passando por Machado de Assis , Mário de Andrade , Darcy Ribeiro ) devem ser lidos como tendo produzido literatura escrita em diálogo com a literatura oral, e portanto como tendo feito literatura que de algum modo pertence também aos ameríndios. Com o livro da Lúcia Sá, creio que ingressamos em outro momento da compreensão do fenômeno literário no que se refere a essa relação entre ocidente e mundo ameríndio, entre literatura ocidental e a tradição poética oral dos nativos.■

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