Edição 543 | 21 Outubro 2019

O homem nu nos redimirá

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

Veronica Stigger retoma a obra de Oswald de Andrade em perspectiva com a arte para pensar saídas a um tipo de moralidade violenta que mobiliza pessoas em torno de afetos negativos

O índio é o homem do futuro. Foi Oswald de Andrade quem reconheceu no índio antropófago uma figura capaz de nos redimir das moralizações religiosas, econômicas e políticas que dão forma aos mal-estares das sociedades contemporâneas. “Segundo a lição da antropologia que serviu de inspiração para Oswald, não é para matar sua fome que o antropófago se alimenta da carne de seus inimigos, mas, sim, para absorver seu valor. Acho que ainda estamos processando o complexo pensamento de Oswald de Andrade”, pondera a professora doutora e escritora Veronica Stigger, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

“Parece-me cada vez mais importante voltarmos ao homem nu, a esse homem despido dos tabus, como uma espécie de antídoto para a intolerância cada vez mais crescente em nossa sociedade — e não estou pensando apenas na brasileira. Uma intolerância que persegue a tudo e a todos, desde as minorias (negros, índios, gays, lésbicas, trans, mulheres etc.) até religiões outras que não aquelas associadas ao Estado (e essa associação entre religião e Estado é o que há de mais perigoso); vide os inadmissíveis ataques, a cada dia mais comuns, a terreiros de religiões de matrizes africanas, como a umbanda e o candomblé”, destaca.

A arte continua sendo um espaço não somente de contestação, mas de produção de espaços de liberdade e contestação. “Antes mesmo das eleições, exposições foram fechadas ou sofreram manifestações dos setores mais bárbaros da sociedade”, descreve Veronica. “A arte é, acima e antes de tudo, um espaço de liberdade e experimentação. Não perder essa sua vocação, não se deixar apreender pela tendência de transformar tudo em discurso, é o que há de mais importante nesse momento”, complementa.

Veronica Stigger é escritora, crítica de arte e professora universitária. Possui doutorado em Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de São Paulo - USP e realizou pesquisas de pós-doutorado na Università degli Studi di Roma "La Sapienza", no Museu de Arte Contemporânea da USP e no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. É coordenadora do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema e professora dos cursos de pós-graduação em História da Arte e Fotografia da FAAP, em São Paulo. Como curadora, foi responsável pelas exposições Maria Martins: metamorfoses e O útero do mundo, ambas no MAM-SP (2013 e 2016), e, com Eduardo Sterzi, Variações do corpo selvagem: Eduardo Viveiros de Castro, fotógrafo, no SESC Ipiranga (2015). É autora de dez livros de ficção, entre eles Os anões (Cosac Naify, 2010), Delírio de Damasco (Cultura e Barbárie, 2012), Opisanie świata (Cosac Naify, 2013) e os infantis Dora e o sol (Editora 34, 2010) e Onde a onça bebe água (Cosac Naify, 2015, em coautoria com Eduardo Viveiros de Castro). Com Opisanie świata, seu primeiro romance, recebeu os prêmios Machado de Assis, São Paulo (autor estreante) e Açorianos (narrativa longa). Seu último livro é Sombrio Ermo Turvo (Todavia, 2018).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a atualidade do pensamento antropófago, nos termos de Oswald de Andrade, no século XXI?
Veronica Stigger – Creio que quem melhor descreveu a importância e a atualidade do pensamento antropófago de Oswald de Andrade para os dias de hoje foi o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro numa de suas entrevistas compiladas por Renato Sztutman para a série Encontros (Rio de Janeiro: Azougue, 2007), quando afirma que: “A antropofagia foi a única contribuição realmente anticolonialista que geramos”. E acrescenta: “Ela jogava os índios para o futuro e para o ecúmeno; não era uma teoria do nacionalismo, da volta às raízes, do indianismo. Era e é uma teoria realmente revolucionária...”. Na figura do índio antropófago, Oswald encontrou uma espécie de imagem prenunciadora do ser humano futuro, desde que este conseguisse se libertar das amarras morais, religiosas, políticas e econômicas das sociedades patriarcais.

Mas não foram apenas a liberdade e a alegria primitivas que interessavam a Oswald na figura do antropófago. Interessava-lhe sobretudo a noção de uma identidade que não se constitui somente a partir daquilo que é próprio de um indivíduo ou de uma comunidade, mas que, pelo contrário, se constitui a partir daquilo que é alheio a este indivíduo ou comunidade. Afinal, segundo a lição da antropologia que serviu de inspiração para Oswald, não é para matar sua fome que o antropófago se alimenta da carne de seus inimigos, mas, sim, para absorver seu valor. Acho que ainda estamos processando o complexo pensamento de Oswald de Andrade.

IHU On-Line – Qual a importância, nos dias como os que vivemos, de recuperar a alegria desobediente da Antropofagia?
Veronica Stigger – É fundamental que não deixemos nunca a alegria de lado. Nosso lema deveria ser, para todo o sempre, independentemente da situação política em que nos encontramos (ou justamente em função dela), uma das fantásticas frases de Oswald de Andrade no Manifesto antropófago: “A alegria é a prova dos nove”. Nada me parece ser mais rebelde, mais revolucionário e mais livre que a alegria. Costumo sempre pensar essa alegria desobediente de Oswald como próxima à alegria que Walter Benjamin encontra no caráter destrutivo. Para este, “O caráter destrutivo é jovial e alegre. Pois destruir remoça, já que remove os vestígios de nossa própria idade; traz alegria, já que, para o destruidor, toda remoção significa uma perfeita subtração ou mesmo uma radiciação de seu próprio estado. O que, com maior razão, nos conduz a essa imagem apolínea do destruidor é o reconhecimento de como o mundo se simplifica enormemente quando posto à prova segundo mereça ser destruído ou não”.

IHU On-Line – O que o “homem nu” (compreendido como aquele livre dos tabus) tem a nos ensinar nos dias de hoje?
Veronica Stigger – Parece-me cada vez mais importante voltarmos ao homem nu, a esse homem despido dos tabus, como uma espécie de antídoto para a intolerância cada vez mais crescente em nossa sociedade – e não estou pensando apenas na brasileira. Uma intolerância que persegue a tudo e a todos, desde as minorias (negros, índios, gays, lésbicas, trans, mulheres etc.) até religiões outras que não aquelas associadas ao Estado (e essa associação entre religião e Estado é o que há de mais perigoso); vide os inadmissíveis ataques, a cada dia mais comuns, a terreiros de religiões de matrizes africanas, como a umbanda e o candomblé.

IHU On-Line – Em um exercício de comparação especulativa, como poderíamos imaginar uma possível procissão antropofágica de Flávio de Carvalho, descrita em sua Experiência nº 2, se fosse realizada nos dias de hoje?
Veronica Stigger – A São Paulo de 1931 era completamente diferente da São Paulo de hoje. A começar que, mesmo que já fosse uma cidade em crescimento vertiginoso, superando o Rio de Janeiro em número de indústrias, ainda estava longe da metrópole de 20 milhões de habitantes de agora, em que qualquer grupo é sempre multidão. Tendo isso em vista, gosto de imaginar o Flávio de Carvalho colocando sua boina na cabeça e andando no sentido contrário à Marcha para Jesus, que acontece todo ano, no Corpus Christi, e chega a reunir dois milhões de evangélicos (eis aqui outra diferença: em 1931, eram católicos). A experiência que ele realizou em 1931 continuaria a ser desafiadora, continuaria a ser vista como desestabilizadora da ordem. A única diferença é que hoje ele talvez não saísse vivo do experimento já que estamos agora num tempo em que o neopentecostalismo não apenas encontrou a milícia como estão juntos no governo federal, ou seja, todo o ódio que daí se dissemina, toda a violência que propaga, toda a intolerância com o outro que incentiva, tem o respaldo do Estado. Flávio de Carvalho certamente seria linchado.

IHU On-Line – Parece haver, no seio da sociedade contemporânea, um espírito do tempo tão ou mais conservador que o registrado no início do século passado, contexto em que Oswald denunciava o que ele chamou de “moral enlatada”. Como tal característica se manifesta na atualidade?
Veronica Stigger – No final do Manifesto antropófago, Oswald de Andrade não chega a falar em “moral enlatada”, mas em “consciência enlatada”. Ele escreve: “Contra todos os importadores da consciência enlatada. A existência palpável da vida”. Hoje, estamos vivendo um momento completamente absurdo no Brasil. Há um retrocesso talvez nunca antes visto. Arriscaria dizer que, com essa onda não apenas retrógrada e fascista, mas fundamentalmente burra, vivemos um momento pior do que aquele em que viviam Oswald de Andrade e Flávio de Carvalho, quando existia, por exemplo, uma polícia de costumes, que mandou fechar o Teatro da Experiência do Flávio e sua primeira exposição individual.

Hoje, parece-me, não é preciso haver mais polícia de costumes, porque ela se acha disseminada pela sociedade, em suas várias instâncias, das redes sociais à mídia. Antes mesmo das eleições, exposições foram fechadas ou sofreram manifestações dos setores mais bárbaros da sociedade (setores que buscavam, a qualquer custo, chamar a atenção sobre si e sobre suas estúpidas convicções — e, assim, acabaram conseguindo chegar ao poder). E as tentativas de censura continuaram desde então e se acirram agora com o governo Bolsonaro. O bom — e sempre há um lado bom — é que Bolsonaro (e sua caterva) é tão incompetente, mas tão incompetente que mal consegue se manter sentado na cadeira da presidência. A questão agora não é resistir, mas reagir e contra-atacar. É só empurrar que eles caem.

IHU On-Line – Há declaradamente em opiniões expressas por figuras públicas brasileiras ligadas ao atual governo, ministros inclusive, uma retomada de figuras retóricas beletristas para dizer o indizível, defender o indefensável. O que isso revela sobre o paradigma intelectual (sic) que orienta o pensamento de nossos governantes?
Veronica Stigger – Não há nada de intelectual nesse governo. Há a reunião de um bando de lunáticos, comandados por figuras como a do psicopata da Virgínia, que alguns estúpidos têm o desplante de chamar de “filósofo”. Falando nele, adoro aquela história de que Olavo de Carvalho construiu uma barca no porão da casa e mandou lacrar a porta com tijolo e cimento para que ele pudesse transmigrar em paz. Claro que ele não transmigrou e parece que ele, depois de chorar feito um bebê, teve que ser tirado de lá para não morrer. Acho que diz muito sobre o que está aí: a população brasileira também decidiu se trancar num cubículo de ignorância e agora está morrendo.

IHU On-Line – Do que se trata a “vacina antropofágica”, descrita por Raul Bopp, sobre a Experiência nº 2 de Flávio de Carvalho? Como ela manifesta uma disposição ética?
Veronica Stigger – Raul Bopp , em Vida e morte da antropofagia, texto em que faz um apanhado do que foi e do que pretendeu o movimento, ao fazer uma rápida alusão a esta experiência de Flávio de Carvalho observa: “A vacina antropofágica imunizava algumas atitudes destemidas. Flávio de Carvalho, por exemplo, realizou a sua Experiência Número 2, em sondagem psicológica da multidão, numa procissão de Corpus Christi. Quase foi linchado”. A expressão “vacina antropofágica”, com que Bopp descreve a disposição ética que está na origem da Experiência n° 2, não era invenção sua: tratava-se de uma citação. Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago, já decretava: “Necessidade da vacina antropofágica”. Para quê? “Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores”. Vacina, portanto, contra as “religiões de salvação”, tomando aqui emprestada uma expressão usada por Benedito Nunes . Afinal, afirmava Oswald, há que se combater a “peste dos chamados povos cultos e cristianizados”. Não por acaso, no ano em que enfrenta a procissão, Flávio de Carvalho pinta A inferioridade de Deus, um quadro em que desmoraliza (e o verbo aqui é usado de propósito) a figura de deus.

IHU On-Line – Como a chamada “incivilização” pode inspirar novas formas de vida e de relação com o mundo diante de uma “civilização” pródiga em produzir genocídio, fome, refugiados, autoritarismo e crises ambientais?
Veronica Stigger – De novo, é Eduardo Viveiros de Castro que nos dá a chave. Mas, desta vez, a partir de um livro que ele escreveu em parceria com Déborah Danowski. Em Há mundo por vir? (Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2017), uma ideia soa como uma espécie de baixo contínuo, a de que os índios são especialistas em sobrevivência, já que eles vêm vivendo, há mais de 500 anos, depois do fim do mundo (deles). Por isso que, retomando em certa medida Oswald de Andrade, Viveiros de Castro disse numa entrevista: “A indianidade não é uma sobrevivência do passado, mas um projeto de futuro”.

IHU On-Line – De que maneira a arte pode nos inspirar a pensar novos caminhos políticos e novas formas de vida, enfim, outras ontologias?
Veronica Stigger – A arte é, acima e antes de tudo, um espaço de liberdade e experimentação. Não perder essa sua vocação, não se deixar apreender pela tendência de transformar tudo em discurso, é o que há de mais importante nesse momento. ■

Últimas edições

  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição