Edição 542 | 30 Setembro 2019

As imagens de um novo existencialismo

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Ricardo Machado

Gustavo Fischer analisa como as imagens técnicas produzem novas formas de pensar e se relacionar com o mundo

É a ambiguidade das imagens técnicas e o crescimento de seus impactos no mundo contemporâneo que nos convidam a pensar nas múltiplas forças de sentidos que elas operam. Flusser estava interessado em pensar na forma como determinados aparelhos produziam imagens sem que soubéssemos exatamente o funcionamento de suas caixas pretas. As câmeras fotográficas analógicas, objetos de interesse do autor, são bons exemplos de como somos programados pelas lógicas dos aparelhos para construirmos imagens do mundo, o que gera impactos sobre a forma como devemos nos comportar. A conversão da sociedade em sua versão tecnocientífica tornou-se um ambiente rico para pensarmos atualmente nesses processos.

“As chamadas imagens técnicas são aquelas que para Flusser são mediadas por aparelhos e na qual debruçou-se para pensar a fotografia. Para o autor, o advento deste tipo de imagem (que podemos levar até os aparelhos outros que contêm softwares e que chamamos - talvez em um ato falho Freudiano - de Smartphones) indicaria duas tendências diferentes: uma seria de nos encaminharmos a uma sociedade totalitária, ‘dos receptores das imagens e dos funcionários das imagens’ (Flusser, 2008) e a outra indicaria uma ‘sociedade telemática dialogante’ dos criadores e colecionadores das imagens”, explica o professor doutor Gustavo Fischer, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “A primeira, para Flusser, seria mais negativa se comparada à segunda, mas ambas indicam que ‘as imagens técnicas concentrarão os interesses existenciais dos homens futuros’. É provável que nós sejamos estes homens futuros”, complementa.

O mundo contemporâneo exige que possamos, senão compreender o funcionamento das imagens técnicas, ao menos levar em conta suas complexidades. “Da mesma maneira como, de alguma forma, as aulas de português nos auxiliaram (ou deveriam tê-lo feito) a enxergar um ‘programa’ abaixo do texto (no caso das análises sintáticas, por exemplo) ou de nos fazer perceber estilos, gêneros, estéticas, caberia estimular, desenvolver e ampliar as capacidades ‘fuçadoras’ do homem com as tecnologias”, descreve.

Gustavo Daudt Fischer é graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, com mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. Entre 2001 e 2010 coordenou os cursos de graduação de Publicidade e Propaganda, Comunicação Digital e a Escola de Design da Unisinos. No desdobramento acadêmico de seus estudos na pós-graduação em Comunicação, passou a trabalhar com o campo das interfaces digitais e suas propriedades midiáticas. Em 2011 passou a integrar o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, onde é professor na linha de pesquisa Mídias e Processos Audiovisuais, programa que também coordenou entre os anos de 2015 e 2019. É um dos líderes do grupo de pesquisa Audiovisualidades e Tecnocultura: comunicação, memória e design.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como Flusser compreende o texto escrito e a imagem? Que mundos cada tipo de pensamento – escrito e imagético – produz?
Gustavo Daudt Fischer – Em O mundo codificado (São Paulo: Cosac Naify, 2008), uma obra fundamental para pensar nas aproximações entre design e comunicação, talvez considerando a tecnocultura como uma perspectiva que os reúne, Flusser nos apresenta a ideias de pensamento em linha e pensamento em superfície como forma de problematizar uma relação entre os meios de representação e registro e como, ao nos apropriarmos deles, estamos de fato entrando em modos de ser distintos no mundo, ou ainda, nos colocam em temporalidades distintas.

A escrita representando o pensamento em linha nos coloca no tempo histórico, em processo, é preciso fazer a leitura para chegar-se a uma conclusão, da análise para a síntese. Já o pensamento em superfície, representado por Flusser pela chegada tsunâmica das imagens em telas, cartazes e ilustrações procederia o movimento inverso: primeiramente fazemos uma apreensão do todo, para depois decompormos as partes. A radicalização desse movimento de presença maior dos “meios de superfície” levaria à própria absorção dos “meios em linha” pelos primeiros. As implicações desta reflexão, para Flusser, nos levariam a um tempo pós-histórico no qual, especula, ao invés de termos a “coisa” (dado da realidade) e uma explicação da coisa (conceito) e uma imagem dessa explicação, passaríamos a ter uma imagem e dela decorreria a produção de um conceito.

IHU On-Line – Em termos de compreensão do mundo, qual a importância de levar em conta a diferenciação ontológica entre imagens e imagens técnicas?
Gustavo Daudt Fischer – Para Flusser, em obras como Filosofia da caixa preta (São Paulo: Annablume Editora, 2011) e O universo das imagens técnicas (São Paulo: Annablume Editora, 2008), a reflexão sobre as diferenciações entre imagens e imagens técnicas se esclarece na medida em que a primeira passa pela perspectiva de entender a escrita, por assim dizer, já inscrita em imagens como pictogramas, ideogramas e hieróglifos remetendo a uma ideia de mundo na qual se cria uma capacidade imaginativa, no sentido de imaginar o mundo “exterior” (se pensarmos nas imagens das cavernas pré-históricas, por exemplo).

As chamadas imagens técnicas são aquelas que para Flusser são mediadas por aparelhos e na qual debruçou-se para pensar a fotografia. Para o autor, o advento deste tipo de imagem (que podemos levar até os aparelhos outros que contêm softwares e que chamamos — talvez em um ato falho Freudiano — de Smartphones) indicaria duas tendências diferentes: uma seria de nos encaminharmos a uma sociedade totalitária, “dos receptores das imagens e dos funcionários das imagens” (Flusser, 2008) e a outra indicaria uma “sociedade telemática dialogante” dos criadores e colecionadores das imagens. A primeira, para Flusser, seria mais negativa se comparada à segunda, mas ambas indicam que “as imagens técnicas concentrarão os interesses existenciais dos homens futuros”. É provável que nós sejamos estes homens futuros.

Para tentar ser mais específico em relação à pergunta: a importância de levar em conta esta distinção é retirar nosso olhar habituado ao uso dos meios e dispositivos de produção ou reprodução de imagens/conteúdos de uma cegueira por situação, de ficarmos no hábito do uso e deixarmos de perceber o que se organiza nas camadas materiais e/ou temporais inscritas nestes objetos técnicos. Dito de outra forma: em uma suposta “declaração dos direitos do usuário” deveríamos ter o direito de compreender o funcionamento efetivo dos algoritmos que aceitamos. A computação se move rapidamente para uma (ideia de) invisibilidade, o que isso significa?

IHU On-Line – Nesse sentido como o pensamento de Flusser nos ajuda a pensar os dilemas atuais? De que maneira, a partir de uma perspectiva flusseriana, podemos pensar as implicações sociais da Caixa preta?
Gustavo Daudt Fischer – Creio que estas duas questões possuem conexão importante. Flusser nos indaga sobre nosso papel enquanto funcionários ou enquanto jogadores com relação ao aparelho. Manovich , anos mais tarde, escreverá em um texto curto chamado “Não existe mídia, só software” que as crianças devem aprender a programar. Fala-se em alfabetização digital como já se falava antes (e ainda se menciona) a ideia de literacia midiática (pedagogia para os meios, etc, etc). As caixas pretas estão cada vez mais reluzentes, “intuitivas”, fluidas. Essas e outras palavras (e muitas, muitas imagens) parecem construir uma ideia ainda profundamente “mágica” sobre o aparelho.

Da mesma maneira como, de alguma forma, as aulas de português nos auxiliaram (ou deveriam tê-lo feito) a enxergar um “programa” abaixo do texto (no caso das análises sintáticas, por exemplo) ou de nos fazer perceber estilos, gêneros, estéticas, caberia estimular, desenvolver e ampliar as capacidades “fuçadoras” do homem com as tecnologias. Creio que as consequências foram mais do que evidentes em processos recentes envolvendo fake news e outras estratégias que contam com a falsa transparência do aparelho e que resultaram em situações que agora produzem grandes impasses em sociedades até mesmo consideradas maduras e desenvolvidas, como é o caso do Brexit .

IHU On-Line – O escândalo da Cambridge analítica foi, em certo sentido, um processo de dar alguma transparência à caixa preta das redes sociais. Embora Flusser não ofereça uma fórmula para clarear o interior dos aparelhos produtores de imagens técnicas, qual a importância de tentarmos esse exercício para compreendermos as implicações dos dispositivos na democracia?
Gustavo Daudt Fischer – Flusser gosta de enfatizar que não se propõe a produzir respostas, mas como diz em O Universo das Imagens técnicas: “(...)embora minhas perguntas sejam mascaradas como respostas”. Daí depreendo um ponto importante: interrogar o aparelho não significa negá-lo, mas é preciso que se invente, ou melhor, que se faça o tema de casa de buscar encontrar/produzir redes de investigação e de interrogações que passem por uma perspectiva, ao meu ver, laboratorial-reflexiva. Esse, ao meu ver, é o que os estudos em Comunicação estão pedindo. Na era do frenesi arquivístico, em que a nuvem parece tudo poder guardar de nossas selfies intermináveis, é preciso colocar as coisas em ação, com concretude, produzindo imagens que pensem conceitos. Neste sentido, não se deve desprezar a perspectiva projetual, as reflexões do campo das Digital Humanities entre outras iniciativas. Dois exemplos que me vêm: o laboratório de Cultural Anayltics de Manovich e uma iniciativa menos conhecida, mas muito incisiva nesta visão de jogar com o aparelho: o coletivo Disobidient Eletronics .

IHU On-Line – Por que o ser humano, diferente das máquinas, mesmo sendo programado é capaz de torcer, subverter, o imperativo de sua própria criação?

Gustavo Daudt Fischer – Aqui, pedirei licença para Flusser, para trazer Henri Bergson e sua filosofia vitalista, o que há é evolução criadora, não há como prever e matematizar o futuro com fórmulas e prescrições. Estamos na duração, somos potência e devir. A vida viverá, com suas contradições e (sub)versões.

Leia mais

- Arqueologia e genealogia das mídias, uma articulação necessária. Entrevista especial com Gustavo Fischer publicada na Revista IHU On-Line, nº 375, de 3-10-2011.

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