Edição 543 | 21 Outubro 2019

O Outro de si próprio

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Ricardo Machado

Raul Antelo analisa, em chave de leitura antropofágica oswaldiana, como a contemporaneidade engendra uma ontologia em que o ser-com passa a habitar o lugar do ser

A Antropofagia não é, propriamente, o inverso das ontologias hegemônicas, em que o ser ocupa a centralidade do mecanismo que coloca em marcha o pensamento Ocidental, tampouco sua negação. “A antropofagia admite então que a tradição ocidental existe, e assim a metafísica do ser tenta reivindicá-la como própria, como seu limite esgarçado ou como um entre-lugar que conserva a memória do dilaceramento originário. Quer reapropriar-se do melhor dessa cultura para usá-lo como arma contra o pior dela mesma, mas sempre a partir de uma inscrição ambivalente, em que o Ocidente se contemplasse a si mesmo como Outro de si próprio. Daí o arco hermenêutico ser incompleto: ele está sempre aberto”, explica Raul Antelo, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Nas sociedades patriarcais, e em certo sentido edipianas por princípio, nas quais o Estado e o soberano são o centro do poder, a vingança foi substituída pelos mal-estares modernos e pós-modernos, primeiro com Freud e depois com Bauman. Contudo, na perspectiva antropofágica, a vingança é capaz de assumir um outro estatuto ontológico, tensionando as estruturas de exclusão social. “A vingança, uma das alegorias, de resto, de Benjamin, está além do mais, associada ao crédito. Mas aí a vingança modernista (material e concreta, ad hominem) vai se tornando, na sociedade de controle, uma vingança que encarna o divino (o capital) como contracara do iluminismo e, portanto, passa a ser difusa e disseminada”, descreve Antelo. “A cidade é alfa e ômega, vítima e algoz dessa liquidação da subjetividade. Se os modernos queriam ser (ser autônomos, ser livres), os contemporâneos, gradativamente compreendemos, não sem violência, querem ser-com, uma vez que essa preposição indica a pré-posição de toda posição, que assim prepara sua disposição não à forma mas à metamorfose”, complementa.

Raul Antelo é professor titular de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Foi pesquisador do CNPq, Guggenheim Fellow e professor visitante nas Universidades de Yale, Duke, Texas at Austin, Maryland e Leiden, na Holanda. Presidiu a Associação Brasileira de Literatura Comparada - Abralic e recebeu o doutorado honoris causa pela Universidad Nacional de Cuyo. É autor de vários livros, dentre os quais Potências da imagem (Chapecó: Argos, 2004) e Crítica acéfala (Buenos Aires: Editora Grumo, 2008), e editou A alma encantadora das ruas de João do Rio (São Paulo: Companhia das Letras, 2008), entre outros.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a importância de pensar a América Latina a partir de suas próprias categorias, ultrapassando uma visão colonizada sobre si própria? Qual o papel da literatura nesse processo?
Raul Antelo – Uma das primeiras questões que saltam à vista é a de que essa hipotética identidade latino-americana, que podemos reconhecer através das signaturas literárias, é forçosamente paradoxal porque ela nunca é idêntica a si, não apenas no sentido de não ser um idiotismo, um indigenismo ou uma autoctonia. Ela não é portadora de autotelismo ou autenticidade, mas não oferece nem mesmo um universalismo (seja o catolicismo de Amoroso Lima ou o cosmopolitismo letrado de Borges ), e nesse sentido é incapaz de relacionar-se coerentemente com o todo do universo restante. A América Latina suporta a identidade an-europeia de muitas Europas singulares, que nela habitam.

Defrontamo-nos, portanto, com uma América Latina intempestiva: uma entidade que cintila, aparece e desaparece, conforme os tempos. Boaventura de Sousa Santos propôs recentemente, em "Stay Baroque ", um pensamento pós-abissal capaz de transcender completamente a oposição binária metropolitano/colonial, Europa/América Latina, argumentando que a força do Iluminismo europeu descansa em duas demandas incondicionais: de um lado, a procura do conhecimento científico, entendido como a única forma verdadeira de conhecimento e única fonte, aliás, de racionalidade; e, de outro, o empenho por derrotar o obscuro e enigmático, sempre julgado não-científico ou mesmo irracional. O caráter absoluto destas duas demandas obedece assim à incondicionalidade das causas que as suscitam, que, por lógica, nos conduzem a consequências incondicionalmente positivas.

Surge então o caráter sacrificial deste pensamento dos abismos que elimina, como sagrado, tudo quanto não lhe é conforme. A natureza sacrificial dessa aposta, que não ignora a ideia do capitalismo como religião (Benjamin , Agamben ), reside no fato de a tolerância e a fraternidade decorrentes da celebração da liberdade e da autonomia carregarem consigo a fatal incapacidade de distinguir coerção de servidão. Avaliadas como contrárias à liberdade e à própria autonomia, e tratadas, portanto, com impiedosa intolerância e violência, tais forças são avaliadas pelo iluminismo sacrificial europeu sem qualquer racionalidade como simples danos colaterais incontornáveis. Traça-se assim a linha abissal entre, de um lado, a luz das causas nobres e das formas iluminadas de organização social e, de outro, as profundas sombras das alternativas silenciadas e das consequências destrutivas. Pensar, pelo contrário, uma epistemologia a partir das consequências tornaria legível a experiência e possível a justiça. É o caminho, segundo Sousa Santos, de transformar as ruínas em sementes. Talvez esse raciocínio nos permita concluir que a América Latina tem sido basicamente isso, um ente de existência precária ou ambígua, suspenso entre o antes e o depois, subordinada a um roteiro (roteiros, roteiros, roteiros, pedia, antropofagicamente, Oswald de Andrade ), que oculta como um segredo sua beleza e seu encanto.

IHU On-Line – No caso do Brasil, o Modernismo, que tem seu mais notório evento na Semana de 1922, trouxe à baila outras formas de pensar nossa realidade?
Raul Antelo – Trouxe e não trouxe. Se escolho e congelo a contribuição de 22, corro o risco de não ver outros artistas e pensadores, anteriores ou não aderentes, que fizeram enorme contribuição. Penso em Araripe Jr. mais do que em José Veríssimo . Penso em Lima Barreto mais do que em Cecília Meirelles . Mas, de outro lado, se posso resgatar precursores ou anômalos, é porque houve uma lei, um centro, chame-se ele Macunaíma (Porto Alegre: LP&M, 2019) ou Serafim Ponte Grande (Rio de Janeiro: Editora Globo, 1990). É sabido: cada texto cria seus precursores.

IHU On-Line – Como a Antropofagia ritual, nos termos de Oswald de Andrade, configura-se também como a expressão de uma forma outra de pensamento?
Raul Antelo – A Antropofagia corresponde a um momento entre ingênuo e auspicioso de incorporar as diferenças. Hoje a autêntica antropofagia consistiria menos na devoração ritualista, do que na análise da atitude complementar, antropoemética. A sociedade de controle vomita indivíduos e problemas. São muito pesados para seu fraco organismo. Nenhum omeprazol dá conta disso.

IHU On-Line – Em seu livro Transgressão e Modernidade o senhor coloca a antropofagia como um “arco hermenêutico incompleto (...) onde se inscrevem as diferenças enfrentadas”. Do que se trata esse arco hermenêutico incompleto?
Raul Antelo – A antropofagia persegue uma ontologia nacional diferencial. Buscam a antropogênese do próprio, resgatando a contribuição intelectual da América, prévio corte do cordão umbilical à metrópole. Querem sentir-se eles mesmos, plena e integralmente, em toda parte. Apropriam-se para tanto da metafísica, porque ela oferece uma ponte, esse meta-, para além, do animal, em direção inequívoca à história humana, isto é, ocidental. Trata-se portanto de um processo muito complexo que a todo momento precisa discriminar o humano e o não humano, a vida e a morte, a natureza e a cultura. A antropofagia admite então que a tradição ocidental existe, e assim a metafísica do ser tenta reivindicá-la como própria, como seu limite esgarçado ou como um entre-lugar que conserva a memória do dilaceramento originário. Quer reapropriar-se do melhor dessa cultura para usá-lo como arma contra o pior dela mesma, mas sempre a partir de uma inscrição ambivalente, em que o Ocidente se contemplasse a si mesmo como Outro de si próprio. É a construção de uma diferença que coincide, paradoxalmente, com a busca, em seu próprio interior, de um modo de formar específico, não herdado ou transplantado. Daí o arco hermenêutico ser incompleto: ele está sempre aberto.

IHU On-Line – Relacionando dois autores importantes no contexto latino-americano, Antonio Candido e Jorge Luis Borges, do que se trata a “vingança modernista” manifesta em obras dos autores?
Raul Antelo – Candido chegou a dizer, apoiado em Literatura e vida nacional (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978), de Gramsci , que a vingança acarretava forte confiança em si mesmo, como lógica do super-homem nietzschiano, em que a vingança pessoal funciona como quinta-essência do individualismo, pauta inapelável de conduta burguesa. A vingança, uma das alegorias, de resto, de Benjamin, está além do mais, associada ao crédito. Mas aí a vingança modernista (material e concreta, ad hominem) vai se tornando, na sociedade de controle, uma vingança que encarna o divino (o capital) como contracara do iluminismo e, portanto, passa a ser difusa e disseminada. O lawfare é talvez seu melhor exemplo contemporâneo. A vingança dos dias de hoje ativa os dois sentidos de vindicare, tanto proteger como punir. Ou antes, ela é mais punitiva do que protetora. Borges costuma usá-la no primeiro sentido (como em "Una vindicación del falso Basílides" e "Una vindicación de la cabala" de Discusión, 1932). Quem aplica a vingança é o vindex, que no direito contemporâneo do lawfare fica assimilado ao iudex, quando o vindex é quem diz ao juiz a violência que foi praticada a seu cliente: vim dicere.

Nessa reconfiguração da vingança, o vindex, como já esclareciam os velhos filólogos como Ernout e Meillet , se torna um defensor da grande família (o fine irlandês aponta à grande família, e nesse sentido o Finnegans Wake (São Paulo: Iluminuras, 2018) configura a vingança colonial do subalterno irlandês). Já no lawfare, a vingança desativa a máquina do direito romano (a presunção de inocência, a documentação por meio de provas factuais) para substituí-la por um conjunto de imagens e firmes convicções meramente ficcionais. A lei volta a seu desenho mais arcaico, a lex talionis, a lei dos talis, a lei do mesmo. A violência entra assim na esfera do jurídico capturando a potentia que fica englobada como potestas. E isso serve para os populismos latino-americanos ou o republicanismo catalão. Goya sempre visionário toca nessas questões em duas gravuras de Los desastres de la guerra: "Tan bárbara la seguridad como el delito" (1815) e "La seguridad de un reo no exige tormento" (1859).

IHU On-Line – Ainda sobre Borges, no texto Uma nova refundação do tempo, ele diz: “O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”. É possível pensarmos o debate que o autor traz nesse texto como uma espécie de perspectivismo?
Raul Antelo – Não é uma refundação do tempo, o que suporia um pai fundador, um centro, uma lei. Mas sim uma refutação dele. O tempo declina porque desaparece o centro. O incêndio de Notre Dame é sintomático. Não é que se queimou um edifício que fazia parte da cidade. Queimou-se o marco inaugural da urbs. Andar pela catedral era, em algum lugar, pisar o vidro que, por transparência, nos permitia ver as relíquias, as ruínas de Lutécia, a cidade romana. Foi a partir da igreja que cresceu a cidade. Esta frase, “o tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”, vamos ouvi-la novamente no final de Alphaville (1965) de Godard . A cidade é alfa e ômega, vítima e algoz dessa liquidação da subjetividade. Se os modernos queriam ser (ser autônomos, ser livres), os contemporâneos, gradativamente compreendemos, não sem violência, querem ser-com, uma vez que essa preposição indica a pré-posição de toda posição, que assim prepara sua disposição não à forma mas à metamorfose. ■

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